Após eleição, descontentes da classe alta ‘desistem do Brasil’ rumo a Miami

A designer Malu Guerra e o marido, o consultor José Arnaldo Navarro, com os filhos, preparam a mudança para Miami (foto: Karime Xavier/Folhapress)

A designer Malu Guerra e o marido, o consultor José Arnaldo Navarro, com os filhos, preparam a mudança para Miami (foto: Karime Xavier/Folhapress)

Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo

A designer Malu Guerra, 48, seu marido, o consultor José Arnaldo Navarro, 52, e os filhos, Caio, 9, e Isadora, 7, começaram a se despedir do Brasil. Os móveis do apartamento nos Jardins, zona nobre de SP, foram empacotados na segunda passada. O destino é Weston, subúrbio chique de Miami, onde vão morar a partir de 15 de dezembro.

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O casal é parte de um contingente de brasileiros de classe média e alta que, decepcionados com os rumos da política e da economia, estão indo embora ou planejam deixar o país no futuro próximo. “O resultado da eleição presidencial confirmou a minha opção”, afirma a empresária à repórter Eliane Trindade.

Dona de um escritório de design gráfico, a paulistana conta que ficou “arrasada” com a derrota de Aécio Neves. “Não esperava que o governo dele fosse ser o máximo, mas estava acreditando que as coisas iam mudar.”

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Não se trata de bravata à la Lobão. O cantor alardeou sua intenção de ir embora caso Dilma fosse reeleita, mas voltou atrás. Também não é um êxodo de dimensões apocalípticas como o anunciado por Mario Amato, em 1989, quando declarou que 800 mil empresários fugiriam do país se Lula virasse presidente. Collor venceu as eleições.

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Agora, o coro dos descontentes ecoa nas redes sociais com a hashtag #desistidobrasil. A maioria não passa de blá-blá-blá. Como no vídeo em que a modelo, atriz e jornalista Deborah Albuquerque, 29, chama eleitores do PT de “imbecis e miseráveis”: “Me preparando para viajar para Orlando. Sou rica, bem-sucedida”. A gravação foi curtida por 63 mil pessoas e compartilhada 210 mil vezes.

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Passadas duas semanas, ela admitiu ao repórter Joelmir Tavares que fez o vídeo “no calor do resultado”. “Na hora que vi a Dilma reeleita, planejei de fato ir embora. Mas tenho uma carreira aqui.” “O brasileiro está de fato desestimulado, mas entre dizer que vai mudar e mudar efetivamente é um passo longo”, constata Marcello Agostini, agente imobiliário em Miami, eldorado dos insatisfeitos.

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Em vez de fazer as malas para ir morar com o pai nos EUA, a loira que interpreta a personagem Barbie Fitness foi ao protesto na Paulista, no dia 1º, no qual alguns manifestantes pediram, por exemplo, a volta dos militares.

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Mas o “#projetofui” também ganha contornos reais. “A condição política exacerbou o processo para pessoas que tinham o pensamento de desistir do Brasil. “Já desanimados com a economia, muitos agora decidiram vir para cá de vez”, constata Carlos Eduardo Gonçalves, sócio do FL Alliance Group, que faz consultoria imobiliária e jurídica para quem quer se estabelecer na Flórida.

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Mercado que oscilou ao sabor das pesquisas eleitorais. Segundo Luciana Puggina, também do Alliance Group, o movimento de clientes brasileiros “in loco” teve aumento de 30% no vaivém da eleição presidencial. Com a subida de Aécio na reta final, a procura parou, “mas voltou com volume bem maior horas após o resultado”.

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De malas prontas, Malu usou os serviços de consultoria para agilizar a mudança e abrir sua empresa nos EUA. E explica seu “bye bye Brasil”: “Abri meu negócio há 18 anos, já tive 20 empregados e hoje tenho oito. Esse ano de Copa e eleições foi muito difícil. A sensação é de que aqui não há mais oportunidades nem se sabe o que vai acontecer no país. Já Miami está fervendo”.

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Os temores a fizeram adoecer. “Tava explodindo, minha pressão não baixava nem com remédio.” O marido também lidava com altos e baixos da vida de consultor. Foi visitar uma amiga em Miami e um mês depois voltava para olhar imóveis e dar início à burocracia.

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“Comprei uma casa que é o sonho americano.” Matriculou os filhos numa escola pública a menos de 1 km de seu condomínio, onde imóveis custam a partir de US$ 350 mil. “Eles vão poder ir a pé ou de bike. Em São Paulo moro em frente ao Clube Pinheiros e eles nunca atravessaram sozinhos a rua para ir lá.”

