O fanatismo religioso e os desastres privados: quando a ressurreição milagrosa não vem

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Carlos Orsi, na Galileu

Quando se fala nos perigos do fanatismo religioso, muitas vezes o que vem à mente são guerras e atentados terroristas. Mas a verdade é que há um sem-número de desastres privados – que vão do trágico ao patético – causados pela fé cega. No início de dezembro do ano passado, por exemplo, a imprensa internacional deu algum destaque ao caso de uma família da província de Ontário, no Canadá, que manteve o cadáver do pai em casa por seis meses, enquanto rezava por sua ressurreição.

Histórias assim são menos raras do que parecem. Tendem a sumir depressa do noticiário, relegadas às seções de curiosidades inócuas. Mas não são inócuas.

Em 2011, autoridades colombianas descobriram que uma mulher vinha guardando o corpo do marido em casa já há um mês, na esperança de uma ressurreição milagrosa. Um ano antes, uma multidão de fiéis cristãos tinha se reunido no Quênia para rezar pela ressurreição de dois pastores evangélicos mortos num acidente de carro. O evento, a céu aberto, culminou com a viúva de um dos pastores sacudindo o caixão do marido, para que ele acordasse. Sem efeito.

Como já havia mencionado num artigo anterior, em 2013 um grupo de três religiosos sul-africanos foi preso por manter um cadáver num barraco por três meses, tentando trazê-lo volta à vida.  E em 2002, na cidade de Paulínia (SP), dez pessoas chegaram a ser presas num cemitério, depois de violar um túmulo e remover o corpo de um bebê do caixão. Um dos envolvidos, um pastor neopentecostal, pretendia ressuscitá-lo.

Muitas dessas ocorrências parecem se basear numa leitura literal de um versículo do Evangelho de Mateus (10:8), em que Jesus promete a seus discípulos o poder de curar os doentes, ressuscitar os mortos e expulsar demônios.

No caso canadense, esse literalismo aparece implicado, também, na morte do homem que falhou em voltar dos mortos:  Peter Wald, de 52 anos, era diabético e morreu em decorrência de uma infecção no pé que recusou a tratar, “acreditando que Deus o curaria”, segundo reportagem do jornal “Toronto Star”.

Nesse aspecto, a morte de Wald lembra a de uma menina americana de 11 anos, Madeleine Kara Neumann, também diabética, morta em 2008 enquanto seus pais rezavam para que fosse curada, recusando-se a levá-la a um hospital. A garota teria agonizado ao longo de um mês, enquanto os pais esperavam que suas preces fossem ouvidas. O pai, Dale Neumann, depois declarou à Justiça que se levasse a filha a um hospital, “estaria pondo o médico acima de Deus”.

Há situações em que a expectativa de ressurreição imediata abre as portas para a violência. Um caso clássico aconteceu na Europa, na fronteira entre Alemanha e Suíça, durante a Páscoa de 1823, quando Margaret Peter, de 29 anos, pediu para ser crucificada nas tábuas do piso de seu quarto. Ela foi atendida, pois havia prometido voltar dos mortos em três dias. Sua irmã, Elizabeth, tinha sido morta a marteladas e pauladas minutos antes, também na expectativa da ressurreição.  Dias depois, quando a polícia finalmente entrou na casa, parentes e amigos das duas jovens ainda rezavam pelo retorno de ambas.

Em tempos mais recentes – o ano era 1993 –, na Austrália, Joan Vollmer foi morta pelo marido e amigos durante um ritual de exorcismo. Todos os envolvidos esperavam que ela ressuscitasse, uma vez livre do demônio: o marido, Ralph Vollmer, convidou a mídia para assistir à ressurreição, que deveria ocorrer durante o funeral. Mas Joan não se levantou do caixão.

Esse tipo de situação mobiliza paixões. Tanto Ralph Vollmer quanto os pais de Madeleine Neumann receberam várias manifestações de apoio. Mais de cem anos antes, a casa da família onde Margaret Peter foi morta, na Alemanha, viu-se demolida por ordem judicial – a fim de evitar que se convertesse num santuário dedicado à “mártir”.

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