90% das empresas não contratariam Steve Jobs

publicado na Época Negócios

A vida de Nolan Bushnell é de dar inveja. E não apenas a nerds e geeks. O americano fundou a Atari, tornando-se um dos pais da hoje multimilionária indústria de videogames. Para sua empresa, contratou Steve Jobs. Foi o primeiro e o único a dar um emprego ao futuro fundador da Apple. Na época, Jobs estava longe de ser o candidato ideal, sequer o candidato aceitável. Steve gostava de andar descalço, fugia dos banhos e era temperamental. Por que apostar em alguém tão diferente?

“É muito fácil ir com a corrente, mas ao fazer isso você opta pela mediocridade”, afirmou Bushnell durante palestra no HSM Expo Management 2014, evento de gestão realizado nesta terça-feira (04/11) em São Paulo. “Nos próximos dez anos, vamos experimentar mais mudanças do que nunca. As empresas que não mudarem ficarão para trás”. Para isso, encontrar profissionais que fujam ao senso comum é necessário.

Não que seja fácil. “Steve era uma pessoa difícil. Ele tinha muita paixão, mas era terrível com muitos de seus colegas. Para resolver a situação, decidi colocá-lo no turno da noite. Veja bem, não tínhamos um turno noturno na Atari”, afirmou Bushnell. “Eu também sabia que Wozniak [cofundador da Apple] era um engenheiro genial e provavelmente passaria algumas noites com o Jobs. Foi como contratar dois Steves pelo preço de um.”

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Bushnell acredita que, mesmo hoje, sua opção pela contratação de Jobs seria uma exceção. “90% das empresas não contratariam Steve Jobs. As práticas das companhias e seus processos de recrutamento eliminam pessoas como ele. Alguns podem até estar dentro das empresas, mas não conseguem prosperar, ter sua criatividade aproveitada.”

Como evitar esse erros e atrair os melhores profissionais? Bushnell dá sua receita:

Faça propaganda da sua empresa
“Steve nos encontrou porque tínhamos um ambiente de trabalho muito descontraído. Nós nos divertíamos bastante. Tínhamos festa e muitos jogos. Nosso ambiente era muito ‘estranho’ para o Vale do Silício da época. Não nos importávamos se os funcionários vinham à empresa, quando vinham, como se vestiam ou agiam, desde que eles fizessem seu trabalho”

Celebre o fracasso
“É normal que as empresas, à medida que cresçam, sejam tomadas pelos processos. Elas deixam de tomar riscos, de pensar fora da caixa, de ser criativas. Porém, a criatividade está intimamente ligada ao fracasso. Na Atari, todos os bimestres tínhamos um jantar, onde celebrávamos o funcionário que tinha tido a ideia mais maluca que tinha falhado. Queríamos que as pessoas falhassem para aprender. Sem errar, não se aprende. Se você não cair, é porque não está andando rápido o suficiente”

Procure intensidade
“Paixão é essencial. Seja apaixonado e se rodeie de pessoas apaixonadas”

Encontre um lugar para os profissionais “terríveis”
“Vira e mexe, encontramos profissionais muito criativos, apaixonados e geniais, porém sem habilidade social. Coloque-os num porão. Crie um turno noturno para eles. Encontre uma maneira”

Livre-se de quem sempre fala não
“Quando você sempre diz não, você está sempre certo. Nunca assume responsabilidade, não constrói nada. Muitos profissionais constroem carreiras inteiras assim. Eles estão matando a sua empresa. Não tentar coisa novas não é mais aceitável”

Mantenha o espírito de pequena empresa
“Quando a companhia cresce, a preocupação de proteger a marcar se torna perigosa. Separe um grupo de profissionais e deixe eles operarem como uma startup”

Não fique tão atento aos diplomas
“Muitas mentes brilhantes não se formaram em faculdades: Michael Dell, Richard Branson, Steve Jobs…”

Faça seus funcionários lerem ficção científica
“Quem quer inventar o futuro deve ler ficção científica. O livro Diamond Age, por exemplo, falava em iPad e nanotecnologia muito antes de eles existirem”

Procure e vivencie tribos de inovação
“Frequente convenções de quadrinhos. Por quê? Porque metade das pessoas lá é louca. Existe uma linha muito tênue entre genialidade e loucura”

Difícil de colocar em prática? É mesmo. Bushell também deixou passar oportunidades únicas por não arriscar. Ele recebeu uma proposta para comprar um terço da Apple por US$ 50 mil. Não aceitou. “Desde então me arrependo. Eu enxergava o Jobs como alguém muito talentoso, mas não o via como capaz de fazer a Apple virar o que virou”. Não dá para acertar todas.

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