Barbara Gancia: Agressão a Mantega em hospital mostra que estamos passando dos limites

einsteinmantega

Barbara Gancia, na Folha de S.Paulo

Oba! Agora já sei o que fazer da próxima vez que der de cara com o Paulo Salim Maluf trafegando alegremente ao volante do seu automóvel Bentley pelas ruas do Jardim Europa, ritual que ele costuma empreender com regularidade.

Ou quando cruzar novamente com José Roberto Arruda, o primeiro governador condenado do Brasil. (Lembra dele, do mensalão do DEM, do vídeo em que aparece manipulando grana de propina?)

Tempos atrás, fui comer uma feijoca de sábado num restaurante do meu bairro e topei com o figura. Falei bem alto para todo mundo ouvir: “Ué, o senhor não deveria estar preso?” Silêncio no recinto.
Virei-me para os outros comensais e cobrei: “Vocês vão ficar aí fingindo que este cidadão não está aqui?”.

A mesma sensação de cumplicidade silenciosa eu já havia experimentado décadas antes, ao ver uma fila de beija-mão postada à frente da mesa de Luiz Antonio Fleury Filho, o governador paulista “criatura” de Orestes Quércia, logo após malfeitos relacionados à sua administração virem à tona.

Maluf, ainda e sempre ele, almoça no restaurante que bem entender nos Jardins sem problemas. Ao contrário. Abraçam-no, pedem-lhe autógrafo.

Pois, que eu saiba, nenhum inquérito foi aberto até agora contra o ex-ministro Guido Mantega. Se dependesse de mim, claro, por conta da permissiva e temerária condução da política fiscal no primeiro mandato do governo Dilma, ele já teria sido confinado a uma existência solitária de infâmia e borrachudos em alguma ilhota da Guiana Francesa, tal e qual um Papillon ítalo-tapuia.

Mas, que eu saiba, contrariamente aos outros supramencionados, que andam a correr livres feito bororós de bunda de fora antes do desembarque dos portugueses, Mantega não deve à Justiça.

Bem, no último dia 19, frequentadores da lanchonete do saguão do hospital Albert Einstein hostilizaram frontalmente o ex-ministro e sua mulher, que estava no hospital tratando de um câncer –mas nem que estivesse lá para comprar bombons na loja da Kopenhagen do mezanino.

Por que? Ora, porque estamos passando dos limites. Aquela gente que ali estava (há um vídeo mostrando o incidente) e que se pôs a gritar até conseguir expulsá-lo do local deveria saber que liberdade de expressão e ofensa/agressão/falta de respeito são coisas totalmente distintas.

Liberdade de expressão não significa ter o direito adquirido de abrir o orifício de entuchar bolo para dizer qualquer sandice que dê na telha.

Falar sem censura é um direito adquirido. É como habilitação para dirigir ou o direito de beber. Só pode ser usado por quem tem maturidade.

E para obter bom senso, há primeiro de se receber educação, limites e aprender a respeitar o próximo.

O fato de o ex-ministro ter errado (na minha modestíssima opinião) flagrantemente na condução da economia não confere a ninguém o direito de agredi-lo dentro de um local que exige paz e harmonia para seu melhor andamento.

Caso contrário, daqui a pouco vamos estar questionando se vale ou não o bloco de Carnaval e o rolezinho no saguão do hospital.

E essa conversa mole de que, se o ministro fosse coerente com sua ideologia, sua mulher deveria estar se tratando no SUS, é moleza de contra-argumentar.

Quer ver? Por que o Maluf pode ir ao restaurante dos Jardins sem ser xingado e o Mantega não pode? Qual dos dois é procurado pela Interpol? Percebe?

E por que será que os empresários e o mercado podem transacionar sem culpas com os Bokassas e Idi Amins da vida, declarar amor eterno ao Palocci, seduzir Saddam Hussein e depois matá-lo e assim por diante, mas Lula não pode gostar de um bom Château Pétrus?

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