Escuta mostra que executivos foram alertados na véspera da Lava Jato

Polícia Federal interceptou ligações e mensagens telefônicas de investigados.
Presidente da UTC e vice da Engevix teriam sido avisados com antecedência.

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Publicado no G1

Interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal mostram que o presidente da UTC, Ricardo Pessoa, e o vice-presidente da Engevix, Gerson Almada, foram alertados na véspera da deflagração da sétima fase da Operação Lava Jato, no dia 14 de novembro de 2014.

Segundo a PF, os documentos obtidos com as interceptações trazem “indícios substanciais de que ocorreu o vazamento das informações sobre a deflagração” da operação.

No documento anexado nesta quarta-feira (18) a um dos processos relacionados à Lava Jato, as escutas e interceptações de mensagens telefônicas mostram que o advogado Renato Tai, que representa Ricardo Pessoa, alertou o executivo em mais de uma oportunidade sobre a deflagração da operação.

Em um dos trechos destacados pela polícia, o advogado avisa Pessoa de que há “potencialmente” um problema. Questionado pelo executivo se o problema “vem do sul do país”, Tai confirma.

O juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato na primeira instância, é titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, no Paraná.

Ricardo: […] Algum problema?
Renato: Potencialmente sim!
Ricardo: E da onde vem esse problema? Do sul do país?
Renato: Ah…
Ricardo: Hein?
Renato: É previsão, Ricardo! Não é certeza, mas é uma previsão.
Ricardo: Vem do sul?
Renato: É!
RICARDO: É em função da reunião que teve lá hoje?
Renato: Não sei te dizer. Não sei se tem relação, mas…

Em outro trecho, Ricardo Pessoa pergunta ao advogado o que estão “marcando” para acontecer no dia seguinte. O defensor, então, afirma que são “procedimentos” e que os responsáveis são “os inimigos”.

Ricardo: O que é que tão marcando cedo aqui? Seus colegas?
Renato: Procedimentos!
Ricardo: Os seus colegas?
Renato: Não!
Ricardo: Os nossos colegas tão marcando procedimentos ou os outros?
Renato: Os inimigos!
Ricardo: É “memo”?
Renato: É!
Ricardo: Informação vem da onde?
Renato: Ah, de vários!

Também advogado de Pessoa, Alberto Toron classificou como “grande bobagem” dizer que ele ou cliente souberam previamente que a Lava Jato seria deflagrada. Ele disse ao G1 que havia “boataria” sempre às quintas-feiras de que na sexta seguinte uma nova etapa da operação seria deflagrada contra as empreiteiras.

“É uma grande bobagem essa afirmação. Em primeiro lugar, se isso fosse verdade, meu cliente deu uma bela mostra de respeito à Justiça, porque [quando foi preso] estava na casa dele. Então, mostra com clareza que ele não tinha interesse em fugir”, disse.

“Em segundo lugar, é uma grande bobagem porque toda quinta-feira tinha uma enorme boataria que iria eclodir uma operação contra as empreiteiras. E, mesmo com a boataria, ele não fugiu, continuou trabalhando normalmente”, assegurou Toron.

Além das conversas telefônicas com um de seus advogados, Ricardo Pessoa também teria avisado um de seus sócios na UTC, João Argollo, que as empresas seriam alvo de operação no dia 14.

“Joao. Estao todos avisando (advs) que amanha podera ter cafe da manha muito cedo. Aqui. Em WP. Ai etc. Abs”, disse em uma mensagem de texto. “Em apinh tb. Ja foi avisado. Abs”.

Segundo a Polícia Federal, a sigla “WP”, usada por Pessoa no texto, se refere ao diretor da UTC, Walmir Pinheiro. Já a sigla “apinh” é usada para se referir ao presidente da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho.

Gerson Almada
As escutas telefônicas apontam ainda que Gerson Almada recebeu uma ligação no dia 13 de novembro, na qual o advogado Fábio Tofic, que representa Almada, avisa ao executivo que “amanhã é um dia ruim para a gente fazer reunião”.

A Polícia Federal afirma no documento que “não foram utilizadas palavras expressas por Gerson [Almada] ou Fábio acerca da operação da PF”, mas que o teor da conversa deixa “evidente a intenção de Fábio avisar Gerson sobre algo que iria ocorrer no dia seguinte.”

Fábio: É…então, mas ele “tava” te passando um recado de que amanhã de manhã é um dia ruim pra gente fazer reunião.
Gerson Tá…
Fábio: Entendeu? Amanhã de manhã é um dia ruim, aliás, em geral. Entendeu? É isso que ele tentou te…
Gerson: Ah…tá bom.
Fábio: Tá?
Gerson: Ok.

Ao G1, o advogado Fábio Tofic afirmou ter ouvido “boatos” de que a operação seria deflagrada e, em razão disso, avisou ao cliente. O advogado defendeu que a Polícia Federal investigue como as informações vazaram da corporação, não como os responsáveis pelas defesas dos investigados souberam dos “boatos”.

“É de causar enorme indignação que as conversas entre advogados e clientes estejam sendo utilizadas no processo. Segunda coisa, é a coisa mais normal do mundo um advogado comunicar ao seu cliente boatos que ocorrem sobre processos em que eles são alvos. Os boatos eram inegáveis, a PF tem que investigar é como isso vazou da PF, não as conversas dos advogados com seus clientes”, disse Tofic.

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