O Natal, o Papai Noel e a fé de todos nós

O sentido dos rituais e da fantasia no aprendizado sobre a vida e nós mesmos

nat

Isabel Clemente, na Época

Na casa onde morei toda minha infância, havia porão e sótão. O piso de tábua corrida e oco reverberava e estalava debaixo da minha correria ou das passadas firmes dos adultos. Na sala cujas janelas enxergavam a rua, havia uma estante estreita em madeira de lei do chão quase ao teto. Sob a minha ótica infantil, o pé direito alto típico das construções antigas era mais inalcançável do que de fato deveria ser. Trocar lâmpadas queimadas era uma aventura que só meu pai empreendia sob atenção total da plateia curiosa: eu. Meus irmãos eram grandes demais para ficarem fascinados com aquilo. As últimas prateleiras daquela estante não me interessavam porque tudo o que eu queria e podia ler estava bem pertinho do assoalho de tábua corrida, ocasionalmente visitado por baratas habitantes do porão.

Havia uma pequena coleção de contos infantis encadernada em capa dura vermelha, da mesma edição da Enciclopédia Barsa, que, com seus vários volumes, ocupava outras duas prateleiras. Não lembro quantos livros eram, mas sei que, graças a eles, travei meu encontro com histórias clássicas do universo infantil, como o burro que espirrava dinheiro, o rei nu, a galinha dos ovos de ouro, João e o pé de feijão, Rapunzel, João e Maria, entre tantas outras.

Aquelas histórias alimentaram minha imaginação durante boa parte da minha infância. Me fizeram sonhar com o impossível e o improvável, me ensinaram sobre o bem e o mal. Por causa daqueles livros, eu sonhava com feijões mágicos que insistia em plantar no canteiro do quintal e tentava imaginar se a agulha da máquina de costura da minha mãe estaria também amaldiçoada, já que dela eu não deveria jamais me aproximar, especialmente se alguém a estivesse usando.

A lembrança do quanto aquelas leituras fantasiosas foram importantes para mim é tão forte quanto a expectativa pela chegada do Natal. Minha fértil imaginação encontrava todas as explicações necessárias para justificar a existência de Papai Noel. Histórias de faz de conta, meus brinquedos e Papai Noel foram meus portais mágicos. Com eles, eu me transportava para uma dimensão onde eu ia elaborando dúvidas, medos, desejos e sonhos sem necessariamente que um adulto viesse tentar me explicar o inexplicável. A brincadeira tem esse papel para qualquer criança como ensaio, tentativas e erros, para a vida.

Na casa de pé direito alto e janelas brancas gradeadas não havia chaminé, mas tinha o sótão. Era plausível que Papai Noel utilizasse o vão entre o forro e o telhado para fazer sua entrada sorrateira e deixar meu presente perto da árvore de Natal.  E não poderia ser outro o motivo para os barulhos que, juro, vinham do telhado na noite de Natal. Papai Noel também daria um jeito de pular do sótão ao chão sem se ferir, e sem a escada magirus doméstica – a mesma usada para trocar lâmpadas queimadas e pular por cima do muro.  Foram muitos dezembros em que vi rastros de luz na janela e escutei sininhos. Tentei ficar acordada mas, com medo de flagrar Papai Noel na sala, eu dormia. Eu o admirava e respeitava, como o ser fantástico que era, e no máximo acenava de longe em sua triunfal e única descida de helicóptero no Maracanã.

O presente dele na noite de Natal me importava tanto e de tal forma que nunca questionei o porquê de meus pais também não me presentearem como o bom velhinho.

A exploração do consumo nesta época do ano tem levado muitos pais a encerrarem a fantasia do Papai Noel logo na primeira infância, como um contra-ataque desesperado à onda materialista que parece tomar como um tsunami comércio e pessoas. Eu também detesto esse lado sem sentido que cria falsas necessidades, e muitas de última hora, mas não deixo abalar minha fé nos rituais. Se a data foi estabelecida por interesses outros que não têm nada a ver com o aniversariante do dia, com o qual nem todos concordam porque time de futebol e religião cada um tem o seu e a sua, realmente não me interessa.

Acreditar naquilo que não se vê é expediente usado até pelos mais agnósticos dos cientistas, que precisam muitas vezes lidar com a consequência de uma experiência sem vislumbrá-la integralmente. Milagres da ciência.

É também mecanismo dos que aguardam por curas, reviravoltas na vida, um novo emprego e até amor.

Um dia Papai Noel sairá de cena e não fará mais parte do arsenal fantasioso dos nossos filhos, mas em seu lugar, quem sabe, ficará a capacidade de entender que a vida, por mais contraditória e difícil que seja em certos momentos, também nos traz presentes do nada.

O Natal, quer sob o aspecto religioso ou puramente lúdico, é uma ferramenta auxiliar no desenvolvimento da fé, este ingrediente essencial na vida de qualquer um se não ajudar também não costuma atrapalhar.  Reduz a sensação de vulnerabilidade e renova nossa capacidade de acreditar em nós mesmos e, por que não, na humanidade.

Feliz Natal.

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