Adnet – uma vítima dos blogs agoniza em praça pública

Zeca Camargo, no G1adnet_1300

“A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”. Quando escreveu isso, Karl Marx referia-se à diferença entre dois “Bonapartes” – Napoleão e seu sobrinho Luís Napoleão (Napoleão III) –, num contexto tão sofisticado que eu precisaria de incontáveis parágrafos aqui para descrevê-lo propriamente. No entanto, a famosa frase de Marx provou-se uma daquelas sabedorias universais, possíveis de serem usadas em múltiplas situações, em eras diversas, em contextos dos mais variados. Por isso, foi exatamente esta frase que me veio à memória quando vi, recentemente, o “affair Adnet” se multiplicar como um fungo maldito na internet desde a última sexta-feira (7).

Para a decepção de alguns leitores que talvez tenham parado aqui por conta de uma pesquisa menos apurada sobre o assunto, lamento informar que não vou aqui julgar o caso em si – e por vários motivos. Primeiro porque sou admirador do humorista Marcelo Adnet muito antes de nos tornarmos colegas na mesma emissora. (Os mais apressados imediatamente vão julgar que este é um post que escrevo com uma arma na minha cabeça, apontada pela direção da TV onde eu trabalho, para ajudar na “defesa” de Adnet – como ele precisasse disso… A esses eu recomendo que economizem sua bile na hora de escrever um comentário deslocado; e que, depois, leiam também outro post aqui mesmo neste blog, com o título “Sou obrigado, por contrato, a falar bem de ‘Tá no ar'”).

Segundo, porque pelo contato profissional tornei-me um amigo casual, a quem respeito. Terceiro, porque qualquer especulação sobre os desdobramentos das fotos “comprometedoras” feitas na semana passada, além de ser estupidamente oportunista, não tem a menor consequência num problema que só pode ser resolvido na intimidade dos envolvidos. E quarto, porque eu simplesmente não tenho nada a ver com isso – aliás, nem você, mas eu divago…

O episódio é “fascinante” para mim, como fenômeno de cultura pop. Ao escrever isso, não estou dizendo que as fotos que expuseram uma infidelidade de uma pessoa muito conhecida, e que atingiu níveis de indignação dignos da Inglaterra vitoriana (às vezes me pergunto se evoluímos mesmo como sociedade de lá para cá, mas eu divago de novo a menos de um parágrafo desde a última vez, e isso é grave!). Enfim, ao olhar para o que aconteceu como um “fenômeno pop” não estou levianamente abstraindo que isso não tem repercussões em (pelo menos) três vidas muito reais, que desde a semana passada foram devastadas de maneira também muito real. Mas é que esses detalhes realmente não me interessam – e uma discussão que vá por este caminho certamente não cabe neste espaço.

Olhando então sob a ótica da cultura de massa – ah, a “loucura das massas”, como diria Charles Mackay –, o que me chamou a atenção foi, mais uma vez, a banalização de um desfortúnio pessoal, sobretudo a maneira em que foi usada como combustível de um escárnio coletivo.

Este não é um tema inédito, nem mesmo por aqui. Minha própria estreia no G1, oito anos atrás, foi sobre um vídeo “escandaloso” com Daniela Cicarelli. Em 2008, ainda na “infância” deste blog, escrevi sobre a confusão entre Ronaldo Fenômeno e alguém chamado Andréia Albertini, com o nada sutil título de “Admita: você também adora odiar uma celebridade”. Alguns anos depois, em 2012, quando um oportunista (e aparentemente chantagista) vazou fotos íntimas de Carolina Dieckmann na internet, roubadas do arquivo pessoal da atriz, voltei a falar sobre a linha cada vez mais tênue entre vida privada e vida pública, num texto chamado “Rindo sozinho”. Linha essa que pareceu-me então totalmente abolida quando, semanas atrás, Viviane Araújo teve de se defender publicamente de supostas imagens suas que “viraram viral” (“Envelheço na cidade”). Confesso que sou fascinado por essa discussão – e o que aconteceu com Adnet (e, por conseguinte, com sua mulher Dani Calabresa, uma comediante não menos sensacional do que ele) nos oferece outra oportunidade de falar sobre isso.

