Estudo confirma que ‘espírito jovem’ traz vida longa

Pesquisa britânica mostra que idosos que sentem ter menos do que a idade cronológica vivem mais

De férias no Rio, Maria da Conceição Figueiredo aproveita para conhecer feira de livros no Largo do Machado (foto: Marcelo Carnaval)

De férias no Rio, Maria da Conceição Figueiredo aproveita para conhecer feira de livros no Largo do Machado (foto: Marcelo Carnaval)

Flávia Milhorance, em O Globo

A mais recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última semana, mostrou que o brasileiro acha que é saudável, mas suas práticas não condizem com essa percepção, e o resultado é um número crescente de várias doenças. Mas, em outro caso, a sensação parece, de fato, fazer diferença. Sentir-se mais jovem do que a idade cronológica pode estender o tempo de vida, segundo um novo estudo britânico, publicado ontem na revista “JAMA Internal Medicine”.

Entre as conclusões da pesquisa, está uma bem objetiva: idosos que se sentem pelo menos três anos mais jovem do que a idade cronológica têm menores taxas de mortalidade se comparados àqueles que se sentem mais velhos do que realmente são. Segundo o estudo, que teve duração de oito anos, a autopercepção da idade reflete o bem-estar na velhice.

Os autores usaram informações de um estudo sobre envelhecimento que incluiu 6.489 pessoas, com média de idade de 65 anos, mas cuja percepção era em torno de 56 anos. A maioria dos participantes (70%) se sentia pelo menos três anos mais jovem do que a idade atual, enquanto que 5% sentiam-se mais velhos do que realmente eram.

As taxas de mortalidade foram de 14,3% em idosos que se sentiam mais jovens, 18,5% nos que se sentiam dentro da idade cronológica e 24,6% nos que se percebiam mais velhos. O efeito era mantido mesmo entre indivíduos que passavam por situações que poderiam aumentar a sensação de envelhecimento, como doenças cardíacas e dificuldades para se mover.

Não é que estas pessoas vivam crises de idade. Segundo o estudo, são indivíduos que sentem que têm muito ainda o que viver e, por isso, procuram cuidar da saúde, aderem a tratamentos médicos, têm maior resiliência, autonomia e vontade de se engajar em atividades. Eles, geralmente, têm amigos mais jovens e, por isso, participam de atividades que ajudam a manter a perspectiva positiva. “A autopercepção da idade tem a capacidade de provocar mudanças, então intervenções são possíveis”, diz o estudo.

Por outro lado, aqueles que se sentem mais velhos têm mais chances de se isolar socialmente e se cuidarem menos. “Indivíduos que se sentem mais velhos do que a idade cronológica deveriam ser alvo de campanhas de promoção de saúde com mensagens positivas de comportamento saudável”, conclui o estudo.

A sergipana Maria da Conceição Figueiredo tem 72 anos e veio, sozinha, passar a temporada de festas na casa da família. Filhos e netos ficaram. Enquanto os parentes cariocas trabalham, ela aproveita para curtir a cidade.

— Fiquei sabendo que tinha uma feira de livros e resolvi vir dar uma olhada — conta a leitora voraz, que diz que o “espírito não tem mais de 20 anos”. — Faço muitas atividades e não preciso tomar remédio. Se parar, aí envelheço.

Além da leitura, Maria da Conceição adora cinema, teatro e música:

— Me sinto viajando.

Logo ali perto da feira de livros, Iracy Jesus, de 69 anos, “relaxava” nos equipamentos de ginástica para a terceira idade, instalados na praça do Largo do Machado. É porque ela passara o dia todo no corre-corre.

— Acordei às 6h, vi os jornais, saí de São Cristóvão, fui para a Rua da Alfândega fazer compras, depois vim para a Zona Sul e andei até agora (por volta das 15h) — conta a aposentada, que mora sozinha. Para ela, sua idade estaria “pelos 30” se fosse levada em conta só a disposição.

Atividade física não é o forte de Beatriz de Jesus, e ela até admite que não tem se sentido tão jovem ultimamente. Mas isso não a impede de passar o dia fazendo compras de Natal, ajudar com os netos, morar sozinha e, aos 72 anos, realizar um sonho antigo:

— Fiz cinco períodos de Belas Artes, mas não me formei. Hoje faço aulas de desenho e aquarela. Estou gostando muito.

Iracy Jesus: aos 69, espírito de 30 anos (foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo)

Iracy Jesus: aos 69, espírito de 30 anos (foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo)

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