Ignácio de Loyola Brandão: “A tragédia vai nos ensinar a sobreviver e olhar para os outros”

O escritor Ignácio de Loyola Brandão imaginou a crise da água há 30 anos. Agora, diz que a falta de água custará vidas, mas que pode fazer o país evoluir

O escritor Ignácio de Loyola Brandão (foto: Bruno Poletti/folhapress)

O escritor Ignácio de Loyola Brandão (foto: Bruno Poletti/folhapress)

Aline Imercio, na Época

No ano de 1981, muitos leitores de Ignácio Loyola Brandão não conseguiram terminar a leitura do livro Não verás pais nenhum, que vendeu mais de um milhão de cópias no Brasil e no mundo. A realidade catastrófica do Brasil que não tinha água, vivia em um calor insuportável, com um governo autoritário e com alimentos limitados, assustava. Mais de trinta anos depois da publicação, o autor de 78 anos se diz assustado com o cenário da crise hídrica de São Paulo.

ÉPOCA: No final dos anos 70 o senhor começou a escrever uma obra, que se tornaria um de seus títulos de maior sucesso, nacional e internacionalmente, o Não verás país nenhum. Um livro que fala sobre um país devastado pelas mudanças climáticas e quase insuportável de se viver. O que motivou o senhor a escrever um livro deste tipo, naquela época?
Ignácio de Loyola Brandão: Comecei a escrever esse livro, que considero um dos meus maiores sucessos, em 1976 e o publiquei em 1981. Na época, minha intenção era de escrever um conto sobre a morte de um ipê amarelo, em Perdizes. Uma mulher do bairro tinha o ipê na porta de sua casa e, de repente a árvore linda e que enchia a vizinhança de tanta alegria, morreu. Quando eu e um grupo de moradores, fomos investigar a razão da morte repentina do ipê, descobrimos que  a árvore tinha sido envenenada. Batemos na porta da senhora e perguntamos se foi ela quem envenenou, ela confirmou e, em seguida, disse uma frase que me marcou muito “ Fiz isso porque essa maldita árvore sempre sujou a minha calçada com essas flores desgraçadas”. Isso ficou na minha cabeça. Não dava para aquela árvore linda ser maldita ou desgraçada. Comecei, então, a prestar atenção nas notícias sobre cortes de árvores e devastação. Pensei em escrever um conto sobre um bairro que não tem mais árvore, engrandeci isso para uma cidade, um estado, um pais. Logo em seguida, pensei que em um pais sem árvore, não tem floresta, não tem água e vira um caos, um deserto. Assim nasceu o Não verás pais nenhum.

ÉPOCA: Na época em que escreveu a obra, o senhor já falava que a crise do futuro não seria do petróleo, como grande parte imaginava, mas sim da água. Mais de 30 anos depois, vemos que essa ideia vem se concretizando. O que te fez observar que a água poderia ser um bem escasso no nosso futuro próximo?
Loyola Brandão: O que me convenceu foi ver que o petróleo naturalmente passaria por uma crise, e com essa hipótese os carros no máximo parariam, até ai tudo bem. Mas, o mais dramático como cena, era pensar na falta de água. Era um impacto muito maior dentro de um livro imaginar uma região sem água , porque nós somos feitos de água e mais de 70% do planeta também é. Na época também se discutia que, os pobres tinham acesso a uma água muito poluída, sem qualidade e que acesso estava cada vez mais restrito, eu via artigos e notícias sobre isso. Por isso, no livro criei guetos fechados, com privilégios para ricos, algo como vemos hoje em condomínios. O tanto de coisa que o Não verás… imaginou e aconteceu hoje, é maior do que eu pensava!

ÉPOCA: Como o senhor previu a crise?
Loyola Brandão: Para o livro, eu comecei a pesquisar muito sobre água. Lia notícias, artigos… Cheguei até a um cientista americano que dizia “No futuro, não vai ser a falta de petróleo que vai agoniar os países, vai ser a falta d’água”. E lembro que vi vários outros trabalhos que falavam da falta de água, e da situação apertada que a população poderia ficar. Isso porque, a água sempre foi vista como um elemento que se tem em abundância, e se pode usar à vontade. Alguns especialistas, como o professor José Goldemberg da USP, já começavam a falar do quanto era essencial cobrar pelo uso da água, como o único modo de evitar o desperdício. Mas, nunca ouvi algum governante ou deputado na época falar sobre o assunto. Foi ai que eu resolvi inserir esse tema no livro. Quis mostrar os reais efeitos da falta d’água, já que sabia que essa crise poderia chegar.

