Música de cantor potiguar que cita ‘senzala’ e ‘pretinha’ gera polêmica

Composição ‘Ma Nêga’, de Artur Soares, é alvo de críticas na internet.
Músico nega que música tenha intenção racista ou machista.

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Publicado no G1

Uma composição de um músico do Rio Grande do Norte vem causando polêmica nas redes sociais por, supostamente, conter trechos racistas e machistas. A música “Ma Nêga”, do cantor Artur Soares, traz versos que citam as palavras “senzala” e “pretinha”, principais alvos das críticas. O Coletivo Autônomo Feminista Leila Diniz chegou a publicar uma nota na qual afirma que Soares “se apropria de uma dor histórica” para vender a música. Clique AQUI e veja o clipe da música.

O cantor nega que a composição teve a intenção de ser racista e explica que a música é uma homenagem à mulher negra. “Não tive nenhuma intenção machista ou racista, justamente porque a escrevi em homenagem à uma mulher negra que, por sinal, entendeu à sua maneira e adorou a canção, assim como as mais de vinte negras que gravaram conosco. Acredito nisso, que o que há de bom e o que há de mal no modo de ver as coisas está dentro de nós”, rebateu Soares.
O trecho mais citado nas redes sociais é o que diz “nêga, você vai gostar. Nêga, eu vou te prender na senzala iorubá e o que eu ensinar você vai ter que aprender, porque eu vou te maltratar, pretinha”. A nota do Coletivo Leila Diniz, publicada no Facebook, também fala do verso “trago uma coca-cola pra você pra combinar com sua cor, pretinha”. Para o coletivo, a música de Artur Soares remete a episódios tristes da história, “como a escravidão e a violência sexual a que eram submetidas as escravas mulheres”, diz a nota de repúdio ao artista.

Quanto às críticas, o músico disse que de início não entendeu muito bem, pois “a música havia sido lançada junto ao clipe três meses atrás. Saiu em alguns jornais, blogs, já tocando razoavelmente no rádio… sempre bem recebida e ninguém se manifestou a respeito de tais questões. Quando percebi, uma espécie de burburinho já estava instaurada”.

Sobre “senzala”, “pretinha” e “maltratar”, ele explica que foi influenciado pelo compositor Ataulfo Alves, quando escreveu “Mulata Assanhada”. E citou um trecho da canção: “Ai, meu Deus, que bom seria/Se voltasse a escravidão/Eu pegava a escurinha/E prendia no meu coração!…/E depois a pretoria/Resolvia a questão!”.
O G1 também perguntou se a música poderia ter sido escrito de outra forma e, com a repercussão, se ele pretende mudar a letra, como sugerem alguns críticos. Ele respondeu que a música que ele fez é um single, e que quando gravou a faixa já sabia que ela não entraria em trabalhos posteriores. “Agora, sobre ter escrito de outra forma, não consigo imaginar. Cada canção leva sua própria essência. Vou citar uma frase bem interessante, e que convém perfeitamente ao caso, onde um dos nossos grandes ídolos diz: – não sou eu. São as músicas. Sou o carteiro que as envia. Eu entrego as músicas”.

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Para o Coletivo Leila Diniz, “o cantor não parece compreender que os respingos dessa dor ainda predomina na realidade da população negra, sobretudo das mulheres, e ‘Ma Nêga’ vem rememorar e legitimar a violência colonial perpetrada pelos sinhôzinhos sobre nós”. Na nota de repúdio, o coletivo também estende a crítica a espaços culturais em que Artur Soares apareceu, como o Prêmio Hangar de Música e o projeto Eco Praça, e acrescenta que o movimento tentou sem sucesso o diálogo com o músico.

Já Soares afirma que procurou os críticos para explicar a música, mas não foi bem recebido e acabou desistindo. Para o cantor, cada pessoa interpreta de um modo a música que ele escreveu. “Creio na diversidade da natureza e, sendo assim, não seria sensato afirmar como verdade absoluta apenas quem eu acho que se equivocou no acontecido. Todos nós sabemos que existem variadas formas de se ver a mesma coisa. Suponhamos que há um quadro do imortal pintor Caravaggio à sua frente. Pois bem, quando você analisá-lo para chegar a determinada conclusão, a sua opinião sobre o mesmo quadro certamente será diferente das demais, porque cada um vê o mundo e a arte de uma forma. E essa é a graça da vida, a diversidade”.

