Chaves é genial, não envelheceu como Trapalhões ou Chico Anysio, diz Danilo Gentili

O cartunista venezuelano Eduardo Sanabria retrata o encontro de Chapolim e Carlitos, personagem do ator Charles Chaplin, se encontram no céu.

O cartunista venezuelano Eduardo Sanabria retrata o encontro de Chapolim e Carlitos, personagem do ator Charles Chaplin, se encontram no céu.

Keila Jimenez, na Folha de S.Paulo

O humorista Danilo Gentili, 34, é dos jovens humoristas que cresceram vendo “Chaves ” e “Chapolin”. Quando criança, era apenas um espectador assíduo do seriado, mas, já crescido, ele diz que começou a analisar e entender a profundidade daquele tipo de humor.

Para ele, o trabalho de Roberto Bolaños, intérprete e criador do “Chaves”, é mais do que algo pueril e atemporal. “É genial, pois não envelheceu, como ‘Os Trapalhões’ e Chico Anysio”, diz Gentili.

Em entrevista à Folha, o apresentador do programa de entrevistas “The Noite”, do SBT, falou da importância do seriado mexicano para o humor mundial e revela que o segredo da longevidade do programa está nas relações humanas entre os personagens.

Folha – Você era fã do “Chaves”?

Danilo Gentili – Do “Chaves” e do “Chapolin”. Meu pai e meu tio achavam aquilo porcaria, mas eu adorava. Cresci vendo e repetindo frases do seriado. Não os bordões, as frases mesmos. Eu e meus amigos decoramos.

Por que ‘Chaves’ durou tanto e fez tanto sucesso?

O Bolaños fez algo genial. O seriado é dos anos 1970, mas as roupas, os cenários, nada remete a isso. Você não sabe ao certo em que ano se passa, em que local se passa. Tem referências universais. Esquetes dos Trapalhões e do Chico Anysio envelheceram com o passar dos anos. Não resistiram. O Chaves não é datado. Os temas não são datados. Chaves é como um história em quadrinhos.

Mas o segredo do sucesso é a pureza da série?

Analisando de forma rasa, “Chaves” é infantil, inocente. Mas quando você observa mais atentamente, percebe que é um programa que vai além. É uma série sobre pessoas. Vizinhos de um cortiço, a mulher solteira, o órfão, o vagabundo, a solteirona encalhada…

Fala das relações das pessoas, relações humanas, os humorísticos não falam sobre isso. Fazem piada de mulheres politica, e outras coisas. “Chaves” é meio “Os Simpsons”. O conteúdo base é o ser humano, suas fraquezas, suas falhas. Tem crítica social, bullying, ricos e pobres, gente querendo se dar bem, tem inversão de valores…

É politicamente incorreto, certo? Chaves é transgressor, o oposto do que a gente aprendeu que é certo na escola. Por isso é tão incrível. Sabia que o Fidel Castro proibiu a exibição do “Chaves” em Cuba? Considerou subversiva demais. O “Chapolin” é ainda pior, é mais politicamente incorreto. Sou fã do “Chapolin”.

Por que o Chapolin é pior?

Ele é o primeiro anti-herói que conheci na vida. Ele é fraco, pobre, feio, vagabundo, só pensa nele mesmo e nunca está disposto a salvar ninguém [risos]. ‘Chapolin’ é o oposto do super-homem, ele vai na contramão dos sonhos infantis, do que a indústria de heróis vende para a gente. São séries com valores invertidos.

Como assim?

Em ‘Chaves’, as mulheres são as opressoras. Elas batem nos homens, mandam em todos. O mocinho é um orfão pobre, e o bonzinho é dono do cortiço, seu Barriga, que acaba sendo saco de pancada de todos os personagens.

Você tem um episódio favorito?

Não, não tenho nenhum especial. Vi todos, várias vezes, decorei mesmo [risos].

Por que “Chaves” faz tanto sucesso no Brasil?

Nós navegamos um pouco à deriva da cultura latina, mas a série tão universal que não tem como não se identificar com ela. Os países que não tiveram “Chaves” não sabem o que perderam. O preconceito com série é grande, mas é coisa de quem não enxerga além de uma imagem esteticamente perfeita. “Chaves” é mais profundo que isso, é uma história humana, de pessoas que se amam e se odeiam. Todos nos identificamos com essas relações. Esse é o segredo do sucesso e da genialidade do Bolaños.

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