Edzard Ernst : “O detox faz mal para o bolso”

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Publicado na Época

O alemão Edzard Ernst tem más notícias para os adeptos do detox. Professor da Universidade de Exeter, no Reino Unido, Ernst se tornou um pesquisador respeitado ao tratar de um campo que muitos cientistas olham com ressalvas – o das terapias médicas alternativas. Ao longo da carreira, investigou se formas pouco convencionais de cuidar da saúde, como acupuntura e homeopatia, eram eficientes. O rigor de seus trabalhos lhe valeu um desapontamento pessoal – Ernst começou a carreira como médico homeopata. Concluiu que a homeopatia não funciona.

Agora, se empenha em destruir um mito relativamente novo: o de que dietas do tipo detox, que prometem livrar o corpo das toxinas adquiridas em dias de comilança e bebedeira,funcionam. “O detox faz mal para o bolso”, diz Ernst. Durante as festas de fim de ano – e também durante a vida cotidiana – nossos corpos produzem toxinas prejudiciais. Elas são resultado da quebra de substâncias adquiridas na alimentação. Um corpo saudável consegue livrar-se delas sem problemas: para isso, trabalham órgãos como o fígado, rins e a pele. “Não precisamos de ajuda externa para isso”, diz Ernst.

Segundo ele, dietas que prometem nos livrar das toxinas acumuladas mentem. Fazem sucesso porque é sedutora a promessa de que podemos comer bobagens e fazer pouco exercício o ano todo para, com um suco, ficar saudáveis: “O conceito do detox é muito atraente por isso: por que não envolve muito esforço”. Sucos e misturas não são capazes de fazer um rim saudável trabalhar melhor. E, se o seu não estiver funcionando, melhor correr para o médico, não para o supermercado.

Época – Existem evidências científicas da eficiência do detox?
Ernst – Não. E isso é algo muito fácil de testar: basta determinar de qual toxina a dieta quer se livrar. Feito isso, é preciso comparar os níveis dessa toxina atingidos durante a dieta com aqueles esperados caso o indivíduo leve uma vida saudável. Esse tipo de teste não é feito. E não é feito porque as empresas responsáveis por esses produtos sabem que suas dietas não resistiriam a essa investigação.

Época – O senhor escreveu artigos recentes sobre como o detox engana seus consumidores. Fez estudos específicos para chegar a essas conclusões?
Ernst – Não, não fiz. Apenas um, sobre a eficácia da alcachofra no tratamento de ressaca. Mesmo assim, os jornalistas me perguntavam a respeito todo o tempo. Por isso, decidi examinar a ausência de evidências em favor do detox. Não haver estudos que o defendam é também um sinal importante.

Época – E por que outros cientistas não se dedicam a questionar essas dietas?
Ernst – Por que, para qualquer médico, é bastante óbvio que essas empresas só querem lucrar ao enganar consumidores crédulos. E porque cientistas não gostam de destruir mitos, eles gostam de descobrir coisas novas.

Época – Há alguma modalidade de detox que funcione e seja benéfica para o corpo?
Edzard Ernst – Se você tiver um vício em drogas, o processo de tratamento contra a dependência recebe o nome de detox. Esse é o tipo de desintoxicação que funciona, baseado em evidências científicas. Por contraste, as formas de detox promovidas como terapias alternativas, e oferecidas de diferentes maneiras, não têm comprovação científica. Elas não funcionam.

Época- Funcionando ou não, as dietas detox se tornaram muito populares. Por que as pessoas têm tanto interesse nelas?
Ernst – Essas dietas são promovidas, de maneira muito inteligente, como formas de tratamento capazes de absolver as pessoas de todos os “pecados” que elas porventura cometeram. Pecados como comer demais, por exemplo. O conceito do detox é muito atraente por isso: porque não envolve muito esforço.

Época – E o detox pode ser prejudicial?
Ernst – Isso varia conforme a dieta. Algumas ervas medicinais podem causar efeitos colaterais, fazer a pessoa se sentir mal. Além disso, o detox faz mal para o bolso. Por fim, é perigosa a ideia de que podemos passar dos limites sem riscos, porque o detox vai nos salvar.

Época- Os alimentos que consumimos diariamente produzem toxinas prejudiciais para o corpo quando digeridos. Como nos livramos dessas substâncias?
Ernst – O corpo se encarrega disso, através dos rins e fígado, por exemplo. Não precisamos de ajuda externa para isso. O que precisamos é parar de nos envenenar.

Época – As pessoas parecem mais dispostas a duvidar de outras terapias alternativas, como a homeopatia. O detox, por outro lado, têm adeptos e não é muito questionado. Por que o detox tem tanto crédito?
Ernst – Por que a propaganda é bem feita, e porque diversas celebridades promovem esses produtos gratuitamente.

Época – O senhor ganhou notoriedade ao desafiar certos mitos sobre a medicina alternativa, e ao fazê-lo com rigor científico. Por que se dedicar a esses estudos?
Ernst – A medicina alternativa me fascina desde a época em que eu trabalhava como clínico em um hospital homeopático. Essa é uma área na qual abundam questões sem respostas. Quando me tornei cientista, me dedicar a isso pareceu uma escolha óbvia.

Época- Quando decidiu pesquisar homeopatia, o senhor constatou que a técnica não funciona. Como ex-homeopata, essa descoberta o entristeceu?
Ernst – Eu estava intrigado: muitas pessoas se beneficiam da homeopatia. Mas, mesmo assim, não fazia sentido que ela funcionasse. Não fiquei triste. Como cientista, fico feliz em descobrir a verdade. Não importa qual seja essa verdade.

Época – O senhor mantém um blog atualizado e costumava colaborar com jornais britânicos, como o The Guardian. Acha importante que os cientistas sejam próximos do grande público e tornem suas descobertas acessíveis?

Ernst – As pessoas têm o hábito de tomar decisões terapêuticas sozinhas, sem nem mesmo consultar um médico. Isso é perigoso. Por isso, é importante que elas tenham acesso a informação confiável nos meios de comunicação. Sinto como se fosse uma obrigação minha fazer o melhor para que isso aconteça. Até porque, há muita bobagem sendo disseminada.

Época- O senhor também tem formação musical. Arrepende-se de deixar a música de lado para ser cientista?
Ernst – Nem um pouco. De certo modo, a ciência lembra o show business.

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