O preconceito é invencível por definição

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Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo

Desde agosto, nos Estados Unidos, três homens negros foram vítimas de uma reação violenta e letal da polícia.

Nos três casos, os policiais responsáveis não foram indiciados. Eles passarão por uma sindicância interna e talvez sejam afastados do serviço ativo, mas não serão criminalmente responsáveis pelas mortes que causaram.

Os três casos são: um garotão que intimidava pelo seu tamanho, um menino de 12 anos com uma arma de brinquedo e um homem que vendia cigarros avulsos ilegalmente e que resistiu à prisão. O primeiro e o segundo foram mortos a tiros, por medo, e o terceiro foi estrangulado numa gravata, na tentativa de imobilizá-lo.

Manifestantes desfilam pelas ruas de Nova York, Washington e outras cidades dos EUA. Se eu estivesse lá, provavelmente desfilaria com eles. A defesa dos direitos dos indivíduos diante da autoridade constituída é uma causa pela qual ainda gosto de ir às ruas, desde os anos 1960.

Os manifestantes protestam contra o preconceito racial: é razoável pensar que, se os suspeitos fossem brancos, a abordagem e a reação dos policiais teriam sido menos apressadas e menos violentas.

Os policiais pensam que eles não agiram por preconceito, mas por um saber fundado na experiência: as estatísticas mostrariam que, na média, um policial, ao abordar um suspeito, tem interesse em agir com mais determinação e força quando se trata de um negro do que quando se trata de um branco.

Qual é a diferença entre um preconceito e qualquer outro saber? Simples, o preconceito é invencível por definição: ele é um saber que produz uma percepção seletiva da realidade, de maneira que ele não seja desmentido nunca, mas sempre confirmado.

Ou seja, o preconceito faz com que percebamos só o que confirma nosso preconceito; o resto, nem enxergamos. E como, em geral, gostamos de “descobrir” que “tínhamos razão”, é fácil entender que o preconceito é um tipo de saber altamente popular.

Logo nestes dias, surgiu na internet um projeto audiovisual que se interroga sobre o que significa ser branco hoje nos EUA.

O “Whiteness Project” (“projeto brancura”, em português) mostra breves entrevistas com americanos brancos da cidade de Buffalo, Nova York. Alguns se consideram privilegiados por serem brancos, outros consideram que (injustamente) privilegiadas são as minorias étnicas favorecidas pelas políticas de ação afirmativa.

Alguns (raros) dizem se sentir parte de um grupo racial (o dos brancos), outros (a maioria) dizem que nunca pensaram que a raça fosse algo significativo. Vale a pena conferir: www.whitenessproject.org.

Entre as esperanças de minha geração, havia o sonho de uma sociedade “color blind”, daltônica, na qual a gente mal perceberia as diferenças de cor. Nessa sociedade, estaríamos todos numa forma reversa de preconceito, pela qual saber que somos todos humanos nos impediria de enxergar as diferenças de pele.

É óbvio que esse sonho pode se colocar a serviço de uma gigantesca negação do racismo e de seus restos -como se bastasse dizer que a cor não importa para que ela parasse de contar.

No extremo oposto desse sonho, já nos anos 1960, surgiam os diferentes orgulhos de cada grupo étnico. Claro, eles eram reativos: para os negros ou os índios denegridos (essa palavra lembra que o racismo está na língua), era crucial descobrir e afirmar que eles podiam sentir orgulho de sua etnia e de sua cor.

Eu não gosto muito de orgulhos coletivos. Também não gosto da perspectiva de uma sociedade de grupos se encarando, todos orgulhosos de si como grupo. Se for para sonhar, prefiro sonhar com o daltonismo social, mesmo que não seja para amanhã.

Agora, atenção. Quando eu era criança, na Itália, onde eu morava, só havia brancos. Lembro-me que, uma vez, pelos meus 10 anos, numa conversa, eu defendi esta ideia que me parecia óbvia e natural: branco não era uma etnia nem uma raça, o branco era o homem sem raça, assim como a cor branco era a ausência de cor.

“Sir” Isaac Newton me desmentiria facilmente, mostrando-me que a cor branca, passando por um prisma, se quebra em vermelho, azul e verde, que são as cores que a compõem. Mas, aos 10 anos, eu era pré-newtoniano, e me parecia que o branco era a cor da luz e ponto.

Ou seja, cuidado: o sonho de uma sociedade sem cor (daltônica) pode se confundir com o sonho de uma sociedade branca.

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