Escrever sobre a própria doença traz benefícios à saúde

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Reinaldo José Lopes, na Folha de S.Paulo

Médicos de um dos mais respeitados centros oncológicos do mundo fizeram uma descoberta que vai na contramão do senso comum, segundo o qual a última coisa que o portador de uma doença grave deve fazer é pensar demais no problema de saúde.

Eles pediram que centenas de pacientes colocassem no papel, em detalhes, os pensamentos e as sensações provocadas pelo câncer. O resultado: uma melhora significativa de vários sintomas da doença, relatam os especialistas do Centro do Câncer MD Anderson, nos EUA.

“Há boas evidências de que a negação pode ser uma estratégia eficaz de curto prazo contra uma causa de estresse, mas no longo prazo essa abordagem é deletéria para a saúde mental e física”, diz o coordenador do estudo, Lorenzo Cohen.

“Os efeitos das sessões de escrita disparam um processo nos pacientes que vai continuar mesmo depois do fim dessas sessões.”

Usar a escrita como arma contra o câncer é só o exemplo extremo de uma série de outros estudos, os quais indicam que a chance de contar a própria história por escrito ajuda a enfrentar problemas de saúde ou dificuldades de relacionamento e autoestima.

Nos últimos anos, grupos internacionais de pesquisadores têm empregado a técnica para diminuir o risco de episódios de depressão, ajudar casais em dificuldades ou melhorar o desempenho acadêmico de universitários de baixa renda, por exemplo (veja infográfico acima).

O ANIMAL QUE NARRA

Para o crítico literário americano Jonathan Gottschall, do Washington & Jefferson College, a associação entre escrita autobiográfica e bem-estar faz todo o sentido.

Gottschall é autor do livro “The Storytelling Animal” (“O Animal Contador de Histórias”), uma análise darwinista da compulsão humana de contar histórias, no qual usa a literatura científica da área de psicologia para argumentar que pessoas sãs normalmente criam um “épico próprio”, no qual são os heróis.

“Isso deriva do fato de que, em condições normais, todos temos um viés psicológico ligeiramente favorável a nós mesmos”, explica ele.

“Quando você pergunta sobre uma qualidade, como inteligência ou sensibilidade, a tendência é qualquer pessoa dizer que está acima da média, quando, por definição, metade das pessoas sempre está abaixo da média em alguma coisa”, diz Gottschall.

Para ele, o lado “terapêutico” de contar a própria história se dá quando essa narrativa autobenevolente deixa de funcionar –nesses casos, recontar os próprios passos ajudaria as pessoas a entrar nos eixos de novo.

MUDANÇA DE RUMO

No caso da médica Fernanda Ferrairo, 27, uma via-crúcis que começou com uma fratura de cóccix, poucos dias antes de sua formatura em 2010, acabou por levá-la à decisão de escrever em tempo integral.

Depois de três anos e cinco cirurgias na coluna que só serviram para lhe provocar dor crônica, Fernanda se preparava para um novo procedimento quando uma aplicação de analgésicos e anti-inflamatórios na medula provocaram dores ainda mais intensas e incapacitantes. Mais tarde, ela descobriu que o procedimento tinha desencadeado a aracnoidite adesiva, inflamação de uma das membranas que envolvem o sistema nervoso central.

“Não tenho dificuldade aparente –quem me vê andando acha que eu não tenho nada. Mas, enquanto não estou deitada ou sentada em uma cadeira reclinável, estou com dor”, conta.

Fernanda diz que sempre teve vontade de escrever. “Mas eu não sabia por onde começar. Agora eu sei”, afirma. A médica submeteu um relato impactante de sua história para publicação na revista “Superinteressante”, e o texto deve sair numa edição futura da revista.

Ela afirma que pretende continuar escrevendo sobre saúde e ciência, e que também quer se arriscar na ficção. “Eu ainda não deixei de remoer o que fizeram comigo ou as minhas próprias escolhas erradas. Mas, depois de ter escrito sobre isso, acho que pelo menos desenvolvi um senso de propósito.”

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