Estressado no trabalho? A culpa é do seu e-mail

Pressão para responder rapidamente mensagens de trabalho, dentro ou fora da empresa, pode afetar a produtividade e saúde dos profissionais

As pessoas têm problemas de deixar as mensagens sem respostas. diz autora do estudo que vincula esta preocupação com a comunicação no meio corporativo - Reprodução

As pessoas têm problemas de deixar as mensagens sem respostas. diz autora do estudo que vincula esta preocupação com a comunicação no meio corporativo – Reprodução

Publicado em O Globo

A necessidade de se manter sempre conectado ao trabalho e responder imediatamente às mensagens de colegas, clientes e chefes — seja por e-mail ou mensagens instantâneas — pode levar à perda da produtividade ou mesmo a problemas de saúde. É a telepressão, termo cunhado por pesquisadores nos últimos anos, que foi mencionado pelas professoras do Departamento de Psicologia da Universidade do Norte de Illinois (EUA), Larissa Barber e Alecia Santuzzi, em entrevista publicada no “The Wall Street Journal”.

“As pessoas têm problemas de deixar as mensagens sem respostas”, afirma Larissa ao Journal, cujo trabalho vincula esta preocupação com a comunicação no meio corporativo.

Segundo o estudo assinado pelas duas professoras, a ser publicado na próxima edição do “Journal of Occupational Health Psychology”, manter-se constantemente conectado com o trabalho fora do horário de expediente pode diminuir a produtividade e aumentar as chances de o profissional ter problemas de saúde, como burnout. O estudo envolveu duas pesquisas, cada uma com participação de mais de 300 pessoas que afirmaram responder pedidos de trabalho em horários fora do expediente, durante fins de semana, folgas, no período de férias e até mesmo quando estavam doentes, de licença médica.

“Trabalhadores que indicaram sentir maior nível de telepressão apresentavam pior qualidade de sono e eram mais propensos a faltar ao trabalho por motivos de saúde. Além de se sentirem extremamente cansados, também tendem a ter menos foco ou se mostram incapazes de pensar claramente ”, afirma Larissa, acrescentando também que essas pessoas são mais propensas a concordar com determinadas afirmações, tais como: “Eu não tenho energia para ir trabalhar na parte da manhã” ou “Sinto que a minha bateria está acabando”’.

Embora acredite que a possibilidade de usar e-mails ou mensagens instantâneas traz uma vantagem para profissionais ao dar a eles mais flexibilidade de realizar o trabalho também fora do escritório, Larissa admite que isso às vezes embute alguns efeitos colaterais:

“Os funcionários começam a achar que precisam estar disponíveis para responder pedidos a qualquer hora do dia. Esse tipo de conexão contínua não permite às pessoas ter tempo suficiente para se recuperar do trabalho entre um dia e outro”.

Segundo as pesquisadoras, a principal causa da “telepressão” no ambiente de trabalho é uma cultura organizacional que exige dos funcionários que eles estejam sempre disponíveis — o que pode se manifestar de forma sutil no dia a dia, como por meio do uso excessivo de e-mails “urgentes”, pedidos de resposta imediata e de desculpas em respostas com apenas algumas horas de atraso.

“Assim, os funcionários recebem mensagens explícitas ou indiretas do seu ambiente de trabalho de que ter um alto índice de resposta é algo bem-avaliado e esperado de bons funcionários”, ressalta Alecia Santuzzi.

Uma mudança na cultura organizacional poderia ajudar a mudar este cenário, afirmam. Os gestores devem definir expectativas claras sobre o tempos de resposta de suas mensagens. Por exemplo, que os funcionários devem responder dentro de oito horas a uma mensagem recebida durante a jornada de trabalho ou dentro de 48 horas aquelas recebidas no fim de semana — dependendo do tipo de setor e da urgência, é claro. As equipes também podem incentivar os trabalhadores a vasculharem seu e-mail em períodos definidos do dia, deixando as outras horas para o trabalho ininterrupto.

“Em vez de pedir informações o mais rapidamente possível, os gestores devem enunciar um prazo preciso em suas consultas. E se um gerente dispara um e-mail que não seja urgente, deve explicar que não espera que o destinatário o responda de imediato”, diz Larissa.

O estudo alerta que, caso as organizações não comecem a fazer mudanças, poderiam enfrentar consequências, como a diminuição na taxa de retenção de pessoas e na qualidade de trabalho ou até mesmo como o aumento dos gastos com cuidados de saúde.

Medindo a telepressão

As pesquisadoras desenvolveram um modelo para medir a telepressão sentida por profissionais, a partir de seis afirmações que devem ser avaliadas entre “concordo muito” ou “discordo muito” ao completar a frase “quando uso tecnologias de mensagens e e-mails para fins de trabalho…”. De acordo com as pesquisadoras, profissionais que responderem que “concordam” ou “concordam muito” com algum desses itens sentem altos níveis de telepressão. Confira os itens avaliados:

— Acho difícil me concentrar em outras coisas quando recebo uma mensagem de alguém.

— Só consigo me concentrar melhor em outras tarefas depois que respondo minhas mensagens.

— Não consigo parar de pensar nas mensagens até respondê-las.

— Sinto uma necessidade forte de responder os outros imediatamente.

— Tenho o impulso de responder os outros no momento em que recebo um pedido de alguém.

— É difícil para mim resistir à vontade de responder uma mensagem imediatamente.

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