Um doce para quem adivinhar do que os sucos de caixinha são feitos

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Rita Lisauskas, no Estadão

Eu sempre achei que na caixinha de suco de fruta encontrávamos… fruta. Não era ingênua, sabia que havia açúcar, mas achei que na caixa do suco de uva tinha uva e na de maracujá tinha maracujá e por aí vai. E mesmo dando prioridade as frutas que viram suco no “juicer” que tenho em casa, sempre comprava umas duas caixas para aqueles momentos em que não tinha tempo para descascar, picar a fruta e principalmente lavar o eletrodoméstico (são várias pecinhas pequenas e pentelhas que precisam ser higienizadas com muito cuidado). Achava que minha escolha estava correta.

Quando meu filho começou ir à escola e fazer lancheiras diárias entrou para minha lista de tarefas, continuei priorizando os sucos de fruta naturais. Comprei uma garrafinha térmica e fazia uns suquinhos legais para ele levar à escola. Evitava apenas o de laranja que, mesmo conservado, fica com um gosto ruim depois de algum tempo. Tudo ia bem até o dia em que recebemos um telefonema da escola para nos contar que Samuca tinha derrubado a garrafinha no chão. Com a queda, a parte interna se quebrou em vários pedacinhos espelhados que se misturaram ao suco. E o meu filho bebeu. A escola agiu rápido: examinou e lavou a boca e a língua do meu filho, telefonou para o pediatra e até para o fabricante da garrafinha. Estava tudo bem com ele, mas a partir desse momento a jarrinha térmica deixou de ser uma opção para mim.

Decidi procurar alternativas. Acreditava que o suco de soja era saudável porque na minha cabeça tudo o que era de soja era saudável. Semanas mais tarde me foi pedida uma reportagem sobre os perigos (!?) do suco de soja em excesso para as crianças. Uma menina que tomava copos e mais copos todos os dias começou a entrar na puberdade aos cinco anos: já tinha pelos pubianos e os seios começaram a crescer. Depois que o suco de soja foi riscado de sua dieta os médicos conseguiram impedir que ela menstruasse tão precocemente.

O pediatra que me deu entrevista naquela matéria, o Dr. Marcelo Reibscheid, explicou que os sucos de soja têm fitoestrógenos, um homólogo do hormônio feminino estrógeno. Mas deixou claro que o consumo de uma caixinha por dia é seguro, o problema mesmo é o consumo em demasia. Nas meninas o efeito colateral desse hormônio feminino é a puberdade precoce e nos meninos a infertilidade. Não quis arriscar e tirei o suco de soja da minha lista de compras e da lancheira do Samuca, claro.
Então comecei a pesquisar sobre sucos. Nessa busca por informação descobri que os sucos de caixinha na verdade nem podem ser chamados assim: o nome correto é néctar (e esse nome que aparece na maioria das caixinhas, pode reparar).

Por lei, apenas 20% da composição de cada caixinha de suco tem que ter fruta. Os outros 80% do tal néctar são açúcar e aditivos químicos. Para conseguir a honra de receber o nome “suco” o produto tem que conter 100% de fruta. Existem algumas marcas que realmente vendem suco em caixinha. São mais caras e para chegar a elas você tem que pesquisar, ler rótulos e algumas publicações sobre o assunto. O Idec, Instituto de defesa do consumidor, testou os néctares – essa bebida feita de açúcar, química e quase nenhuma fruta. E descobriu que algumas marcas não respeitam nem o limite mínimo de 20% de fruta que a lei impõe. Clique aqui se quiser ler a pesquisa do Idec e conhecer as marcas reprovadas: http://www.idec.org.br/uploads/revistas_materias/pdfs/16_fruta.pdf

O próprio Idec fez um vídeo sensacional. Um entrevistador oculto pergunta para as crianças do que os sucos de caixinha são feitos. Eles apostam na intuição e na lógica: acham que no suco de fruta tem fruta. São convidadas a ler o rótulo – algo que todos nós temos que fazer, aliás, embora nem todas as informações estejam ali.

Os pequenos vão se assustando e se decepcionando. Os pais também. O vídeo se chama: “Agite-se antes de beber” e termina com algumas perguntas: Por que os fabricantes não usam mais fruta? Por que não informam a quantidade de fruta? Por que a legislação é tão flexível? Pois é, papais e mamães: Agitem-se. E façam algo pela saúde dos seus filhos. Não comprar esses néctares venenosos é uma ótima escolha e também uma forma de pressionar a indústria a fabricar e vender coisas mais saudáveis e menos canalhas. E na dúvida por que não optar pela água mineral?

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