Somos todos pinguins

2014-2015-calendar-hero

Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

“Esse ano passou rápido.” Todo ano é a mesma coisa. Todo ano passa rápido. Mas alguns anos passam rápido diferente.

Esse ano passou rápido que nem uma facada no baço, uma topada no dedão, uma voadora, um pescotapa. Esse ano passou rápido que nem um aneurisma, um AVC, um infarto no miocárdio, o ebola. Esse ano passou rápido que nem o carro do Thor Batista atropelando um ciclista no acostamento, esse ano passou rápido. Esse ano passou tenso. Esse ano passou metralhando geral.

Alguns anos parecem que são pessoas péssimas: sádicas, mórbidas, carniceiras. Vejam por exemplo 2014. Morreu o Carvana. Morreu o Coutinho. Morreu o Wilker. Morreu o João Ubaldo. Morreu o Manoel de Barros. Morreu o Suassuna. Morreu o Fausto Fanti. Morreu o Nico Nicolaievski. Morreu o Bolaños.

Morreu o Philip Seymour Hoffman. Morreu o Robin Williams. Morreu a Tintim, dona do Guimas, na praça Santos Dumont -porque não entregou a bolsa. Morreu o Orkut -e junto com ele, tantos testimonials. Morreu a seleção brasileira. Parece que 2014 foi escrito pelo roteirista de “Game of Thrones”: morreu todo mundo que prestava.

Esse ano foi um 7×1 moral: perdemos amigos, ídolos, tempo e casamentos (nunca vi tanto casamento interminável terminar). As imagens do ano são terríveis: o menino amarrado no poste, David-Luiz-aos-prantos pedindo desculpas pelo massacre, Bolsonaro-pai deputado mais votado, Bolsonaro-filho pedindo intervenção militar com uma arma na cintura -e o pessoal aplaudindo. A água em São Paulo acabando -e o pessoal aplaudindo.

O sentimento geral foi traduzido pela imagem do pinguim sendo estuprado pela foca. O ano de 2014 foi uma espécie de foca tarada. Faltou lançar esse movimento: #SomosTodosPinguins.

E, nesse final de ano, como se não bastasse, a chuva de esperança rasa: feliz ano novo, tudo de bom, boas entradas, ano novo vida nova. Más notícias -que na verdade são boas: ano que vem também vai passar rápido. Pelo andar da carruagem, a carruagem é um trem-bala.

A direção é desconhecida e o trajeto vai ser interrompido no meio, antes do que a gente espera. E vai passar rápido. Resta torcer para que passe rápido e bonito. Rápido e estratosférico. E não rápido e rasteiro -torço profundamente para que 2015 passe rápido pra você-, mas rápido feito uma andorinha, um cometa, um barato de lança-perfume.

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