Empatia é quase amor

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Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

“Não existe racismo no Brasil. O machismo acabou. Homofobia não é mais um problema.” Quem nunca ouviu isso que atire o primeiro livro de Ali Kamel. Essas declarações, partem, invariavelmente, do opressor -daquele que tem tudo para ser tachado de racista, machista e homofóbico. Difícil ver um negro dizer que nunca sofreu racismo, ou que tem saudades do politicamente incorreto, da época em que faziam “piada de crioulo” na televisão.

Sou homem, branco, heterossexual, cisgênero -nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Faço parte do pequeno grupo de pessoas que ganha mais e manda mais. Quando saio de uma loja e o alarme apita, o vendedor já vem pedindo desculpas: “Pode passar, senhor, o alarme deve estar quebrado”. Faço parte dessa minoria privilegiada que não é revistada, achacada, assediada, estuprada.

Qual é o papel do opressor na luta do oprimido? Não faço a menor ideia -mas a discussão me fascina. Suspeito de que a palavra-chave seja empatia. Sentir dor pela dor do outro é o que nos faz humanos -também é o que nos faz ser chamados de hipócritas, demagogos, esquerda-caviar. Humanidade é um crime imperdoável.

Recentemente, fui capa da “TPM” numa matéria excelente sobre a urgência de se discutir o aborto. Virei, para a maioria da população, um assassino de fetos. Apanhei como um petista no Leblon -normal, já imaginava que fosse acontecer (acho até que estou começando a gostar). O que não imaginava era que seria visto como um tucano na praça Roosevelt. Uma ala do feminismo me acusou de estar querendo “roubar protagonismo”.

Explico-me, portanto: não me interessa qualquer tipo de protagonismo -nem na arte, nem na vida. Sempre preferi papéis menores, ao abrigo dos tomates podres e das manchetes raivosas. Uma das razões que me fez topar a matéria foi justamente a coadjuvância: eram três capas, e nas outras duas figurariam mulheres: Alessandra Negrini e Leandra Leal.

Fiz essa capa porque tenho empatia pelas mulheres que não podem optar pelo aborto, mas sei que não sou a grande vítima da proibição (embora eu acredite que toda a sociedade é vítima da proibição). Apoiar uma causa não significa protagonizá-la, mas investi-la de protagonismo. Se há um protagonista, é a própria causa.

E que fique claro que não sou porta-voz de ninguém. Recomendo, para quem se interessar sobre o assunto, que leia Judith Butler, Chimamanda Ngozie Adichie, Aline Valek, Djamila Ribeiro, Clara Averbuck, Laerte, Nathalie Vassallo, Sofia Favero.

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