Descontrole em acumular coisas pode se tornar doença, alerta médico

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publicado no G1

O comportamento descontrolado em acumular coisas pode se tornar uma doença. O alerta é do médico psiquiatra paranaense Marcelo Kimati. Ao G1, o especialista explicou que o diagnóstico do transtorno é recente e está ligado normalmente a quadros confusionais onde o certo e o errado não conseguem ser distinguidos. Conforme Kimati, os sintomas podem aparecer em várias situações e, historicamente, estão ligados aos transtornos obsessivos compulsivos (TOC), mas também podem aparecer em quadros psicóticos ou de esquizofrenias. Os casos mais frequentes envolvem acúmulos de objetos em geral e animais como cães e gatos. Segundo o médico, o comportamento deixa de ser normal quando um simples objeto ou qualquer outra coisa sem significado ou utilidade nenhuma, se torna uma coisa vital ou de extrema importância – o que gera a dificuldade ao chamado ato de desapegar.

Ainda de acordo com Kimati, a maioria dos acumuladores em Curitiba, por exemplo, estão se tornando um problema de saúde pública do ponto de vista sanitário. “Eles acumulam coisas de forma a poder começar a transmitir doenças em virtude do acúmulo de ratos e de sujeira”. O diagnóstico da doença, segundo Kimati, foi reconhecido pelo DSM-5, sigla para Diagnostic and Statical Manual of Mental Desorders, ou, em português, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. O livro é referência mundial e determina quais comportamentos humanos devem, ou não, ser considerados como doença e, consequentemente, serem tratados.

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Para tentar solucionar o problema em Curitiba, a prefeitura, em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), criou um Grupo de Trabalho Municipal de Acumuladores (GTMA). A ação, que visa identificar e ajudar aos possíveis acumuladores da capital, envolve a Rede de Proteção Animal da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, o Serviço de Saúde Mental e o Centro de Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde. Além da Fundação de Ação Social e o Departamento de Medicina Veterinária da UFPR.
As situações da falta de controle do acúmulo, segundo o psiquiatra, começam a ser percebidas quando o ambiente onde estão guardados os objetos começam a ficar descaracterizados. Ou seja, se eles ficam guardados em uma cozinha, o espaço começa a perder a funcionalidade de uma cozinha e passa a se tornar um depósito, por exemplo. No caso dos animais, a falta de controle ocorre quando eles dominam o espaço ou começam a sofrer com a situação. Ou então, quando o cotidiano do proprietário se torna um problema por conta disso, acrescenta Kimati.

O GTMA ainda está em uma fase inicial, mas já identificou 189 acumuladores em Curitiba. Por enquanto, as buscas ocorrem por meio das denúncias registradas no Ministério Público ou na Central 156 das Secretaria Municipal de Saúde, do Meio Ambiente da Fundação de Assistência Social. Os dados apontam que deste total, 76 são acumuladores de animais, 64 de materiais em geral, 22 de animais e materiais. Outros 33 ainda precisam de confirmação.

A gravidade do problema também pode ser caracterizada de outras duas formas, argumenta Kimati. Uma delas é pela ausência de crítica. “Existem acumuladores que mais parecidos com sintoma compulsivo, de acumulação compulsiva, não conseguem se controlar, mas sabem que isso não é apropriado. A outra forma é quando a pessoa não entende o problema e insiste em continuar com o comportamento”.

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No caso dos animais, os acumuladores foram classificados em três tipos pelo GTMA: cuidador sobrecarregado, resgatador e explorador, segundo o coordenador do projeto Alexander Biondo. O primeiro, segundo ele, exibe certo grau de consciência sobre os problemas de cuidados e relaciona o problema provocado por uma alteração de circunstâncias ou recursos sociais, econômicos e/ou médicos. O resgatador, é o tipo mais comum e é característico por pessoas que têm um forte sentido de missão para salvar animais que leva à compulsão inevitável, ou seja, quando teme a morte dos animais e de si próprio e se opõe à eutanásia.

Os acumuladores classificados como exploradores são os mais difíceis e problemáticos, conforme Biondo. As características são de pessoas que acumulam para atender às necessidades próprias como sociopatas e/ou com distúrbios de personalidade, falta de empatia por pessoas e animais. De acordo com Biondo, essas pessoas se consideram superiores a todos os outros e muitas vezes adotam o papel de especialistas com extrema necessidade de controlar tudo.

Colecionadores x acumuladores

O médico também apontou a diferença entre colecionadores e acumuladores. “A pessoa que coleciona, também pode colecionar compulsivamente. A diferença pode ser notada no quesito organização”, explica.
“O colecionador tende a organizar os objetos de forma racional, respeita o espaço, entende o valor das coisas e também se deixa desfazer de algo. Ou seja, eles possuem algum grau de autocontrole. Já os acumuladores, perdem completamente essa questão da valorização e do significado funcional do objeto”.

Tratamento

Os tratamentos podem ser feitos de várias formas e dependem da gravidade do problema, afirma Kimati. “Não existe um tratamento único e uma grande saída para isso. A taxa de insucesso de um tratamento exclusivamente medicamentoso, por exemplo, é muito alta”. O médico também argumentou que, em alguns casos, o transtorno pode ser solucionado com reabilitações sociais e tratamentos multidisciplinares.

As pessoas que se caracterizam como acumuladoras normalmente não procuram ajuda sozinhas, conforme o psiquiatra. “Essas pessoas têm uma tendência maior ao isolamento porque em casos muito graves, a pessoa começa a dedicar uma boa parte da vida dela a comportamento acumulador. Então, isso tende a ser muito disfuncional”.

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