Transferência de padre provoca fúria no interior paulista

Publicado na Folha de S. Paulo

Com um olhar amedrontado, algo incompatível com o seu conhecido estilo firme, o bispo dom Luiz Antonio Cipolini já tirava o traje paroquial na sala de sacristia da igreja Santo Antonio de Pádua, em Adamantina (a 578 km de SP), quando o padre Wilson Ramos se aproximou.

O bispo olhou para ele e gritou: “A culpa disso tudo é sua”. Naquele domingo (7), uma missa de crisma comandada pelo bispo fora paralisada ao menos três vezes por protestos contra a transferência do padre da cidade.

Ainda na sacristia, o padre suplicou: “Eu não sabia que isso [protesto] aconteceria”.

Em seguida, debruçou-se sobre a mesa, começou a chorar, mas logo se levantou e saiu da igreja para tentar acalmar os manifestantes.

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O padre insistiu pelo fim dos gritos de “bispo racista” e “fica, padre Wilson.”

Enquanto isso, na igreja trancada, sete PMs protegiam o bispo e outras 20 pessoas que trabalharam na missa.

Um sargento tentou um fim pacífico. “Bispo, nós te protegemos, mas o senhor precisaria ir lá fora e dar uma explicação sobre a transferência do padre”. O bispo respondeu: “Eu não devo nenhuma explicação.”

Duas horas depois da missa, quase à meia-noite, o bispo entrou escondido no carro de um PM rumo a Marília (a 435 km de SP), onde fica a Diocese da região e sua casa.

O veículo que ele usou para ir à missa, um Voyage prata, ficou em Adamantina até o dia seguinte, com os pneus furados e riscos na lataria.

A cena foi o ápice de uma polêmica na cidade de 35 mil habitantes, no oeste de São Paulo, que envolveu plebiscito, acusações de racismo, pichações, protestos e determinação de afastamento.
resistência e racismo

Há pouco menos de dois anos, Wilson Luís Ramos foi o primeiro padre negro a ser nomeado para a igreja matriz de Adamantina. Quem o escolheu foi o antecessor de Cipolini, no cargo há um ano.

Ligado a uma ala mais aberta da igreja, Wilson começou a dialogar sobre drogas, alcoolismo e separação.

Mas antes teve de lidar com o racismo. Em uma cidade com forte imigração europeia, alguns fiéis não aceitaram um pároco negro.

“Um dia ouvi uma mulher dizer que deveriam tirar o galo de bronze [em cima da igreja] e colocar um urubu”, disse o padre à Folha.

Para sobreviver na igreja, o padre Wilson teve de passar por um plebiscito no qual 700 fiéis votaram.

Mas reclamações, como de atraso no início das missas, por exemplo, continuaram a chegar ao bispo, e o religioso, no final de novembro, transferiu o padre para a vizinha Dracena (a 634 km de SP). Para o bispo, o padre estava “dividindo a comunidade.”

Procurado desde o início do mês, o bispo não se manifestou até o fechamento desta edição.

DÍZIMO GRAÚDO

Adamantina cresceu ao redor da igreja matriz, e a religião tem grande influência na população. O dízimo chega a R$ 80 mil mensais e, em contra a decisão do bispo, há um movimento para o fim das doações à igreja.

Na cidade, é difícil encontrar quem se declare em público contra o padre Wilson. Uma casa chegou a ser pichada com a palavra “racistas”.

Atualmente o padre e sua mãe vivem de favor em duas casas da cidade -a residência paroquial em Adamantina teve de ser desocupada para a chegada do substituto, mas a nova casa, em Dracena, só será esvaziada no próximo final de semana.

ÚLTIMA MISSA

No sábado (6), centenas de fiéis se reuniram em frente à igreja, durante o que seria a última missa do padre Wilson na cidade. “Tratem bem o padre que chegar”, disse o religioso, sem imaginar o tamanho da confusão com o bispo que viria no dia seguinte.

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