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Financiou 60% da casa em 30 anos. Vai pagar US$ 3.800 por mês, quase a mesma soma da escola particular (R$ 7.000) e do condomínio (R$ 3.400) em SP. Mesmo com noção de que vai se colocar em um mercado competitivo e sob efeito da crise mundial, ela acredita que “nada se compara com o Brasil”.

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Para Caru Guariento, 45, assistente de direção, nada se compara a São Paulo. Mais do que desistir do Brasil, ela cansou da megalópole. “Cheguei a pensar em mudar de Estado, mas optei pelo Chile.” Programa desembarcar de mala e cuia em Santiago, capital chilena, com a filha de 10 anos, daqui a um ano. “Quero uma vida mais simples, com custo menor.”

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O combustível da mudança não foi a decepção eleitoral. “Votei no Aécio, mas espero que a Dilma consiga resolver os problemas do Brasil.” O empurrão final veio com a crise hídrica sob administração do tucano Geraldo Alckmin. “O estopim da falta de água só veio confirmar o quão despreparada São Paulo está. Falta também planejamento em urbanismo e mobilidade, e não é de hoje.”

A carioca Patrícia Brandão, consultora de luxo, tem apartamento de férias em Miami e cogita "ficar mais lá que aqui", após se decepcionar com o resultado das eleições (foto: Arquivo Pessoal)

A carioca Patrícia Brandão, consultora de luxo, tem apartamento de férias em Miami e cogita “ficar mais lá que aqui”, após se decepcionar com o resultado das eleições (foto: Arquivo Pessoal)

A geografia, a organização e o “lifestyle” fazem a balança pender para Miami, no caso da carioca Patrícia Brandão, 51. “Lá, você tem praias quentes, população 70% latina e um jeito de viver festivo como o nosso, só que com regras e serviços americanos”, enumera a consultora de luxo, que mantém apartamento na cidade para férias, mas cogita transformá-lo em residência ao longo do próximo mandato de Dilma.

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“O Brasil produtivo ficou decepcionado com o resultado da eleição”, diz. Ilustrou sua decepção com foto de Aécio e Fernando Henrique no Instagram. “Esse é o Brasil que me orgulha e representa. Vou ser expatriada durante os próximos quatro anos #mudabrasil”. “Usei a palavra expatriada como sentimento. Não é assim: ‘ah, vou me mudar’.” Mas ela pretende ficar mais lá do que aqui a partir do fim de 2015, quando a filha vai se preparar para entrar numa universidade americana.

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O estudante Lucas Sanchez, 21, está há dois meses em Miami fazendo um curso. Ia passar seis, mas aceitou convite para tocar a unidade do restaurante brasileiro Paris 6, prevista para ser inaugurada na cidade em 2015. Filho de Andrès Sanchez, ex-presidente do Corinthians e recém-eleito deputado pelo PT, Lucas se apressa em dizer: “Não desisti do meu país”.

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“Vou aproveitar essa oportunidade para crescer, aprender. Não é para sempre. Um amigo meu ficou só seis meses. Não se adaptou. Em todo lugar, tem coisas boas e ruins.” Lucas brinca que está entre os 8,21% dos brasileiros de Miami que votaram em Dilma, ante os 91,79% de votos dados a Aécio, maior vantagem proporcional do tucano nas eleições.

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Seu patrão, Isaac Azar, que continua morando em SP (“pois minha mulher não topa ir para Miami”), diz que desistir do Brasil não é questão de ser petista ou tucano. “Seja Dilma seja Aécio, para governar tem que compor com o PMDB e fazer concessões em nome da governabilidade que acabam atrasando o desenvolvimento do país.”

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É o que faz empresários como ele, cansados da insegurança, procurarem novo porto para seus investimentos, além da promessa de qualidade de vida. “Dinheiro não tem pátria”, lembra Isaac, sobre a recente revoada de brasileiros afugentados pelo custo Brasil ou pelo “custo Brasília”.

Lucas Sanchez foi para Miami fazer curso de apenas seis meses, mas aceitou convite para trabalhar lá (foto: Arquivo Pessoal)

Lucas Sanchez foi para Miami fazer curso de apenas seis meses, mas aceitou convite para trabalhar lá (foto: Arquivo Pessoal)

Comentários

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1 Comentário

  1. Na França, na Segunda Guerra Mundial, ao ter o país invadido pelas tropas alemãs, boa parte foi às armas, lutar pela defesa do país. Outra, virou “amiga” dos invasores, mulheres francesas viraram amantes dos altos militares alemães e delatores dos seus compatriotas que lutavam pela pátria. Essa turma que vai para Miami “revoltada” com a vontade da maioria em muito me lembra as amantes francesas dos militares alemães. Prá mim, já vão tarde e e que fiquem por lá.

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