Maratonas de séries podem esconder sentimentos de solidão e depressão

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Publicado em O Globo

Com o aumento do acesso à internet rápida e aos serviços de streamig, acomodar-se no sofá (ou no local de sua preferência) e ficar horas a fio assistindo à série favorita virou rotina de muita gente. O hábito já ganhou até uma expressão própria, em inglês, sendo batizado de “binge-watching”. Mas, o que parece um mero lazer, pode esconder sentimentos como solidão e depressão. É o que diz um recente estudo feito por pesquisadores da Universidade do Texas.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores Yoon Sung Hi, Eun Yeon Kang e Wei-Na Lee observaram os hábitos de 316 jovens de 18 a 29 anos. Eles levaram em consideração a frequência com que essas pessoas assistiam a programas de TV, bem como a recorrência em que apresentavam sentimentos de solidão, depressão e deficiência de autocontrole. Por fim, notaram quantas vezes o público em questão embarcava em maratonas de “binge-watching”, nas quais assistiam de dois a seis episódios de determinado programa de uma só vez.

Eles descobriram que, quanto mais solitária e deprimida era a pessoa, mais suscetível a essas maratonas ela era, usando a atividade para afastar sentimentos negativos. Além disso, os resultados mostraram que aqueles que não tinham capacidade de controlar a si mesmos eram mais propensos ao hábito. Isso porque esses espectadores eram incapazes de abandonar os episódios, mesmo quando estavam cientes de que tinham outras tarefas para cumprir.

Este último aspecto é o único que o fã de seriados Guilherme Peres, de 24 anos, afirma ter alguma identificação. Assumidamente adepto do “binge-watching”, o designer já passou dez horas vendo uma única série e assistiu a duas temporadas de “Lost” – o que inclui mais de 40 episódios com cerca de 40 minutos cada – em menos de uma semana.

– Com o streaming, isso virou rotina. É só ligar um aparelho, que está tudo lá, com legenda. É difícil resistir – conta o rapaz, admitindo que, às vezes, luta contra o sono para assistir um pouco mais. – Quando isso acontece, acabo ficando sonolento pela manhã. Mas isso não faz parte da minha rotina.

Quanto aos sentimentos de depressão e solidão, Peres garante que passam longe da sua relação com as séries. Mesmo assim, ele entende onde o estudo dos pesquisadores quer chegar:

– Isso acontece muito com games, em que as pessoas mergulham naquele universo para esquecer seus problemas. Horas de entretenimento diante da TV também podem proporcionar essa sensação – compara.

QUESTÃO CONTEMPORÂNEA

Segundo os autores do estudo, ainda há poucas pesquisas empíricas sobre o assunto, já que é um comportamento relativamente novo. Entretanto, não é novidade que fatores psicológicos, como solidão e depressão, sejam importantes indicadores de comportamentos ligados ao excesso. É o caso de quem se apega a um vício para esquecer temporariamente a realidade que envolve estes sentimentos. Em paralelo a isso, a falta de autocontrole de um indivíduo tende a deixá-lo ainda mais vulnerável a vícios.

Por esses motivos, o pesquisador Yoon Sung Hi considera o estudo um importante passo para que o”binge-watching” seja compreendido como um importante fenômeno social, em função das suas consequências. Afinal, como ele lembra, mesmo que as pessoas saibam dos riscos, elas têm dificuldade em resistir ao desejo de assistir a episódios continuamente.

– Mesmo que algumas pessoas argumentem que “binge-watching” é um vício inofensivo, resultados do nosso estudo sugerem isso que não deve mais ser visto desta forma – diz Sung. – Fadiga, obesidade e outros problemas podem ser relacionados a esta prática. Quando se torna algo desenfreado, os telespectadores podem começar a negligenciar seus trabalhos e suas relações com os outros.

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