Você quer perder o essencial da vida?

O saxofonista Leonardo Januario, jovem morador do morro do Cantagalo, no Rio, lidera uma noite de jazz na laje do tio, juntando músicos da cidade toda... e sem ensaio (foto: Julia Michaels)

O saxofonista Leonardo Januario, jovem morador do morro do Cantagalo, no Rio, lidera uma noite de jazz na laje do tio, juntando músicos da cidade toda… e sem ensaio (foto: Julia Michaels)

Julia Michaels, na Época online

Muita gente vai embora do Brasil. Não tenho números, mas ouço, cada vez mais, pessoas a meu redor dizendo que não aguentam mais morar aqui.

Os que podem ir embora, é claro.

Estão fartos da duplicidade, da falta de educação, da burocracia e da incapacidade de pensar no conjunto – na comunidade ou nação.

Um filho meu foi embora em 2008. “Mamãe, gosto de tecnologia. Quero estar perto do que acontece. Quero morar no centro, não na periferia,” explicou-me. Foi morar em Nova York.

Entendi. Na época, existiam poucos sinais de que o Brasil pudesse ser diferente da selva que sempre fora. Segurando lágrimas, deixei-o colocar as malas naquele táxi amarelo e azul que, para mim, era um arauto de chegada.

Já houve um tempo em que as pessoas – brasileiros e estrangeiros – transitavam no outro sentido. Chegavam de fora, cheios de otimismo e garra. O auge do chamado “brain gain” (ganho de cérebros, o contrário do “brain drain”, a drenagem de cérebros), fenômeno alentador para qualquer país.

Foi uma janela pequena, entre 2011 e 2013. A crise nos EUA e na Europa secava as possibilidades lá. Aqui, a economia ia bem melhor e, no Rio, o crime diminuía. Viajei, na época, o trajeto Boston-Rio junto com várias famílias que voltavam de vez – com filhos que nunca haviam morado no Brasil. Pensei, confesso, nas reações que teriam ao se inserir no dia a dia.

Em 2013, a receita começou a desandar, revelando verdades e mazelas: as manifestações, com violência, nas ruas. No Rio, crescimento das taxas de crime e descrédito na polícia, cuja imagem havia melhorado com a pacificação. Voltaram os tiroteios nas favelas, as mortes. Neste ano que termina, a Copa que decepcionou. Eleições de percalços, divisões, desconfiança e palavras duras. O surgimento de um escândalo nacional de corrupção de alcance impressionante e potencial destrutivo desconhecido.

Já escrevi aqui sobre os motivos pelos quais eu fico: meu fascínio pela transformação social que está em curso, acredite ou não. A convicção de que tal transformação, com seus desafios e retrocessos, faz parte de um fenômeno global. A esperança de que os brasileiros possam contribuir ao andar da raça humana.

Dia desses, a sola de minha sandália abriu. Num boteco da Lapa, o garçom pegou a sandália e sumiu em direção à cozinha. Quinze longos minutos mais tarde, ele reapareceu. Calcei a sandália, refeita. “Sou sapateiro também”, ele me informou.

Não sou daqueles ufanistas que pregam a supremacia da criatividade brasileira. Acho-a do ser humano: em Nova York, um garçom poderia ajudar um cliente com o dever de casa para a aula de literatura. Muitos deles são atores desempregados, com diplomas universitários.

Me torno triste quando vocês namoram as malas, quando reclamam da violência do dia a dia e do crime, de forma que fica patente que, até o fim desse ano novo, estaremos longe um do outro.

Há tanto por fazer aqui, precisamos de vocês. Como podem?

Já tomamos tantas caipirinhas na mesma mesa. Temos história. Não me deixem!

Posso dar uma dica de sobrevivência? Duas? Quem sabe, assim vocês desfazem as malas. Abaixe as expectativas; ponha um pouquinho de lado o “como são as coisas lá fora”. Pode ser exigente, mas lembre-se que a base de tudo aqui ainda é na relação pessoal. Ou seja, exija com sorrisos. Entre no coração do garçom e, se pintar um clima, deixe que ele entre no seu. Não falo de namoro, apenas uma rápida troca de informações íntimas, tipo preferências futebolísticas.

Indo para os países de frio e de serviços eficientes, vocês fogem de uma realidade que, mesmo sumindo de seu olhar, continuará a existir e a perturbar. Fazem como aqueles que apostam em condomínio fechado, colocando limites em tudo que vivem. São menos frustrados e mais realizados. Optam pela certeza e o vazio, o tédio.

Vocês acham que foi coincidência o encolhimento da classe média nos países de frio na mesma hora que milhões subiam a pirâmide social nos países emergentes?

O Brasil é uma sociedade fragmentada, carente de liga. Precisa de gente que sabe como juntar, pensar, demandar. Nunca vou esquecer as palavras da jovem agitadora, co-fundadora de Meu Rio, Alessandra Orofino, uma noite na minha sala. Eu tentava convencê-la de que o Brasil já havia passado por boas mudanças socioeconômicas.

“Eu sei de tudo isso,” ela, então com 22 anos, desabafou. “Mas não estava aqui lá atrás, e agora quero muito mais!”

E se ela fosse embora? Se, depois dos estudos no exterior, não tivesse voltado ao Brasil?

Meu filho que foi para Nova York? Seis anos mais tarde, cansou da ética puritana do trabalho. Diz que os meus compatriotas nos Estados Unidos correm loucamente para ver quem consegue se negar mais ao que realmente importa: família, amor, calor humano. Neste novo ano, ele volta ao Brasil.

Ainda vai entender algo que eu aprendi nesses seis anos: não há mais centro e periferia. O mundo é policêntrico, a desigualdade está em toda parte e, para fazer música boa, é preciso ir ao encontro daquilo que nos perturba.

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