ÉPOCA: Em um dos trechos do livro, o senhor fala em banheiros instalados pela cidade, que servem para coletar urinas saudáveis e, depois, se tornarão  água para consumo, em outro momento fala do museu de água, algo que assusta o leitor. Como foi a criação desses cenários extremos de crise?
Loyola Brandão: Em uma das passagens, levantei a hipótese “se não existir água, o que vamos beber?”. Pensei em água química, mas cheguei a uma conclusão: já que posso tudo em meu livro, vou reciclar urina. Vi os banheiros de posto sem água para dar descarga e pensei que de repente a urina poderia lavar a sujeira, e já que andamos a passos tecnológicos, poderia existir uma evolução que a transformasse em líquido potável para beber. Anos mais tarde, assisti a um filme  americano chamado Waterworld – O segredo das águas, lançado depois de meu livro lá nos Estados Unidos, em que o personagem também reciclava a urina. Imagino que ele tenha usado minha ideia. Já o museu dos vidros d’água eu pensei depois de uma memória de infância. Meu pai me levava ao museu do Ipiranga, e um dia vi grandes potes com água, perguntei ao meu pai o que aquilo significava, e ele disse que eram águas dos rios de São Paulo. Achei fascinante! Anos mais tarde, resolvi colocar isso no livro. Já que a água vai se tornar tão rara, há até um museu sobre ela.

ÉPOCA: O senhor acredita que o cenário devastado do livro esteja cada vez mais próximo da realidade brasileira, em especial com a crise hídrica?
Loyola Brandão: Próxima não, a realidade já está ai e se agravando cada vez mais , e começamos pela crise hídrica. Há quatro ou seis meses tínhamos um governo fechando os olhos para essa questão na região Sudeste, por conta de votos. Também tínhamos um representante da Sabesp já alertando dos riscos para se chegar onde chegou, e ninguém fez nada. A população melhorou seu comportamento, mas precisa de mais. Hoje, diante da crise em São Paulo, ainda vejo senhoras lavando a frente de suas casas, e quando chamo a atenção para o mal que elas fazem, me dizem que não tenho nada a ver com isso. Eu não as culpo, porque nunca tivemos uma campanha decente de conscientização do uso racional da água, e as autoridades já sabem desse risco há muito tempo. Está tudo muito ruim e tende a piorar cada vez mais, como foi no livro.

ÉPOCA: Como o senhor acredita que pudesse ser a repercussão se o Não verás pais nenhum…  fosse lançado hoje, como uma obra inédita? O senhor acredita que as pessoas ficariam mais impressionadas?
Loyola Brandão:  Eu me pergunto se as pessoas hoje  se assustam com alguma coisa. Acho que não se assustam, apenas se espantam, com episódios como o escândalo da Petrobrás, ou mesmo da crise hídrica. A maioria não se indigna com nada, parece que está caminhando para a morte comodamente. Estão acomodadas a comprar coisas, viver comodamente, eu acho que, no fundo a espécie humana está ameaçada e não está preocupada com isso.

ÉPOCA: O livro ficou reconhecido por seu alerta a um mundo com o meio ambiente devastado. Depois dele, o senhor participou e ainda participa de muitos debates e discussões sobre o tema sustentabilidade. De que maneira costuma se engajar nisso?
Loyola Brandão: Eu nunca me engajei. O meu trabalho é feito com meus livros. Fiz outras obras que foram adotadas como cartilhas nas escolas. Um deles, intitulado Manifesto Verde, nasceu de uma carta que fiz aos meus filhos depois que eles me perguntaram o que era o meio ambiente e para que ele servia. Depois do Não verás… lembro que imediatamente surgiram patrulhas verdes, que eram crianças que ficavam vigiando o verde dos bairros. Depois do livro também participei de conversas com estudantes, criei outro conto sobre o assunto. Gosto dessa maneira de lidar com o tema, se fizer teoria, filosofia e técnica não se fica tão atrativo, quanto criar histórias sobre isso.

ÉPOCA: Como o senhor acredita que o Brasil pode fugir da seca? Vê alguma solução nisso?
Loyola Brandão:  Me questiono de diversas maneiras, se com o aquífero Guarani pode existir água o suficiente para abastecer essas regiões que hoje passam pela crise, se os poços artesianos são eficazes a tempo de se evitar uma tragédia maior… Não sei exatamente o que poderia ser melhor e se as soluções ainda podem ser tomadas a tempo. Tenho medo, por exemplo, do aquífero Guarani ser explorado por empreiteiras, ganhar interesses políticos e a água ficar na mão de alguns. Na realidade o meu grande medo é que a água fique na mão de alguns. Mas acredito que ainda podemos aprender com essa crise.

ÉPOCA: O que podemos aprender?
Loyola Brandão: No fundo essa crise é importante, boa. Afinal, o Brasil nunca teve grandes tragédias como uma guerra que afetasse a população e a fizesse mudar todo o comportamento, aprender tudo de novo. Então talvez esse seja o momento de a gente aprender, só que isso vai custar vidas. Eu acho essa crise fundamental para essa consciência. Me preocupa ficarmos sem água no futuro, não a mim porque não tenho mais medo de morrer nessa idade, mas o que será da minha neta de dois anos? No futuro essa menina vai morrer por falta de recursos naturais? Mas acredito na mudança, a tragédia vai nos ensinar a sobreviver e a olhar para os outros.

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