Acabaremos com hipervalorização de líderes partidários, diz braço direito de Marina

Capobianco, biólogo e assessor de Marina, em seu escritório, em São Paulo (foto: Ernesto Rodrigues/Folhapress)

Capobianco, biólogo e assessor de Marina, em seu escritório, em São Paulo (foto: Ernesto Rodrigues/Folhapress)

Natuza Nery e Marina Dias, na Folha de S.Paulo

Principal interlocutor de Marina Silva com o agronegócio e setores econômicos, o biólogo João Paulo Capobianco foge ao perfil “verde” tão comum no time da presidenciável. Ele não fala difícil e não inventa palavras como “desadaptação criativa”.

“Não duvido que o João Santana [marqueteiro de Dilma Rousseff] já não tenha preparado um filme dizendo que Marina come criancinhas. É o que está faltando”, ironiza ele, sem sorrir.

Assim como a “chefe”, confia na governabilidade, caso ela seja eleita, mesmo sem uma bancada de sustentação ampla no Congresso, e sugere formas de conquistar apoio sem o “toma-lá-da-cá”. Neste ponto, entretanto, Capobianco parece um tanto sonhático aos olhos da maioria que atua no Legislativo.

Folha – Dizem que Marina é sectária. Alguém assim tem como conduzir a Presidência?
Capobianco – Marina é a pessoa menos sectária que conheço. Ela cria uma empatia com você em cima da proposta, depois trata dos problemas mundanos, sabe? Não tem ninguém com quem Marina não converse.

E de onde vem essa ideia?
Porque ela tem posições muito firmes. Só que não tenta impor a ideia dela.

O economista Eduardo Giannetti, aliado, disse que prefere crescer 3% com sustentabilidade a 7%. É isso?
Marina não faria uma troca assim. O Brasil tem um desafio enorme em termos de inclusão social que não pode abrir mão de crescimento. A questão é separar crescimento de “crescimentismo”, que é o crescimento a qualquer preço, visão do atual governo. No “crescimentismo” não importa se vou criar um milhão de conflitos porque botei na cabeça que fazer Belo Monte é o melhor para o país.

É contra Belo Monte?
Não. Outro misticismo, a ideia de que Marina é contra hidrelétricas. A questão é como um projeto é sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental.

Mas crescer com sustentabilidade custa caro.
Como custa caro? Acho que é o contrário. O que custa caro é não fazer.

É caro comer comida saudável, por exemplo. O licenciamento das hidrelétricas do rio Madeira se arrastou por anos em razão da licença.
Anos? Vamos checar [entra no site do Ibama e constata: foi mais de um ano depois]. Essa história do licenciamento é loucura. Ninguém é contra nenhuma obra, nem ambientalistas. E Marina tem credibilidade porque todos sabem que não fará licenciamento incorreto. Licenciamento é o único espaço em que a sociedade pode interferir. Se existisse outro canal para questionar se deve-se construir hidrelétrica no rio Madeira, seria discutido ali.

Está falando de se criar outra etapa de licenciamento?
Não, estou falando de ter um planejamento de infraestrutura que seja capaz de receber as visões da sociedade buscando um conjunto de obras que passe por um grau de debate da sociedade. Muda a prioridade. Hoje, o governo define as prioridades sem nenhuma articulação com a sociedade. Ouve empresas, e não setores.

Se eleitos, vocês dariam continuidade às concessões?
Em tudo o que estiver sendo implantado haverá continuidade. Perguntam se vamos parar Belo Monte. Pelo amor de Deus! Mas só dar sequência não é suficiente. No governo, chegaram ao requinte de discutir com as empresas a taxa interna de retorno. Este governo tem preconceito com o setor empresarial.

O RDC [regime diferenciado de contração, espécie de licitação mais rápida] é um sistema interessante?
Não. O RDC foi feito especificamente para a Copa, para atender às urgências. Agora virou para tudo. Não faz sentido. Acelera processos licitatórios que criam, na opinião das pessoas que temos ouvido, distorções. E acaba flexibilizando avanços que foram obtidos para limitar o poder de fogo de grupos econômicos.

Como vai ser o perfil do eventual ministério da Marina?
Não existe ministério no governo Dilma. Marina explorará o debate interno. Ministros serão ministros de verdade, com independência.

Quem seria mais forte, o ministro da Agricultura ou do Meio Ambiente?
Nem um nem outro. O desafio do Ministério do Meio Ambiente é ter conservação com produção. E na Agricultura é produzir com sustentabilidade. Não é possível no governo Marina você ter um ministro da Agricultura que não esteja alinhado com a perspectiva de sustentabilidade. Ou é isso ou se tem um governo em fragmentação.

