Jogos Vorazes e a Tailândia: a arte pode estimular o senso crítico dos jovens?

Adolescentes tailandeses estão usando a saudação dos filmes de “Jogos Vorazes” para demonstrar reprovação ao golpe militar no país. O caso indaga a responsabilidade social do cinema

Natchacha Kongudo levanta três dedos da mão em frente a um cinema de Bangkok. O gesto aparece como um símbolo de resistência na franquia teen Jogos Vorazes. (foto: Sakchai Lalit/AP)

Natchacha Kongudo levanta três dedos da mão em frente a um cinema de Bangkok. O gesto aparece como um símbolo de resistência na franquia teen Jogos Vorazes. (foto: Sakchai Lalit/AP)

Isabella Carrera, na Época

A Tailândia está assistindo a um cenário político no estilo “vida imitando a arte”. No dia 22 de maio desse ano, um golpe foi aplicado pelo militar Prayuth Chan-ocha que, em agosto, foi escolhido como primeiro-ministro por seus colegas do grupo de oposição ao movimento político antes vigente. Desde então, tailandeses protestam contra as violações de direitos humanos cometidas pelos militares: manifestações e reuniões de mais de cinco pessoas em lugares públicos foram proibidas, veículos de comunicação censurados, acadêmicos, jornalistas e ativistas detidos sem alegações. Para expressar sua revolta contra a opressão, o povo adotou um símbolo específico: três dedos das mãos levantados ao alto. A sinalização atraiu atenção mundial no dia primeiro de junho, quando centenas de pessoas usaram-na enquanto participavam de uma reunião contra o golpe em Bangkok e gritavam “democracia” e “liberdade”.

Se o gesto parece familiar é porque aparece em Jogos Vorazes, série de livros infanto-juvenis adaptados a Hollywood. Os títulos abordam Panem, uma sociedade submetida a um governo ditatorial. Ele organiza uma “disputa” anual entre cidadãos, cujo objetivo é que matem uns aos outros, como uma espécie de reality show, até restar somente um vencedor. Os três dedos erguidos começam a ser usados como uma forma de rebelião silenciosa contra o Estado na medida em que a população para de aceitar a opressão.

As manifestações na Tailândia usando o gesto voltaram a se intensificar no dia 19 de novembro – data de estreia nacional do novo filme da saga, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1. Durante um discurso de Prayuth Chan-ocha em uma cidade no nordeste do país, cinco estudantes vestindo camisetas estampadas com a frase “Não queremos o golpe” ergueram os três dedos e logo foram presos, acusados de violar a lei marcial, e soltos algumas horas depois. No mesmo dia, em Bangkok, três outros adolescentes foram detidos do lado de fora de um cinema em que a produção estava sendo exibida. Eles eram membros de uma organização de manifestantes que comprara centenas de ingressos para o filme e planejava distribuí-los gratuitamente pelas ruas. A rede de cinemas em questão, chamada Apex, cancelou as exibições depois do ocorrido. “O sinal dos três dedos mostra que estou exigindo meu direito básico de viver”, disse Natchacha Kongudom, uma das estudantes, ao jornal The Bangok Post.

Manifestantes interrompem discurso do primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha. Eles foram presos logo após o ocorrido (foto: AP Exchange)

Manifestantes interrompem discurso do primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha. Eles foram presos logo após o ocorrido (foto: AP Exchange)

A equipe responsável pelo novo capítulo de Jogos Vorazes demonstrou solidariedade e preocupação para com os adolescentes tailandeses. “Estávamos filmando quando os primeiros protestos começaram. Em parte foi animador pensar que algo que acontece no filme pode ser tão simbólico para pessoas e para a liberdade. Mas quando alguém é detido por algo que está no seu filme, é perturbador”, disse o diretor Francis Lawrence para o The Sydney Morning Herald. “Há com certeza uma intenção nos filmes de mostrar que mesmo uma só pessoa pode fazer diferença. Mesmo se precise acontecer uma revolução, nunca é preto no branco. Não é simples. É por isso que eu temo quando vejo gente agindo e sendo presa. Porque eu espero que elas entendam as consequências que terão de enfrentar, sejam elas justas ou não”, afirmou Lawrence para o site BuzzFeed News. Já Nina Jacobson, produtora da franquia, considera a adaptação do gesto à vida real inspiradora. “Acho emocionante que o nosso filme tenha se tornado parte da linguagem de resistência. Isso é poderoso e incrível”, disse para o mesmo veículo.

