De baladas a missas, sertanejo invade igrejas para arrebatar novos fiéis

Gravação do DVD "Promessas Sertanejas", no Rio de Janeiro. Produto do selo Você Adora, da Somlivre, o show reuniu artistas do sertanejo no gospel -- um dos gêneros em ascensão na música religiosa (foto: André Durão/UOL)

Gravação do DVD “Promessas Sertanejas”, no Rio de Janeiro. Produto do selo Você Adora, da Somlivre, o show reuniu artistas do sertanejo no gospel — um dos gêneros em ascensão na música religiosa (foto: André Durão/UOL)

Tiago Dias, no UOL

Após o sertanejo se alastrar pelo Brasil, devorar as paradas de sucessos e infestar até os trios elétricos no Carnaval de Salvador, o gênero chega às igrejas pela porta da frente. Não se trata, no entanto, de uma praga bíblica punitiva. O sertanejo na música cristã tem um objetivo mais nobre: arrebatar novos fiéis.

Não se trata necessariamente de um fenômeno novo. Duplas sertanejas e temas ligados ao universo interiorano sempre estiveram presentes no segmento, mas as gravadoras e igrejas agora investem pesado nas novidades: do universitário ao arrocha, das missas sertanejas a “balada crente”.

Os mineiros Cleyton & Johnny foram um dos primeiros a levar o conceito de balada aos evangélicos. A música “Balada do Senhor” lança os mesmos artifícios dos sertanejos seculares (termo muito utilizado nas igrejas para determinar o mercado fora delas), com refrão empolgante à lá “Balada (Tche Tcherere Tche Tche)”,  de Gusttavo Lima. A diferença está no ambiente. “É uma forma sadia da balada, de se alegrar e dançar. Somos livres, mas dá para se divertir sem o sexo ilícito e sem as bebidas”, observa Cleyton, de 28 anos.

Com corte de cabelo e figurino parecidos com Cristiano Araújo, Willer Rodrigues mistura arrocha e vanerão em eventos direcionados aos fiéis adolescentes. Ministro de louvor na Assembleia de Deus, em Brasília, ele descobriu a cena do sertanejo universitário nos dois anos que passou afastado da religião. “Eu tinha uma vontade de vivenciar isso por influência de amigos da faculdade. Mas Deus disse que não era ali que ele ia agir na minha vida”, detalha. Aos 22 anos, ele diz que o estilo foi bem aceito pelas igrejas por conta do forte apelo jovem. A exceção ainda é a Igreja Presbiteriana.

“Há dois públicos na música cristã. Um que está dentro da igreja e já está inserido nesse contexto e outro que se intitula católico, mas que está distante. A igreja teve que se adaptar aos estilos porque ela entendeu que a música se destina também à evangelização”, observa Carlos Tocco, diretor artístico da gravadora Canção Nova, influente grupo de comunicação católico. Neste momento, o sertanejo, já onipresente no Brasil, se torna o melhor veículo para a missão.

A dupla gospel Luis e Lobato também vem quebrando a barreira do tradicionalismo com a irreverência no lugar do louvor. Na música de trabalho “Celular”, eles cantam sobre um fiel que presta mais atenção no Whatsapp do que no pastor. O clipe traz dancinhas e a encenação de um culto. “Pensando que ninguém vai descobrir seu disfarce / mas só se esqueceu de tirar o som do celular / o pastor começa a pregar e o celular toca assim”, canta a dupla, seguido do instrumental que emula o toque clássico do telefone.

“Queremos trazer a descontração para um assunto sério. Nossa proposta não é levar isso para o culto de domingo, que é mais tradicional. A não ser que o pastor peça”, observa Lobato, de 26 anos. Já teve quem exibisse o clipe antes do culto como advertência para os fiéis desligarem os celulares.

Atrelada à apresentação, a dupla também dá seu testemunho [relato pessoal de fé], o que facilita o caminho nos templos mais tradicionais. “O sertanejo universitário está em ascensão total. Onde não tínhamos abertura no ano passado, como algumas da Assembleia de Deus, esse ano nós já temos”, explica o cantor, que já vendeu 20 mil cópias do álbum de estreia, sem gravadora.

Música religiosa de mainstream

Com 20 anos de carreira e cerca de 5 milhões de discos vendidos, Daniel & Samuel tem o status de um Zezé di Camargo e Luciano no gospel. A pegada raiz, sem deixar de lado o arrasta-pé, é citada com frequência por todos os artistas que se arriscam no gênero. No Você Adora, selo gospel da Somlivre, a dupla de Anapólis (GO) é uma das que mais vendem. Com 43 anos, Samuel avalia: “Quando começamos, havia apenas um programinha de manhã nas rádios. Houve uma abertura muito grande e a qualidade melhorou. O filão foi enxergado pelas grandes gravadoras e o público de fora”.

Com maior espaço e infraestrutura para os shows, eles dividem a agenda entre as igrejas pentecostais e tradicionais, onde geralmente cantam com playback, e em eventos seculares, como festivais de country – aí sim, ao vivo. “É testemunhal, muita gente diz que gostava muito de sertanejo e entrou na igreja por nossa causa”, comemora.

Coordenadora do Você Adora, Cláudia Fonte conta que o gênero é a bola da vez do gospel. “Os sertanejos estão em eventos muito grandes e precisamos estar muito ligados. É o estilo que tem crescido e chegado a igrejas mais tradicionais”, disse ao UOL, um dia antes de coordenar a gravação do DVD “Promessas Sertanejas” apenas com artistas do gênero.

Se apresentar em igrejas é algo que faz parte até para as maiores estrelas. Assim como em um show próprio, os cantores podem receber um cachê nas igrejas evangélicas, com exceção dos eventos beneficentes. Para quem está começando, o valor chega a R$ 3 mil, ou pelo menos autorização para montar a banquinha de CDs perto do altar. No catolicismo, pagamento só para eventos maiores.

De chapéu e espora

Mais bem difundido no catolicismo, o sertanejo é tema de programas de TV, rádios e missas – com um altar enfeitado com frutas, pães e objetos que lembram a vida no campo. De chapéu de boiadeiro, o padre Alessandro Campos é derivado dos padres cantores, que na década de 90, com a popularidade de Marcelo Rossi, chegou a incomodar os mais ortodoxos. Ele costuma rezar suas missas com batina customizada e berrante. Após ser sucesso na sua paróquia em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, ele assinou contrato com a Som Livre.

Com apenas 18 anos, a cantora Fernanda Silva cresceu nesse clima, quando ainda morava em Ji-Paraná, em Rondônia. “Sempre ouvi música de raiz. Eu ia para a missa sertaneja a cavalo, agradecer a Deus, ao homem do campo, aquele que planta. É uma ideia que eu sinto que está sendo bem-vinda nas cidades grandes. Em São Paulo, já tem até acampamento sertanejo”, observa uma das promessas da gravadora Canção Nova.

Com versos como “Abraço Nossa Senhora / vou por o pé na estrada / é festa de peão / oito segundos não vão me segurar”, ela acaba de lançar o novo CD, “Sertão de Deus”. Em três meses, atingiu 20 mil cópias vendidas – um número cada vez mais raro entre as gravadoras.

O cabelo encaracolado e o estilo country lhe deu a alcunha de “Paula Fernandes Cristã”. “Todo mundo me compara a ela”, comenta. “Mas sou mais sertaneja ainda”.

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