Após ataque, ex-paquito luta para reconstruir sua casa no Níger

Alexandre Canhoni, que foi o paquito Xand, ainda espera doações.
Sua casa foi destruída em manifestação contra charge do ‘Charlie Hebdo’.

Xand tem ajuda de locais para fazer um mutirão de limpeza e reerguer parte da estrutura de sua casa em Niamey, no Níger, onde atendia cerca de 250 crianças diariamente (foto: Alexandre Canhoni)

Xand tem ajuda de locais para fazer um mutirão de limpeza e reerguer parte da estrutura de sua casa em Niamey, no Níger, onde atendia cerca de 250 crianças diariamente (foto: Alexandre Canhoni)

Marina Franco, no G1

Há duas semanas o brasileiro Alexandre Canhoni, mais conhecido no passado como o paquito Xand do “Xou da Xuxa”, teve sua casa destruída no Níger depois de uma manifestação de muçulmanos contra as charges que mostram o profeta Maomé publicadas pelo jornal francês “Charlie Hebdo”. Hoje, ainda refugiado na casa de amigos, ele luta para reconstruir seu lar e local de trabalho, em que atendia 250 crianças diariamente.

Os ataques tiveram como alvo instituições cristãs. No total, os manifestantes saquearam e incendiaram 45 igrejas, entre elas, duas brasileiras, além de cinco hotéis, 36 bares, um orfanato e uma escola cristã. Cinco pessoas morreram, 128 ficaram feridas e 189 foram detidas nas manifestações.

Canhoni, que mora no país desde 2001 e desenvolve trabalhos humanitários com crianças na organização evangélica Guerreiros de Deus, contou ao G1 como está fazendo para reerguer a casa. “Conseguimos um pouco de ajuda, mas está tudo detonado. Literalmente, nós perdemos tudo: geladeira, fogão, panelas, mesa, cadeira, coisas de escritório, cama, roupas. A casa está vazia. Abalaram as estruturas, como paredes, grades, portões, cercas de segurança. Entraram com picareta rasgando tudo”, diz.

Paredes do interior da casa de Alexandre Canhoni foram danificadas em manifestação que atacou alvos cristãos (foto: Alexandre Canhoni)

Paredes do interior da casa de Alexandre Canhoni foram danificadas em manifestação que atacou alvos cristãos (foto: Alexandre Canhoni)

O ex-paquito recebe a ajuda de moradores locais para limpar os destroços que ficaram no terreno. “A gente está em mutirão retirando os restos das coisas”, afirma. Até agora, conseguiram fazer parte da limpeza e refazer algumas colunas do imóvel. Ele tem a guarda de 17 jovens, que também o ajudam no processo.

“A gente está aguardando ajuda, ofertas, pessoas que podem contribuir”, afirma. Desde a destruição, a Guerreiros de Deus faz campanha em seu site para arrecadar verbas e viabilizar a reconstrução.

Na primeira vez em que voltou à sua casa, Canhoni gravou um vídeo em que mostrou a destruição e pedia doações.

Momento delicado
Diante de tamanha destruição, Canhoni conta que não pensa em deixar o país. “A gente está num momento bem delicado. Mas uma coisa é certa, o que que nós temos a ver com a charge que aconteceu lá em Paris? Quer dizer, isso é independente de religião, é a questão do bom senso do ser humano, de a gente continuar a dar comida para essas crianças que são subnutridas. Essa é a nossa vontade”, diz.

“Eu não vim pra cá para aventurar. Estou aqui há 14 anos. Se eu quisesse ficar rico eu não estava aqui. A gente cuida de cerca de 2 mil crianças aqui no Níger, o ultimo IDH do planeta. E eu decidi vir pra cá exatamente pra ajudar o país mais pobre do mundo. Como posso deixar minhas coisas aqui e essas crianças que dependem de nós?”. Segundo ranking de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU, o Níger é o país com menor índice do mundo.

Canhoni  desenvolve trabalhos humanitários com crianças ao lado da mulher e outros quatro brasileiros. Um dos projetos da organização, que oferece refeições a crianças da capital Niamey, tem base no quintal de sua casa. Em todo o Níger são 1.200 refeições oferecidas, conta Canhoni. O trabalho é voluntário e conta com a ajuda de cerca de 90 pessoas. A Guerreiros de Deus também atende a população local em um centro esportivo, quatro creches e duas escolas de costura.

Casa do ex-paquito Xand, no Níger, passa por mutirão de limpeza e reconstrução; local também é base de trabalho humanitário que oferece refeições a 250 crianças diariamente (foto: Alexandre Canhoni)

Casa do ex-paquito Xand, no Níger, passa por mutirão de limpeza e reconstrução; local também é base de trabalho humanitário que oferece refeições a 250 crianças diariamente (foto: Alexandre Canhoni)

Fuga
No último dia 20, Canhoni contou ao G1 que se preparava para o almoço, por volta das 13h do dia 17 de janeiro, um sábado, quando ouviu gritos e, do segundo andar de sua casa, viu fumaça saindo de outras casas e templos que estavam sendo queimados, além de manifestantes com pedaços de pau se aproximando.

Em vídeo, o ex-paquito mostrou a destruição do local e explica que ouviu os manifestantes gritarem “casa do Alex” quando se dirigiam a ela. Ele diz que é conhecido em Niamey por seu trabalho humanitário. “Nós estamos aqui há muitos anos. Todo mundo me conhece, sabe que somos cristãos. Aqui eles me conhecem não por ser ex-paquito da Xuxa, pelos filmes, de cantar e dançar. Aqui eles nos conhecem como um casal de brancos que chegou em 2001 e começou a ajudar as pessoas”, disse.

Antes que os manifestantes atingissem sua casa, ele e sua mulher conseguiram fugir para se abrigar na casa de um amigo. Voltaram no dia seguinte, para ver o estado em que ficou o seu lar. “Foi afetado tudo. Desde panela e prato, levaram tudo. Saquearam, quebraram, queimaram, roubaram. Foi bem difícil para a gente voltar e dar uma olhada. Foi bem triste”, diz. A casa está sem luz e sem água e as janelas e o portão estão quebrados. Ninguém da organização ficou ferido.

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