Se você me acompanhou até aqui é porque talvez esteja ligado no que aconteceu com Adnet. Se esse não for o caso, aviso novamente que não serei o seu melhor “fofoqueiro” para te atualizar nos detalhes deste “episódio sórdido” (em tempo, as aspas indicam ironia). Para se informar sobre isso, qualquer pesquisa com o nome de Adnet nos últimos quatro dias vai te trazer uma primeira página repleta de links sobre a “transgressão” (aspas, lembra?). Vá, dê um Google. Eu mesmo fiz isso – não vou condenar ninguém.

O ato em si – a própria curiosidade – não me incomoda. Como se diz lá “no Portugal”, é da “p’soa”! Mas a voracidade com que as pessoas gravitam sobre o assunto, e em especial a maldade com que elas comentam sobre o ocorrido, me fez lembrar de uma antiga chamada de capa da revista “Veja”, 25 anos atrás. Lia-se nela: “Cazuza – uma vítima de Aids agoniza em praça pública”.

Para quem não era nem nascido na época – boa parte dos leitores que passam por aqui (e maioria dos fãs de Adnet) – fica difícil explicar o impacto que tal manchete causou. No próprio site da revista, numa página dedicada a 40 anos de grandes reportagens, lê-se que “poucas capas de VEJA despertaram reações tão viscerais”, e justifica que sua “crueza” ajudou para que “o país se conscientizasse da necessidade de discutir o problema da Aids sem rodeios”. Cazuza, sua família, seus amigos e fãs ficaram revoltados e se manifestaram publicamente – num episódio que ecoa até hoje, como quem foi assistir ao musical sobre o ídolo, ainda em cartaz, pode conferir.

Na época, 1989, a polêmica foi a pedra de toque para uma discussão séria e importante sobre os tais limites entre o público e o privado; sobre a relação entre jornalistas e seus entrevistados (um livro que eu havia lido recentemente, em Nova York, onde então morava, tinha me provocado exatamente nessa questão – “O jornalista e o assassino”, de Janet Malcolm, publicado aqui pela Companhia das Letras); sobre a relação entre os ídolos e seus fãs; sobre as consequências que notícias fortes têm nas vidas das pessoas envolvidas (quase sempre desastrosas).

Não havia internet ainda – pelo menos não como a conhecemos –, mas falava-se sobre isso com colegas e amigos por telefone, em eventuais conversas pessoais (morava em outro país, só lembrando), e até naquele meio que poucos lançam mão hoje em dia e que gerações inteiras talvez desconheçam: cartas! Minha lembrança é de debates “apaixonados”, dedos na cara, conflitos “mortais” entre “o certo e o errado” e uma promessa de que isso tudo nos levaria a uma relação melhor, mais humana e mais saudável entre celebridades, notícias sobre elas, e o grande público. Preciso ressaltar que a promessa não se cumpriu?

Pelo contrário, o que vemos hoje – e o “caso Adnet” nos dá mais uma prova disso – é uma preocupação minguante com as consequências da discussão da vida alheia. Os “dedos na cara” agora vêm embebidos em veneno, e a intenção nunca é elevar o patamar da discussão, mas afundar mais e mais na baixaria. Mais grave ainda, ninguém está exatamente preocupado em refletir sobre o que está acontecendo: o que todo mundo quer é rir do que estão comentando. Ou seja, se um dia essa dualidade serviu para expor uma questão trágica do nosso cotidiano contemporâneo, hoje ela só existe como função cômica.

Se eu mesmo não tivesse imposto limites tão claros para o uso de palavrões neste blog, seria mais fácil – e “moderno” – descrever a atitude atual. Eu escreveria: “Foda-se a celebridade! Foda-se a vida pública! Foda-se a ideia de que o próprio ato que estou condenando poderia acontecer comigo também (se é que já não aconteceu)! Foda-se quem tá na boca do povo! Quer ser famoso, tem que se fuder! Foda-se todo mundo!”. Mas eu não posso escrever isso…

E tudo isso é “muito engraçado”. Novamente, a tragédia virou farsa. Se, na época da manchete com Cazuza, a questão era forte, hoje é banal. E a banalidade não está só em quem comenta, mas também em quem divulga. Em tempos de Face & Twitter (reforçando, não uso nenhuma dessas redes sociais, nem Instagram; se você me segue em alguma delas, está sendo enganado por alguém), “fonte e mensageiro” se confundem, estou ciente disso. Mas ainda é possível saber quem escreve esta ou aquela “notinha” (hoje, sinônimo de notícia) – ele ou ela, pelo menos, sabem quem são. E tolamente se orgulham disso.