Como seria a governabilidade da gestão Marina com uma base de cerca de 40 deputados?
Há hoje a hipervalorização dos líderes dos partidos e a interlocução do governo é feita só com eles. Eles não controlam suas bases, mas vendem uma liderança caríssima. É patético. É preciso recuperar a interlocução com o Congresso. Ministérios precisam estar abertos aos deputados.

Não é um mundo cor-de-rosa?
Aprovamos a Lei de Gestão de Florestas Públicas, considerada impossível, em 11 meses. Por que Marina conseguiu aprovar uma lei que não teve apoio da base do governo? Porque fomos debater. Agora vamos ter mais força, é a Presidência da República. O Congresso não pode ser tratado pelo governo como algo a ser comprado no início do mandato e colocado no cofre.

O problema do Congresso não é ter comprador, é ter vendedor. Funcionou até hoje com base no “toma-lá-dá-cá”.
Para ter “toma-lá-dá-cá” tem que ter quem dê. Qualquer parlamentar quer realizar. Se você tem um governo que quer realizar junto com ele em uma agenda positiva, mas não quer realizar com ele no “toma-lá-dá-cá”, por que não haveria alinhamento?

Há projeto para emendas?
O fim da reeleição e a proposta de coligar programaticamente. Você se une em cima de uma proposta, não para juntar dinheiro, tempo de TV, esquema. Na reforma política você joga elementos para combater o “toma-lá-dá-cá”, que só vai deixar de existir quando você não tiver o “dá-cá”. Nós não vamos dar.

Walter Feldman, coordenador-geral da campanha, falou em “realinhamento dos partidos” e disse que o PSDB “não sobreviveria” a um eventual governo Marina. O que é isso?
O que ele disse é que os partidos estão configurados com essa realidade que está aí. O PMDB nunca disputa a Presidência, nunca apresenta um programa e está sempre no governo. O PSDB vive da oposição ao PT. Se não for assim, o PSDB praticamente não sobrevive. Se você tem uma mudança no relacionamento governo-Congresso é natural que esses elementos se modifiquem. O PSDB vai ter que encontrar seu espaço. Que o PT vai para a oposição raivosa, é óbvio. Agora, os outros partidos estarão diante de um novo cenário.

E qual seria o papel do PMDB?
De enorme importância no Congresso. Vejo como vejo PSDB, PSD e PV: partidos com os quais vamos disputar nossas propostas. Não acho que tendam a ir para a oposição raivosa, onde o PT vai estar, até porque Marina não quer reeleição. A possibilidade para 2018 estará aberta.

O Congresso já não está contaminado com o que Marina chama de “velha política”?
Quem está dizendo que quer mudar não é a Marina, é o eleitor. A possibilidade de o Congresso que chegar não estar permeado por essa cultura é praticamente zero.

Você cita o PT como “oposição raivosa”. Vê a Marina chamando o Lula para conversar?
Ela cita Lula, FHC, Cristovam Buarque, porque são pessoas conhecidas. O Lula significa todos que estão no PT e têm uma visão do futuro que coincide com a da massa.

Vai ter clima, já que a campanha do PT prega que Marina acabará com o Bolsa Família?
O mais absurdo é que o PT acusa Marina de coisas que sabe que ela não fará. Uma forma irresponsável de simplificar a discussão, porque é mentirosa. Não é nem o PT, é o marqueteiro. Não duvido que João Santana já não tenha preparado um filme dizendo que Marina come criancinhas. É o que está faltando.

Não está dando resultado? A diferença entre Marina e Dilma no segundo turno caiu.
O que importa é manter um patamar que permita chegar ao segundo turno.

Todas as críticas do PT tiveram lastro no programa de governo. O documento se transformou em um problema?
O programa permitiu que fossem explicitadas propostas, abriu a possibilidade para bombardeios [dos rivais] e está nos permitindo esclarecer e defender o programa.

Sob Lula, a pauta do Banco Central independente, uma bandeira de Marina, foi vencida. Não vai dar a impressão de que Marina terá um governo conservador na economia?
Não. Estamos indo além do PT e do PSDB para recuperar a política macroeconômica. Lula chamou um banqueiro tucano para presidir o BC e, logo depois, deu-lhe status de ministro. Com Dilma, o BC perdeu credibilidade. Quem diz são os setores da economia, não somos nós. O mais importante é denunciar a política intervencionista do governo provocada por espasmos, com um conjunto de medidas erráticas que beneficiam grupos. O Brasil exige um sinal pela independência do BC e isso não é neoliberal. Se fosse, FHC teria feito.

O governo Marina vai ser de esquerda, centro ou direita?
O PSB é o Partido Socialista Brasileiro. É de esquerda? É o quê? De direita? Acho que essa questão não está colocada.

O pastor Silas Malafaia terá influência no governo Marina?
Malafaia? Você está brincando. Não passa nem perto. O governo será 110% laico, como foi a gestão dela [no Ministério do Meio Ambiente].

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