Eco Praça
O Eco Praça também publicou uma nota no Facebook após ter o nome envolvido na polêmica. A organização do projeto lamentou o envolvimento em “questionamentos sobre reprodução de comportamentos e ideias racistas e misóginas das quais não compactuamos. Nos comprometemos a avaliar e ser mais atenciosos com o conteúdo das próximas atrações que participarem do Eco Praça”, acrescenta a nota.

Por fim, a organização do projeto faz um convite para que temas como racismo e machismo sejam discutidos na próxima edição do Eco Praça.

“Discordamos de qualquer forma de opressão e convidamos a todos os interessados a participar de uma vivência com o propósito de dialogar sobre temas como racismo, machismo, intolerância de gênero que ainda marcam profundamente a nossa sociedade. Propomos a realização dessa vivência no nosso próximo encontro que acontecerá nos dias 27 e 28 de dezembro”, conclui.

Veja nota do Coletivo Leila Diniz

O cantar ou escutar uma canção é capaz de desencadear fortes efeitos emocionais numa pessoa. Tristeza, alegria, nostalgia, raiva, etc. Por isso, dentre tantas manifestações artísticas, a música é uma das mais fortes influências culturais. Por vezes desperta bons sentimentos, desejos, parafraseando Belchior: desejo de amar e mudar as coisas. Mas nem sempre.
Uma vez que, as práticas musicais não podem ser dissociadas do contexto cultural, podemos pensá-la de duas formas:
1. Meio de transmissão de valores, sonhos, ideais e luta. Como exemplo, basta relembrar o vasto conteúdo musical, símbolo de resistência coletiva, criado na época da ditadura.
2. Reprodução de preconceitos como a objetificação do corpo da mulher, racismo, homofobia, dentre outros.
Em tempos de Felicianos, Aécios e Bolsonaros, o jovem artista potiguar, Artur Soares, escolheu a segunda opção. Este ano, ele lançou a faixa e videoclipe “Ma Nêga”. Segue trechos da música em questão:
“Trago uma coca-cola pra você pra combinar com sua cor, pretinha”
“Nêga, você vai gostar. Nêga, eu vou te prender na senzala iorubá e o que eu ensinar você vai ter que aprender, porque eu vou te maltratar, pretinha”
“Pretinha (calada)”
Para quem tiver dúvidas sobre o contexto, segue a letra completa: http://letras.mus.br/artur-soares/ma-nega/
Desde o lançamento, Artur foi chamado atenção diversas vezes sobre o forte racismo na sua música. A resposta? deboche. E é o que ele continua a fazer diante de quem não se cala.
Artur Soares se apropria de uma dor histórica, como a escravidão e a violência sexual a que eram submetidas as escravas mulheres, para vender sua música.

O cantor não parece compreender que os respingos dessa dor ainda predomina na realidade da população negra, sobretudo das mulheres, e “Ma Nêga” vem rememorar e legitimar a violência colonial perpetrada pelos sinhôzinhos sobre nós.

Quando um artista potiguar abre a boca pra cantar que vai prender a negra na senzala, diz que vai maltratá-la, a manda ficar calada, e por isso ainda vai concorrer a um prêmio, NÃO PODEMOS NOS CALAR, o que, inclusive, ele pede na música! Sobretudo num mês importante como Novembro, marcado especialmente pelos dias 20 (Dia da Consciência Negra) e 25 (Dia da não-violência contra a mulher). Nesse contexto tão importante de luta, nós, do Coletivo Autônomo Feminista Leila Diniz, não poderíamos deixar de vir à público manifestar nosso REPÚDIO ao artista Artur Soares.

Também REPUDIAMOS e convidamos todos a BOICOTAR os meios e espaços culturais (Prêmio Hangar de Música, Eco Praça, dentre outros) que tem recebido e reconhecido Artur Soares, até que haja retrat(ação) do artista e recusa pública em receber esse tipo de música.

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