O texto “proibidão” de Xico Sá

xicosa

título original: Xico Sá escreve à ombudsman

Vera Guimarães Martins, na Folha de S.Paulo

O jornalista e escritor Xico Sá enviou mensagem autorizando a publicação da coluna que acabou motivando seu pedido de demissão da Folha. O colunista conta que estava em viagem na Bahia, razão pela qual não se manifestou antes, e aproveita para esclarecer alguns pontos de vista divulgados em mensagens nas redes sociais.

Confira primeiro a mensagem e depois o texto original, na íntegra.

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Mensagem de Xico Sá

“Li a sua coluna de ontem e achei muito correta.

No que diz respeito aos tuítes de maldizer, quando faço desabafos, foi tudo no tom do “jus esperneandis”, para usar o jurisdiquês.

Havia publicado, nesse sentido, um tuíte com um velho grafite do anarquismo espanhol (“Não compre jornal, minta você mesmo”), dai a sequência da mentira, quando digo que menti pelos veículos a quem prestei serviço.

Obviamente que jornalismo é uma versão (mais próxima possível) da realidade. É nesse sentido que coloco a mentira.

Minhas reportagens sempre foram muito concretas e na grandisissíma maioria das vezes com prova material do crime a tiracolo: revelava, por exemplo, onde estava PC Farias, e dias depois trazia o homem (rs) preso de Bancoc ao Brasil. Revelava que os empreiteiros de SP estavam fazendo bingo para decidir sobre licitações fraudadas e levava o fotógrafo para fazer a foto do telhado ao lado, além de fornecer o resultado da jogatina. Quase sempre assim.

Tomara que o leitor desta Folha tenha alguma memória disso, e a minha biografia, como no seu acertado temor ao final da coluna, não fique manchada.

Sobre o texto vetado no caderno de “Esporte”, não se trata de proselitismo político nem tinha como objetivo declaração de voto. Escrevi uma crônica chamada de “Fla x Flu eleitoral”.

Tratei do desequilíbrio na cobertura dos jornais, sempre a favor de uma candidatura “x”.

Defendo que os jornais brasileiros deveriam adotar a linha de jornais americanos, que declaram seus candidatos, ficaria um jogo mais limpo com leitores.

O mesmo vale para os colunistas tendenciosos. Nesse contexto, pedi perdão a Bakunin (anulei o voto várias vezes por causa do pendor anarquista histórico) e, com humor típico da minha coluna, abri o voto em Dilma. O que julguei uma atitude mais limpa com meus leitores.

Recusei publicar o texto em muitos veículos que me procuraram, inclusive veículos concorrentes da Folha. Também não quis publicá-lo nas redes sociais. Em respeito a você, libero a crônica, caso deseje publicar, na íntegra e com o título, no seu espaço e somente no seu espaço.

Saudações gutenberguianas

Fla-Flu eleitoral

Se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata

Amigo torcedor, amigo secador, mesmo com a obviedade ululante de PT x PSDB, eleição não é Fla-Flu, eleição não é sequer Atlético x Cruzeiro, Galo x Raposa, para levar a contenda para as Minas Gerais onde nasceram os dois candidatos do segundo turno.

Eleição não é um dérbi clássico como Guarani x Ponte Preta, eleição é tão mais rico que cabe, lindamente contra o voto, meus colegas anarquistas na parada, votar simplesmente no nada, nonada, como nos sertões de Guimarães Rosa, sempre na área.

Fla-Flu, embora exista antes do infinito e da ideia de Gênesis, nego esquece em uma semana. Futebol nego esquece no 25º casco debaixo da mesa, afinal de contas, como dizia meu irmão Sócrates Brasileiro, futebol não é uma caixinha de nada, futebol é um engradado de surpresas sempre dividido com amigos de todos os clubes.

Doutor Sócrates Brasileiro que foi mais pedagógico, um Paulo Freire da bola, com a Democracia Corintiana, do que muitas escolas. Doutor Sócrates, Casagrande e Vladimir nos ensinaram mais sobre a ideia grega do “poder do povo e pelo povo” do que toda aquela imposição de Educação Moral e Cívica dos generais das trevas.

Foi-se o tempo que viver era Arena x MDB, era Brahma x Antarctica. Até porque eles hoje são a mesma coisa, a mesma fábrica, a mesma Ambev que botou dinheiro de monte até na Marina evangélica –la não queria, mas o tesoureiro, talvez neopentecostal, pegou do mesmo jeito de todo mundo, vai saber, já era.

Eleição é coisa de quatro anos, no mínimo, pois até quem diz que não quer mais compra um aninho de luxúria e sossego iluminista em Paris, como já vimos no caso do FHC, comprovado em um dos maiores furos desta Folha, reportagem do grande Fernando Rodrigues, parlamentar comprado a preço de mensalão superfaturado.

Cadê a memória, a mínima morália, como diria Adorno, jornalismo safado?

Quem dera eleição fosse apenas o Fla-Flu que dizem. Quem dera fosse apenas um cordel que poderia ser resumido na peleja do playboy danadinho contra a mulher durona. É tudo mais complexo, ainda bem, e se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata.

Como sou favorável à linha dos jornais americanos que declaram voto, coisa que meu jornal aqui teimosamente não encampa, queria deixar claro da minha parte: voto Dilma, apesar do meu pendor anarquista. Perdão, Bakunin, mas meu voto é contra a imprensa burguesa.

Digo que o jornal que me emprega não encampa e justiça seja feita: nunca me proibiu de dizer nada. Nem no impresso nem no blog. “Bota pra quebrar, meu filho”, lembro do velho sr. Frias nessa hora, que cabra!
Seria legal que todos os jornalistas, que têm lado sim, se declarassem. Quem se apresenta para tornar as coisas mais iluminadas?

Na Folha desde 1990,

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