Estrangeiros que vieram para a Copa do Mundo continuam no Rio de Janeiro meses após a final

‘Copariocas’ se somam aos 69,3 mil estrangeiros que já residem na capital. No Mundial, Rio foi a cidade mais visitada

A americana Elle Bergmann prepara caipirinhas em um 'hostel' na Lapa (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

A americana Elle Bergmann prepara caipirinhas em um ‘hostel’ na Lapa (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

Caio Barretto Briso, em O Globo

Elle Bergmann abre o freezer e pega uma cerveja gelada. Entrega a um inglês sem camisa que acabara de acordar. O relógio na parede marca 14h, ela pega outra longneck, tira a tampinha com a mão e bebe no gargalo. Não poderia sentir-se mais à vontade, como reforçam seus pés descalços. A cena se passa num descolado hostel na Lapa, onde a americana de 25 anos trabalha preparando caipirinhas. Embora não fale português, é ela quem vai às compras e escolhe as frutas da época num mercado na Rua do Riachuelo.

— Meu pai diz que vivo numa bolha — conta, com olhos de um azul translúcido. — Mas estou feliz. Muita gente no meu país só viaja pelo mundo depois de se aposentar. Nunca sonhei com essa vida para mim — completa.

Elle deixou para trás a pequena ilha de Hilton Head, no estado da Carolina do Sul (com menos de 40 mil habitantes), para viver in loco a emoção de sua primeira Copa do Mundo. Já estivera aqui no começo do ano, em pleno carnaval, durante um mochilão pelo continente. Quando desembarcou no Rio pela segunda vez, pouco antes de o Mundial começar, estava decidida a permanecer após o torneio. Conseguiu o trabalho de bargirl, que não chega a ser lucrativo, mas ela ainda tem as economias que fez durante um ano trabalhando como garçonete nos Estados Unidos.

O Rio foi a cidade mais visitada durante a Copa, com 886 mil turistas, mais da metade formada por gente de outros países, segundo o Ministério do Turismo. Pelos encantos da vida praiana, pelo espírito de aventura e também pela dificuldade de emprego na terra natal, muitos se recusam a ir embora e encorpam os 69,3 mil estrangeiros que já residem na capital — dado do Censo de 2010. Continuam espalhados por aí, prolongando a estadia o quanto podem, todos querendo “sugar a essência da vida”, como diria o escritor Henry David Thoreau em seu clássico “Walden’’.

Num bar vazio da Avenida Mem de Sá, o alemão Ritter Milan, de 24 anos, espera a namorada. O olhar se ilumina quando Camila chega, cabelos cacheados, sorriso solar. Foi uma dessas loucuras da vida que os uniu. Era sábado à noite, começo de Copa, e o Rio fervia, com gente de todo o planeta bebendo e cantando pelas ruas. Conheceram-se sob os Arcos da Lapa, na fila de uma barraca de caipirinha. No batuque de um samba, o primeiro beijo.

— Ele é meu conto de fadas — derrete-se Camila Barros, arquiteta, de 27 anos.

— Ela mudou minha vida — devolve Milan.

Ritter Milan veio com um namorada alemã, mas apaixonou-se por uma carioca e está no Rio até hoje (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

Ritter Milan veio com um namorada alemã, mas apaixonou-se por uma carioca e está no Rio até hoje (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

QUANDO O FIM É SÓ O COMEÇO

Nascido em Munique e torcedor do poderoso Bayern, ele era outro quando chegou ao Rio. Desembarcou na cidade com a ex-namorada alemã, um relacionamento que durava seis anos. Sonhava viver o clima da Copa por duas semanas e, quem sabe, ver sua seleção vencedora. Antes de chegarem, passaram alguns meses perambulando pelo mundo. Mas o amor era vacilante — a própria ideia de viajar foi uma tentativa de despertar sentimentos adormecidos. No Rio, a menina pôs um ponto final na história e voltou para Munique. Milan, que trabalha como corretor de imóveis e tirou uma licença não remunerada para viajar, decidiu continuar sozinho sua estada no Rio.

— Fiquei triste, mas éramos como amigos, nem sexo rolava mais. Pensei que teria uma vida de solteiro no Rio, mas conheci a Camila uma semana depois. Foi uma coisa maluca — conta.