Téo Pereira, o adoravelmente ridículo personagem saído do universo afiado (e afinado) de Agnaldo Silva para “Império”, não ganhou um destaque ao longo da trama da novela à toa. Como um dos melhores observadores da vida cotidiana que temos hoje na nossa teledramaturgia, o autor captou a onipresença dessa nova encarnação do “jornalista” e colocou o seu papel em discussão. Téo busca inimigos por motivos ora frugais ora pessoais. Mas seu exercício da informação é movido apenas por vaidade. E, como todo vaidoso, ele não entende que, no fim do dia, é ele, e não suas vítimas, o motivo de riso.

Sei que estou exagerando ao comparar esses blogs – e a maneira como a informação se espalha nesses nossos tempos – a uma “praga” como a Aids. O diagnóstico que, na alegoria daquela manchete, fazia um ídolo agonizar em praça pública, era (e ainda é) algo muito mais sério do que a esse nosso fenômeno de (des)comunicação – ninguém questiona isso. Mas só a possibilidade dessa analogia existir, já reforça a ideia de que, quando a história se repete, ela não vem como tragédia, mas como farsa.

Como ando um pouco à margem das redes sociais, acompanho apenas perifericamente essas euforias histéricas sobre a vida dos outros – nossa herança vitoriana, como já assinalei. Mas soube, em conversa informal num almoço de domingo, que a atriz Letícia Sabatella respondeu com humor e inteligência no seu Facebook a uma campanha de difamação que tentaram fazer com ela. O “enquadrameto” que as notinhas que pipocaram depois que foram divulgadas fotos suas deitadas numa calçada depois de alguns copos a mais numa noite de diversão tomou um “passa fora” quando ela mesma garantiu o direito de rir de si mesma.

Adnet não pode se dar a esse luxo. As fotos divulgadas da sua noitada o jogaram numa situação bem mais difícil, e trouxeram impasses bem mais sérios com os quais ele certamente está lidando esses dias. A farsa a que me refiro no início do texto de hoje não é a sua, mas a de todos que ficam sobrevoando a sua volta, tentando jogar sombra em alguém que sempre foi fonte de luz. Como no caso de Carolina Dieckmann, que muita gente já praticamente nem se lembra mais, depois de dois anos (o equivalente a dois séculos na velocidade da internet), suspeito de que aqueles que acham que estão se aproveitando disso vão acabar rindo sozinhos.

Em breve, a banda vai escolher outra música para tocar. Outros ídolos vão agonizar em praça pública. E toda a gente segue conectada, achando que a vida dos outros é bem mais legal de viver do que a dela mesma…

O refrão nosso de cada dia: “Deixa isso pra lá”, canta Ciro Monteiro, como você vai entender ao longo da semana (isso mesmo, aguarde um novo post amanhã mesmo). Resolvi fazer uma homenagem a Assis Valente, de quem matei saudades este fim de semana ouvindo um CD duplo esquecido na minha estante. Vou falar de seus sucessos – “Camisa listrada”, “Brasil pandeiro” –, mas também de composições bem menos conhecidas, como esta que destaco hoje. E não sem motivo. A letra, como sempre genial, é uma súplica para que a mulher amada (Guiomar) não preste atenção nas fofocas e volte para o homem que a ama. “Deixa isso pra lá, Guiomar / Que só querem fazer desunião / Essa gente gente só gosta de falar / Essa gente não tem coração”, canta Ciro Monteiro logo na abertura. Ouvi isso e achei que tinha tudo a ver com o que convidei você para ler hoje aqui neste post. E vou seguir em frente com Assis, acreditando que a batalha contra a ignorância não está nem perto de terminar, mas como ele mesmo nos ensinou em sambas impecáveis (compostos há mais de sessenta, setenta anos!), esta é uma briga que vale a pena entrar. Se possível, com humor. “Quem tem boca fala o que quer, quem gosta de mexido é colher”…

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