Menino de 14 anos‘constrói’ quarto em calçada de Higienópolis, área nobre de São Paulo

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Publicado em O Globo

São dez horas da manhã, o sol está forte, e o menino ainda não se levantou da cama. Abre a boca de sono, se espreguiça e continua enrolado no lençol. Cumprimenta algumas pessoas que passam pela “porta do quarto” e que o chamam pelo nome. A cena parece comum, mas transcorre em plena calçada de um dos bairros mais nobres de São Paulo, o Higienópolis, bem ao lado do shopping. O menino é G., de 14 anos, que há seis meses foge sistematicamente e é levado de volta para casa, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, a 530 quilômetros .

Em um dia de julho do ano passado, Dulce Santucci, de 80 anos, saiu de casa, olhou para cima e viu um menino dormindo em um colchão equilibrado entre os galhos de uma árvore. Era a primeira vez de G. naquele bairro, ao qual chegou sem explicação e foi se apegando. Ele virou, para a vizinhança e para a imprensa, o “menino passarinho”, que sempre voltava para a mesma calçada, após ser levado para a casa da mãe ou para abrigos públicos.

Cama achada em caçamba

G. deixou a árvore para morar numa caixa de papelão, e depois, numa barraca de camping. Mal o ano começou, e lá estava G. em Higienópolis de novo. Achou uma cama de casal numa caçamba e a arrastou por mais de dois quarteirões, até colocá-la sob a mesma árvore.

Carismático, G. chama a maior parte das pessoas de “tio” e “tia” e pede para ser adotado. Não sabe explicar por que foge. Sobre Higienópolis, diz que gosta dali. Ele não sabe ler nem escrever e apresenta sinais de problemas psicológicos. No bairro, G. atrai o carinho e a fúria de moradores.

Dona Dulce é uma das amigas do menino e se ressente com moradores que já sugeriram que o menino causa “poluição visual”.

— Gostaria de ficar com ele, mas tenho 80 anos. Nem seria permitido adotá-lo. Mas não entendo isso de “diferenciado”. Como se pode ser diferenciado se a morte é tão igual para todos? — afirma dona Dulce, em referência à forma como Higienópolis é conhecido: bairro de “gente diferenciada”.

Outra vizinha, a terapeuta Luciana Sodré Cardoso, juntou-se a outros três moradores e, por dois meses, abrigou G. de forma compartilhada. Mas ele não se adaptou ao cotidiano de uma casa, com limites.

— G. tem várias limitações para compreensão da realidade e é hiperativo. Ao mesmo tempo em que é forte em não aceitar drogas nem praticar crimes na rua, é um menino muito vulnerável. Precisa ser supervisionado por profissionais de saúde — diz Luciana.

Prefeituras buscam solução

Conselheiros tutelares e assistentes sociais da prefeitura de São Paulo relataram dificuldades para encontrar soluções para o menino. O coordenador de Políticas para Crianças e Adolescentes da Secretaria municipal de Direitos Humanos, Flariston Francisco da Silva, disse que profissionais do município devem voltar a entrar em contato com G. nos próximos dias.

Funcionários do Conselho Tutelar de Nova Friburgo relataram que a mãe do jovem busca soluções para a questão, mas G. insiste em descumprir as recomendações. Uma conselheira disse que buscou G. no seu carro após uma das fugas para São Paulo num sábado de novembro e o levou para Nova Friburgo. Quatro dias depois, quando foi levá-lo ao psicólogo, descobriu que ele havia fugido de novo.

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