Quem fez a diferença em 2014

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Dorrit Harazim, em O Globo

A cena ocorreu em maio deste ano. Durou quatro minutos de eternidade. Jamais fora sequer cogitada por nenhum chefe de Estado em visita a uma região em que o menor gesto pode adquirir significado milenar e levar à combustão.

Mas o papa Francisco, sendo quem é, optou por não desperdiçar a chance de deixar sua marca. Ao perceber a muralha de concreto que fazia parte da paisagem solicitou uma curta parada da comitiva . Desceu do carro , aproximou-se do paredão de concreto que separa Israel da Cisjordania palestina e ficou em silêncio. Depois colocou a mão direita espalmada no muro, curvou a cabeça até tocar a superfície áspera com a fronte e orou em silêncio. Uma pichação gravada em letras escarlates naquele mesmo trecho de concreto dizia “Liberdade para a Palestina”.

Construído a partir de 2004 como um cinturão de prevenção de Israel contra ataques terroristas, a muralha tem, hoje, uma extensão de 721 km, 8 metros de altura, trincheiras com 2 metros de profundidade, arames farpados e torres de vigilância a cada 300 metros.

Para a sua visita de três dias a Israel e à Cisjordânia ocupada Francisco não desembarcou no aeroporto de Telavive, como mandaria a praxe diplomática. Preferiu pousar primeiramente na cidade santa de Belém, sinalizando uma aprovação simbólica às aspirações palestinas por um estado independente.

Francisco também foi o primeiro dos quatro pontífices a pisar naquelas convulsionadas terras decidido a dar um passo adiante da moldura diplomática convencional. “Neste local do nascimento do Principe da Paz desejo convidar o senhor, presidente Mahmoud Abbas [da Autoridade Palestina] , assim como o presidente Shimon Peres [de Israel] a se juntar a mim numa oração por uma paz… Ofereço minha casa no Vaticano como lugar para esse encontro de preces”. Duas semanas depois os dois presidentes batiam ponto no Vaticano e ouviram rezas em hebraico, árabe e italiano. Formalmente não se falou em política. Não era preciso : bastava por ora o ineditismo de uma prece entre líderes em conflito arquitetada por um papa.

O encontro tampouco visou resultados a curto prazo. Como disse à época à rede CNN o vaticanista americano John L. Allen, “A métrica do Papa Francisco para medir o êxito desse evento é de muito longo prazo”. Em seus poucos meses de poder (o argentino foi eleito em março de 2013) Jorge Mario Bergoglio já deu mostras suficientes de saber onde quer chegar.

Ao longo deste 2014 que pouca saudade deixa, o papa fez diferença pela visão, ação e coerência certeira com que toca a sua parte – atributos escassos no grupelho de líderes mundiais que se revelam cada vez mais indecisos , erráticos, amedrontados ou vorazes.

Seja na silenciosa e certeira mediação para o restabelecimento de relações entre Estados Unidos e Cuba, seja na vigorosa promoção de um civilizatório e urgente diálogo entre religiões, seja através de uma visita relâmpago ao burocratizado Parlamento Europeu para um chamamento à razão, o jesuíta Francisco tem os pés no chão e sabe onde pisa.

“A Europa não está velha, mas está cansada. Precisamos ajudá-la a rejuvenescer , a reencontrar suas raízes”, discursou o pontífice no plenário da entidade que tem três sedes (Estrasburgo, Bruxelas, Luxemburgo), 766 deputados eleitos , uma estrutura de mais de 7 mil funcionários, mas que, apesar de seus 430 intérpretes e 700 tradutores não parece se entender sobre questões cruciais.

Um dos princípios que norteia a ação do atual papa é que para se entender o conjunto é preciso conhecer a periferia. Foi o que o levou até a ilha italiana de Lampedusa, menos de três meses após ser empossado, para ver de perto a débâcle do drama migratório. Pouco depois tratou de se materializar na Albania para aferir os extremos da penúria social do continente e ter o que dizer perante o Parlamento Europeu

Para o núcleo aparelhado da Igreja, conservador, chegado a uma opulência e/ou moralmente corrupto e desviante, a vitalidade empreendedora do Sumo Pontífice sem refúgio. Além de abordar temas espinhosos como a homossexualidade , o divórcio ou o celibato, Francisco não cessa de abrir novas frentes sempre que vê espaço para avançar . Ainda esta semana acenou para ateus se juntarem ao esforço de paz.

No mês passado , ao ser chamado de marxista por uma das vozes mais xiitas da direita americana, o radialista Rauch Limbaugh, o pontífice saboreou a oportunidade de responder através do diário La Stampa , de Turim. “A teoria marxista está errada mas ao longo da vida conheci inúmeros marxistas que eram boas pessoas e portanto não me sinto ofendido”. Aproveitou para reiterar suas afiadas críticas à desigualdade econômica , à ganância das elites globais e à corrosão social provocada pela pobreza.

Promoveu uma faxina no comando autoritário da Guarda Suiça do Vaticano, implodiu o corrupto Banco do Vaticano , cerceou de forma metódica a prática ou o acobertamento da pedofilia nas fileiras da Igreja. Qual outro líder mundial teve coragem de listar os malfeitos mais graves praticados pela cúpula à sua volta e propor correções? Francisco apontou para 15 “enfermidades” da Cúria no seu franco discurso de Natal . Boa parte delas soam familiares a qualquer governante e governado – “rivalidades pela glória”, “exibicionismo mundano”, complexo de se sentir superior”, “indiferença com os demais”, “transformar o serviço em poder e o poder em mercadoria para obter vantagens”

Francisco já avisou que quando chegar a hora vai embora. “Penso que a figura do Papa Emérito já se tornou uma instituição”, explicou em conversa informal com jornalistas, referindo-se ao status de seu antecessor Bento 16. “A partir de certa idade não somos mais capazes de governar bem…Não temos mais a força para enfrentar todos os problemas…Bento abriu a porta que é institucional, não excepcional. Se eu sentir que é a hora, farei o mesmo”.

Último argumento: qual líder da atualidade conseguiria lotar uma praça como a de São Pedro, em pleno inverno, com duplas improvisadas dançando tango para lhe desejar feliz aniversário (77 anos)?

 

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