O sangue que corre em nossas veias

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Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Toda relação filial passa por três fases. Um: meu pai é a melhor pessoa do mundo. Dois: meu pai é a pior pessoa do mundo. Três: meu pai talvez não seja a pior pessoa do mundo nem a melhor, mas alguma coisa entre os dois.

É a terceira vez que vou a Portugal, e é a terceira vez que me surpreendo. Nunca vi um país tão engraçado. O humor que eles fazem está léguas à nossa frente em inovação, coragem e consciência política. Discute-se política nas ruas, na televisão e no rádio. O rádio não é considerado um veículo menor que a televisão, mas um canal paralelo, tão forte quanto, onde os melhores humoristas falam diariamente -e as músicas que tocam não são ditadas pelo jabá.

Apesar da crise econômica persistente, Lisboa continua borbulhante de cultura e gastronomia. Come-se muito bem, e pela metade do preço do Rio. A noite dura a noite inteira, e às vezes atravessa o dia. O turismo se incrementa de maneiras inusitadas: carrinhos elétricos (“tuctucs”) circulam numerosos e ônibus anfíbios mergulham no rio Tejo. As pessoas marcam de jantar, e chegam na hora, e durante o jantar quase não tiram o celular do bolso.

Quando falam dos pais “históricos”, os brasileiros parecem presos eternamente na fase 2: meu pai é uma besta e a minha vida é uma catástrofe por culpa única e exclusiva dele.

Adoramos creditar a culpa do nosso atraso civilizatório à herança portuguesa: chegamos ao ponto de inventar o mito da burrice lusitana -e muita gente acredita nele.

“Se a gente tivesse sido colonizado pelos ingleses, tudo seria diferente” -a gente tem inveja até da colonização alheia, como se ela tivesse sido menos brutal. Pior: o famoso complexo de vira-lata contamina toda a árvore genealógica galho acima. Atinge negros, índios, europeus: “O índio brasileiro era diferente do índio americano: o nosso era muito mais atrasado”. Ou ainda: “Os negros que vieram pro Brasil não se comparam aos negros que foram pros Estados Unidos, os nossos eram mais preguiçosos”. Acreditamos ser a soma das escórias africana, indígena e europeia, e isso justifica nosso atraso.

Melhor mesmo seria crescer e chamar a responsabilidade do suposto atraso para si, fugindo do determinismo genético. Mas, mesmo que a gente não conseguisse escapar do que estaria escrito no sangue que corre em nossas veias, talvez fosse o momento de procurar, nele, a educação, o afeto, a poesia, a cultura, a profundidade e o humor lusitanos.

Temos muito a aprender com nossos pais -só precisamos fazer um pouco de psicanálise.

Comentários

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1 Comentário

  1. Lusitano disse:

    Sou Português, e como Português que sou, torço pelo Brasil. País que, a seguir aos EUA e ao Canadá, é o mais poderoso em termos de economia, indústria e produção agricola entre todos os países que foram colónias de países europeus. O Brasil ainda tem muito para andar até chegar ao nível de desenvolvimento dos EUA por exemplo, mas comparado com as antigas colónias Alemãs, Francesas, Holandêsas Espanholas, Belgas, ou mesmo algumas Inglêsas (India, Papua, Uganda), pode, na minha opinião, ser considerado um grande feito da parte de uma nação pequena com as dimensões de Portugal (com uma população sete vezes mais pequena que o Reino únido). E não é só o Brasil. Moçambique e Angola constavam entre os países mais desenvolvidos do continente Africano durante a administração Portuguesa, e ao contrário das colónias Inglêsas, os Portugueses não apostavam tanto na exploração dos recursos naturais como na produção agricola e industrial. Angola era a segunda maior produtora de café, só ficando atrás do Brasil, e uma das mais pequenas produtoras de petróleo. Hoje, é a situação oposta. Moçambique tornou-se na maior produtor de energia elêctica com a construçao da cahora bassa. Mesmo na India Portuguesa, a Goa era (e ainda é) o estado mais rico e desenvolvido da India. Portanto essa ideia de que teria sido melhor a colonização Inglêsa me parece um pouco absurda. São os próprios Brasileiros que sâo responsáveis pelo desenvolvimento do país e mais ninguem. Não acham?

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