Comissão da Verdade relata papel de igrejas no golpe de 64

Padres tentam evitar choque com policiais a cavalo durante missa de sétimo dia em memória do estudante Edson Luís de Lima Souto, nas proximidades da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Ele foi assassinado em março de 1968 pela PM, em protesto contra a alta dos preços do restaurante universitário (foto: Folhapress)

Padres tentam evitar choque com policiais a cavalo durante missa de sétimo dia em memória do estudante Edson Luís de Lima Souto, nas proximidades da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Ele foi assassinado em março de 1968 pela PM, em protesto contra a alta dos preços do restaurante universitário (foto: Folhapress)

Roldão Arruda, no Estadão [via A Tarde]

O apoio dado pelas igrejas do Brasil ao golpe militar de 1964 e, mais tarde, à consolidação da ditadura, terá destaque no relatório final da Comissão Nacional da Verdade – que será entregue à presidente Dilma Rousseff na quarta-feira, 10. A informação é do coordenador do grupo de trabalho encarregado de analisar a questão religiosa naquele período, o cientista social Anivaldo Padilha.

Em entrevista à reportagem, ele observou que já existe grande quantidade de estudos e pesquisas sobre as perseguições sofridas pelas igrejas e a resistência de religiosos e leigos à ditadura. O colaboracionismo, porém, ainda teria sido pouco estudado. “Lideranças religiosas católicas e protestantes apoiaram o golpe e contribuíram em seguida para a legitimação e consolidação da ditadura”, afirmou.

“Nós já sabíamos, desde o início, do papel importantíssimo que as igrejas tiveram, às vésperas do golpe, na disseminação da ideologia anticomunista, provocando medo e pânico em alguns setores da sociedade. Nesse sentido foram absolutamente responsáveis por criar o clima político que possibilitou o golpe. Agora, porém, obtivemos mais detalhes, chegamos a casos de padres e pastores que denunciaram membros de suas igrejas, fiéis e até colegas.”

Segundo Padilha, o relatório da comissão terá nomes dos delatores. Ele não quis citar nenhum, afirmando que faz parte de um acordo com a coordenação-geral da Comissão Nacional, pelo qual as informações só poderão ser divulgadas após a entrega do relatório a Dilma.

“Nós tivemos acesso a um documento que revela que um bispo e um pastor metodista se ofereceram para ser informantes da polícia”, contou. “Mas esse não foi um caso isolado. Aconteceu em outras igrejas.”

Pai do ex-candidato petista ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, Anivaldo Padilha, que militou na juventude metodista e na Ação Popular, sendo depois preso e torturado, disse que um pastor metodista sabia das prisões e das torturas. “O que se viu muito naquele período foram opções ideológicas – e não o resultado de ignorância ou falta de informação”, afirmou.

Unânime

O apoio ao golpe foi quase unânime entre os religiosos em 1964. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que mais tarde se tornaria uma das principais vozes contra a ditadura, estava entre os apoiadores. Outros dois ícones da resistência, posteriormente, os bispos d. Paulo Evaristo Arns e d. Hélder Câmara também apoiaram o início do movimento, como lembrou Padilha.

“Menciono isso não para desqualificar, mas para mostrar a grandeza desses dois bispos”, explicou. “No momento em que perceberam que haviam caído numa cilada, tomaram consciência de suas responsabilidades e se tornaram dois gigantes na luta contra a ditadura. Vários outros bispos católicos apoiaram o golpe e depois se redimiram. No campo protestante também ocorreram casos assim.”

O documento do grupo coordenado por Padilha tem quase 200 páginas – mas só uma parte dele faz parte do relatório da Comissão Nacional a ser divulgado na quarta-feira. O material restante deve ser transformado numa publicação para distribuição e debate nas igrejas.

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