Eu também sou um sonhador

pazflores

Ricardo Gondim

Ainda estamos no comecinho do século XXI. O planeta oscila numa imensa gangorra. Os acontecimento chegam numa velocidade alucinante. Mal conseguimos tomar fôlego. Bem e mal se atropelam nas acrobacias do mercado financeiro, no avanço incontido da indústria bélica, nos transtornos energéticos, no desprezo ambiental, no recrudescimento dos fundamentalismos. Respiramos um ar tenso. Como castelo de cartas, o pouco de estabilidade que imaginamos possuir pode degringolar de um dia para o outro. Na arquibancada, metade do planeta assiste ao desenrolar dos fatos com pavor. Sabemos de nossa impotência diante do jogo bruto dos que detém o poder. Não paramos de dizer: algo está errado.

Algo está errado com a religião que prevaleceu no Ocidente. Na América Latina, sacerdotes engravatados gesticulam como se possuíssem a senha que desencanta os tesouros divinos. Eles repetem ad nauseum: bastam algumas cédulas e as bênçãos retidas por Satanás virão em abundância. Tais profissionais da religião promovem uma espiritualidade que dá de ombros aos que empunham tigelas diante de funcionários das Nações Unidas. Mal se dão conta de que se Deus existe mesmo, ele teria de priorizar os que imploram por um punhado de arroz para os filhos esquálidos. No Islam, um fratricídio sem controle devasta o Iraque, a Síria, o Líbano e ameaça a Turquia.

Algo está errado com o poder militar. Até quando os grandes impérios vão considerar a pólvora como solução para as tensões étnicas, religiosas e culturais? A tecnologia a serviço da morte não se importa em gastar montanhas de dinheiro. Os quartéis não questionam a distância que um tanque de guerra faz com um litro de combustível (a conta é inversa: um tanque gasta vários galões de óleo diesel para percorrer um quilômetro). Bilhões de dólares parecem pouco no cálculo do preço de um míssil. Um único porta-aviões poderia mitigar a miséria de vários países. Faz-se pouca comparação entre o poderio esmagador de um exército e a escassez de gaze, esparadrapo e penicilina na clínica de um campo de refugiados. Enquanto bombas caem, orientadas por raio a laser, a vacina que erradicaria a malária não sai dos estágios experimentais.

Algo está errado com o entretenimento midiático. Uma geração de ricos e famosos sem habilidade, virtude ou competência ganha a atenção de grandes parcelas da população. A mediocrização da mídia sagra ícones vazios. O mundo é entretido por gente que não sabe nomear a capital da Alemanha. O presente século está dopado pela cultura do sucesso.

Algo está errado com o sistema econômico. Os governos dispõem de fábulas para socorrer bancos de iminente falência. O salário dos grandes executivos, principalmente do setor financeiro, se distancia do trabalhador no chão da fábrica.

Algo está errado com os sentimentos. Muitos, exaustos, já não têm lágrimas. A morte se tornou trivial. A mãe que acabou de enterrar o filho morto pelo tráfico ainda tem de amargar a solidão. Os afetos se robotizaram. Compaixão anda em falta. No processo de desumanização das grandes metrópoles, fascismo e fundamentalismo encontram chão fértil. Otimismo fatalista esbarra no pessimismo niilista e a esperança agoniza. Sobeja uma desesperança, que Amós Oz percebeu estrangulada sempre a pairar e a oprimir. Diante da gangorra que nos prendemos, resta desejar que sonhadores e sonhadoras nos ajudem a não desistir – até que surja um novo amanhã.

You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
[John Lennon]

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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