As duas semanas que ele passaria na cidade já viraram três meses. Os dois estão morando juntos no apartamento dela, no Largo do Machado. Milan joga basquete no Aterro do Flamengo, faz musculação nos aparelhos da praia, apaixonou-se por molho vinagrete (“nunca comi nada igual”, afirma). Ele acha graça da maneira como é abordado por traficantes na orla de Copacabana:

— Primeiro oferecem uma canga, depois maconha, por último cocaína.

Mesmo sem falar inglês, os familiares de Camila já o tratam como filho. No último churrasco dos Costa, em Campo Grande, o avô pronunciou o nome do casal como se fosse um só (“Camilan”), em seguida desenhou no ar um coração.

O casal Victoria Meyer e Nahuel Veronesi: argentinos foram maioria na cidade durante a Copa (foto:  Adriana Lorete / Agência O Globo)

O casal Victoria Meyer e Nahuel Veronesi: argentinos foram maioria na cidade durante a Copa (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

Movidos a chimarrão e a fernet, bebida alcoólica amarga, os argentinos foram maioria entre os estrangeiros que vieram ao Rio para a Copa. Setenta e sete mil passaram por aqui — os chilenos ficaram em segundo, 45 mil, e os colombianos em terceiro, 31 mil, segundo a Riotur. Para recebê-los, Sambódromo e Terreirão do Samba se transformaram em campings a céu aberto. Vieram com um repertório variado, deixando no chinelo o já cansado “eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Numa canção, lembraram a guerra pelas Malvinas. Em outra, a mais célebre, pediram que disséssemos o que sentíamos (Brasil decime qué se siente…), mas queriam mesmo era provocar (Aiaiai, que risa que me dá, ustedes siete a uno y nosotros en la final).

— Também ouvimos muitas piadas — diverte-se o fanático por futebol Nahuel Veronesi, de 28 anos, morador de Buenos Aires.

Um ano antes do evento, ele convenceu sua namorada, Victoria Meyer, de 25 anos, a fazer uma excursão pelo Brasil rumo à sede da final. Aproveitaram-se das novas regras de visto para nascidos em países do Mercosul, válidas desde 2009, e vieram com uma residência temporária de dois anos. De cidade em cidade, trabalhavam como artistas de rua. Durante o Mundial, tiveram uma boa sacada para ganhar dinheiro: pintar o rosto dos torcedores com as cores de suas bandeiras.

Em um único dia, chegaram a ganhar R$ 400. Há poucas semanas eles gastavam cerca de R$ 90 por dia com hospedagem e comida. Mas trocaram o albergue onde hospedaram-se pelo aluguel de um quarto na casa de uma idosa, em Santa Teresa. A despesa diária caiu para pouco mais de R$ 50.

Todos os dias, Nahuel viaja de metrô até a Pavuna. No trajeto, vai fazendo sua arte pelos vagões, equilibrando no corpo uma bola de contato. As crianças são as que mais gostam da brincadeira, e também os “homens com alma de criança”, ele acrescenta. Mas por que na Pavuna e não nos centros turísticos tradicionais, ou mesmo em lugares de maior movimento?

— Talvez eu ganhasse mais dinheiro em Ipanema. Mas, em Buenos Aires, minha casa fica no subúrbio. Ir à Pavuna me faz bem. É como se eu estivesse mais perto de casa — conta Nahuel.

Ele e Victoria se conheceram no suporte técnico de uma empresa de seguros. Ficaram amigos, começaram a namorar, depois pediram demissão para viajar. Antes de partirem rumo ao Brasil, ganharam algum dinheiro fabricando coleiras de couro para cachorro. Como diz Victoria, “é preciso se virar nessa vida”. Quando anoitece, lá pelas 18h, ela se vira: vai para a Cinelândia, depois passa pela Lapa e termina na Praça Tiradentes, sempre rodopiando bolas de fogo no ar.

Para Rosana Baeninger, coordenadora do Núcleo de Estudos Populacionais da Universidade Estadual de Campinas, todo esse movimento tem menos a ver com a Copa e mais com a inserção econômica do Brasil no cenário internacional — apesar dos baixos índices de crescimento do país. Mas o Mundial acaba atraindo, segundo a pesquisadora, um perfil diferente de estrangeiro, normalmente vindo do Hemisfério Norte.

