Escassez de mulheres leva homens a preferir relações estáveis, diz estudo

Pesquisa com o povo Makushi, na Guiana, sugere que as relações são geridas pelas leis de oferta e demanda

Com poucas opções, homens se focam em garantir uma parceira permanente; já com muitas, preferem não se prender (foto: Internet)

Com poucas opções, homens se focam em garantir uma parceira permanente; já com muitas, preferem não se prender (foto: Internet)

Cesar Baima, em O Globo

O estereótipo de que homens querem relações variadas, enquanto as mulheres buscam compromisso, não se sustenta quando há poucas delas numa população. A descoberta contraria esta noção, reforçada pelas observações de Charles Darwin, autor da Teoria da Evolução, de que no mundo animal, os machos geralmente são os que buscam ativamente cruzar com o maior número de parceiras possível, e as fêmeas, as que escolhem com quais deles vão se reproduzir, numa amostra de que tais generalizações são sempre falhas, ainda mais quando se leva em conta a diversidade cultural humana.

Em estudo sobre a etnia Makushi, povo que vive na Guiana, próximo à fronteira com o Brasil, Ryan Schacht, antropólogo da Universidade de Utah, nos EUA, e sua esposa, Jacque, verificaram que os homens ficam mais dispostos a assumir relações compromissadas se o número de mulheres nas vilas onde vivem é pequeno. Já para elas, a proporção de homens e mulheres na população não influencia sua preferência, que continua a ser por relações estáveis.

PRINCÍPIO DA OFERTA E DA DEMANDA

— O compromisso com uma relação é, sim, influenciado pela disponibilidade de parceiros — afirma Schacht, que publicou artigo sobre a pesquisa no periódico científico de acesso aberto “Royal Society Open Science”. — Assim, podemos pensar no número de homens e mulheres numa população como um mercado potencial de parceiros, em que os princípios de oferta e demanda se mantêm. Quando se pertence a um gênero que é abundante, é preciso ceder às preferências do sexo mais raro. Assim, a expectativa é de que os homens se interessem mais por relações de curto prazo quando mais mulheres estão disponíveis. Mas, quando as mulheres são difíceis de encontrar, elas se tornam recursos valorizados, e os homens tentarão atrair e manter uma única parceira, já que é mais custoso perdê-las quando as parceiras são raras.

Embora Schacht admita que seus achados não possam ser diretamente aplicados a toda a variedade cultural das populações humanas, o antropólogo acredita que os Makushi podem servir como uma referência para análises do comportamento sexual em outras sociedades e que de alguma forma os princípios desse “mercado do amor” seriam comuns a todas elas.

— Para as mulheres em ambientes urbanos, pode ser um desafio encontrar e manter um parceiro comprometido, mas mulheres em locais rurais podem ter mais facilidade em achar um parceiro disposto a se comprometer — destaca. — Nos ambientes urbanos, onde há mais mulheres, os homens estão cercados por muitas potenciais parceiras e, assim, podem buscar múltiplas relações de curto prazo e sem compromisso. Mas, se estão isolados no mato, eles são mais propensos a se firmarem.

Segundo Schacht, o estudo dos Makushi também derrubou o mito de que populações com homens em excesso são mais violentas devido às disputas entre eles pelas poucas parceiras, já que as brigas não são bem-vistas por elas.

— Quando é difícil encontrar uma mulher, o homem deve tentar atrair e manter uma única parceira, e não brigar com os outros machos, o que não é o que as mulheres querem — diz. — É hora de nos afastarmos das visões estereotipadas de que os homens têm certos comportamentos e as mulheres outros em termos de relações. O sexo é apenas uma das muitas coisas que importam. A disponibilidade de parceiros importa, a situação socioeconômica importa, a qualidade dos parceiros disponíveis importa.

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