Apesar da influência de Jogos Vorazes sobre o público tailandês, é certo dizer que a cultura sempre vira política nas mãos de quem a consome? Para Marcos Napolitano, docente-orientador no Programa de História Social da USP, a resposta é não. “Esse tipo de filme de aventura pode iniciar uma consciência crítica, mas ela ainda está muito longe do que poderíamos chamar de senso crítico. Esses produtos não têm a obrigação de aprofundar uma reflexão social, então costumam apresentar um olhar muito superficial, despolitizado e genérico do que é resistência, sistema e rebeldia. No fundo, há pouco questionamento político nesses filmes e o poder e a sociedade são representados sem maiores complicações.” Marcos ressalta, porém, que, dentro de uma determinada situação histórica e social, os símbolos de rebeldia vistos na grande tela podem sim “saltar” para a vida real por meio dos espectadores. “O cinema interage com outros aspectos e experiências culturais. A capacidade de reflexão se aprofunda em diálogo com o ambiente de trabalho, a participação comunitária, a escola e a família”, afirma.

Tailandeses propagam saudação de Jogos Vorazes nas redes sociais (foto: Reprodução)

Tailandeses propagam saudação de Jogos Vorazes nas redes sociais (foto: Reprodução)

Silvia Borelli, antropóloga da PUC-SP, concorda com o último argumento de Marcos. Segundo ela, a heroína de Jogos Vorazes, chamada Katniss é uma pessoa comum. Seu distrito é pobre e menosprezado pela sociedade. Ela vive a situação problemática de ter de participar da disputa anual e passa a assumir o papel de protagonista para lutar contra o Mal (o Estado totalitário) em nome da proteção dos mais frágeis e de quem ela ama (como sua irmã e o resto da população oprimida). Sem esperar recompensas ou privilégios, ela usa suas virtudes e astúcia para se impor em situações de perigo. Muitas vezes acaba extrapolando os limites da condição humana, psicológica e física, para conquistar o que quer, sem perder o otimismo nem em meio às adversidades. Todos esses elementos são reconhecidos em qualquer sociedade, não importa o momento histórico. “Algumas narrativas são universais. O modelo clássico de aventura, em que se enquadra a história de Jogos Vorazes, é um deles. Ele faz parte da essência humana e repercute principalmente entre os jovens”, diz.

As características mencionadas, típicas de uma história de aventura, são comparadas pelos espectadores às suas vidas reais, pois nossa imaginação mistura o tempo todo conhecimentos racionais e ficcionais. Mas isso não significa que o espectador irá inevitavelmente tomar uma ação concreta a partir do que interpretou ou sequer desenvolver um engajamento político, diz Borelli. “O gesto dos Jogos Vorazes provoca uma identificação mundial entre os jovens. Todos que leram os livros ou assistiram aos filmes sabem que aquilo é um sinal de transgressão e resistência. Os adolescentes tailandeses identificaram a Katniss como uma defensora dos oprimidos e se apropriaram então dos três dedos levantados para explicar sua causa de um jeito mundialmente compreensivo. O símbolo funciona porque está sendo empregado de um jeito coletivo. Mas a decisão de fazer política por meio de um conhecimento cultural vem do contexto político e social da Tailândia. Não podemos dizer que essa ação teria o mesmo sentido se conduzida em um país com democracia, por exemplo”.

Assim, a interpretação que fazemos de um livro ou filme depende da situação social na qual estamos inseridos. Arte é, em primeiro lugar, fruição e entretenimento. Ela pode receber uma leitura política e até iniciar debates, mas esse não é seu dever. Um dos grandes perigos em atentar a filmes como Jogos Vorazes pelo viés político é, como levanta Marcos, entender resistência e protesto como ações glamourosas. “Sem um pouco de romantismo, não há vontade de combate a opressão. Mas excesso de romantismo pode prejudicar um debate sobre as relações que regem a sociedade e esvaziar o ato de rebeldia. Quando o coração quente se conecta com a cabeça fria é que as coisas começam a ficar interessantes.”

Na Tailândia, os militares alegam atualmente que impedir as revoltas é uma medida necessária para restaurar a harmonia do país. Eles também afirmam que promoverão eventualmente uma eleição e cederão o poder para quem for escolhido pelos civis, mas não antes de instituir algumas condições. Entre as propostas de lei integrando a constituição esboçada por eles, está a de tornar permanentes as restrições da imprensa feitas desde junho.

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