— São as chamadas “migrações cosmopolitas”. Estamos falando de pessoas que deixam seus países com uma mochila nas costas. Isso faz parte da formação e da experiência delas no mundo — afirma. — Já as migrações do Hemisfério Sul, de um modo geral, têm mais a ver com questões como a pouca inserção dos países vizinhos na mobilidade do capital estrangeiro.

Confirma isso o número de pedidos de refúgio feitos em julho por estrangeiros que entraram no país com o pretexto da Copa. De acordo com o Ministério da Justiça, foram 1.014 solicitações, todas da parte sul do planeta ou de países onde a liberdade individual é um sonho, como Síria (57), Cuba (28) e China (3) — o campeão foi Gana, com 576 pedidos.

Viver no Rio tem seus dissabores, mesmo para quem já não se sente mais turista. Recentemente, Elle Bergmann, a americana que faz caipirinhas, teve o cartão de crédito clonado após sacar dinheiro num caixa eletrônico do Aeroporto Internacional Tom Jobim — uma gangue atua no local há pelo menos cinco anos, como O GLOBO noticiou há poucos meses. Da noite para o dia, sumiram de sua conta US$ 2 mil, devolvidos pelo banco um mês depois.

Nascido na Califórnia, Lars Wallin, 40 anos, passou por situação pior: há três semanas, quando subia a Rua Joaquim Murtinho, em Santa Teresa, foi parado por três sujeitos. Apontaram uma arma para sua cabeça e levaram celular e carteira, com documentos pessoais.

Lars ficou em estado de choque. Passou a sair menos do albergue onde está morando e trabalhando — como recepcionista, faxineiro, faz de tudo um pouco. Ele chegou ao Rio em maio. Embora nunca tenha se ligado em futebol, faz parte de seu projeto de vida aproveitar cada momento. O americano conta que lutou durante sete anos para recuperar todos os movimentos do corpo depois de um atropelamento que lhe causou danos neurológicos — tira o chapéu e mostra, na nuca, as cicatrizes de três cirurgias.

Ele está escrevendo um livro sobre sua vida. Sonha com o lançamento no ano que vem, nos Estados Unidos.

— Estou conseguindo escrever bem aqui no Rio, então decidi ficar mais um tempo, mesmo sem dinheiro. Para economizar, às vezes comemos o arroz e feijão da véspera no café da manhã. É uma vida dura, mas para quem não andava até pouco tempo atrás, estou no paraíso — garante.

Quem trabalha com migrações no Brasil luta por uma nova lei para estrangeiros. A atual é de 1980 e tem trechos anacrônicos. Proíbe, por exemplo, que cidadãos de outros países fundem associações em território nacional. Elaborado durante o regime militar, o documento parece ver gringos como uma ameaça.

— O fluxo migratório mudou. Até os anos 90, poucos estrangeiros vinham morar, na maioria executivos e técnicos de empresas com escritório aqui. A estabilidade da economia e a consolidação do Brasil como um país democrático alterou essa lógica, mas a lei não acompanhou — afirma João Guilherme Granja, diretor do Departamento de Estrangeiros da Secretaria Nacional de Justiça.

Ele defende a criação de um novo modelo de gestão, com uma única estrutura responsável pelas migrações. Hoje, os Ministérios da Justiça, do Trabalho e Emprego e das Relações Exteriores — além da Polícia Federal, vinculada ao primeiro — dividem funções. Mas nenhum deles sabe responder, por exemplo, quantos estrangeiros vieram por causa da Copa e continuam no país.

Para esses aventureiros, o futuro não é uma preocupação. Elle, por exemplo, tentará usar seu passaporte alemão (nacionalidade do pai) para estender por mais seis meses a estada — o limite para o visto de turista é de 90 dias de permanência, prorrogáveis por mais 90. Milan deve voltar para Munique em dezembro — Camila, sua namorada, já comprou passagens para visitá-lo no mesmo mês e também em abril, quando eles farão uma viagem pela Europa. O casal argentino ainda não sabe o que será do amanhã. Um sobrinho de Nahuel está para nascer no México.

— Depois a gente vê no que dá — ele diz.

Victoria completa:

— Se aparecer um barco pra Europa, a gente se manda.

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