Ateus são mais raivosos que a média?

Em cartum de 1922, a modernidade é uma escada descendente cujo degrau mais baixo é o “ateísmo”. (foto: E. J. Pace/Reprodução)

Em cartum de 1922, a modernidade é uma escada descendente cujo degrau mais baixo é o “ateísmo”. (foto: E. J. Pace/Reprodução)

Carlos Orsi, na Galileu

O ateu raivoso é um mito, mas um mito prevalente, diz uma série de estudos realizada por psicólogos nos Estados Unidos. Um curioso artigo publicado no periódico “The Journal of Psychology: Interdisciplinary and Applied” relata os resultados de sete experimentos realizados para determinar, primeiro, se as pessoas em geral acham que os ateus são bravos ou raivosos e, segundo, se são mesmo. Ao todo, tomaram parte na pesquisa mais de 1.600 pessoas.

O primeiro grupo de testes determinou que, sim, a maioria das pessoas acha que os ateus são “mais bravos” que a média da população, e mais raivosos, até, que outras minorias conhecidas por reivindicar publicamente seus direitos. Já o segundo grupo usou avaliações psicológicas para descobrir se os ateus são mais bravos em termos pessoais – tratando a ira como uma característica intrínseca de personalidade – e também se são mais irritáveis: isto é, se reagem de modo mais explosivo que a população em geral quando provocados. Descobriu-se que acreditar ou não em Deus não permite prever nem se a pessoa tem uma personalidade mais raivosa, nem se é mais fácil induzi-la a um surto de fúria.

Uma questão que fica em aberto, diante do resultado concreto, é de onde vem esse mito de que os ateus em geral são figuras raivosas e agressivas. Os autores do artigo publicado afirmam que “nossos estudos não foram projetados para identificar os fatores que alimentam o estereótipo do ateu raivoso”, mas acrescentam que “inúmeras notícias, postagens na internet, entrevistadores e autores têm feito uso do rótulo”.

Parte da popularidade desse estereótipo talvez possa ser atribuída à militância pública de figuras como o biólogo Richard Dawkins, que se valem de uma linguagem dura e, não raro, desrespeitosa para atacar tanto ideias religiosas quanto a influência da religião na sociedade, mas a associação simbólica entre ateísmo e fúria é mais antiga que a emergência do chamado “novo ateísmo”.

Afinal, a ideia de que o ateu é, na verdade, um “revoltado contra Deus” ou, numa formulação mais caridosa, de que o ateísmo é uma “rebelião equivocada para com o mistério do mal no mundo” está aí há séculos, e faz parte de um estereótipo negativo amplo, que emerge tanto na linguagem coloquial (onde volta e meia se lamenta a “falta de Deus no coração” deste ou daquele malfeitor) quanto no texto bíblico, como o verso inicial do Salmo 13 – ou 14, dependendo da edição que se consulta.

Como aponta o artigo, nos Estados Unidos ateus são geralmente vistos como indignos de confiança, imorais. Menos de 50% dos americanos votariam um ateu, diz um levantamento, e 48% dos participantes de outra pesquisa disseram que desaprovariam se seus filhos se casassem com ateus.

No Brasil, a situação não é muito diferente, senão ainda pior: uma pesquisa CNT/Sensus divulgada em 2007 indicava que 59% dos brasileiros não votariam em um ateu para presidente. No ano de 2008, levantamento da Fundação Perseu Abramo, em conjunto com o Instituto Rosa Luxemburgo, chamou atenção ao apontar que os ateus são o grupo pelo qual os brasileiros em geral mais dizem sentir repulsa, ódio e antipatia. Usuários de drogas vêm em segundo lugar, seguidos de garotos de programa, travestis e prostitutas.

Estereótipos são sedutores, porque úteis: poupam-nos do esforço de ter de tratar cada nova pessoa que encontramos como se ela fosse um enigma, um perfeito desconhecido. Basta saber de sua filiação a um ou dois grupos (como religião, partido, nacionalidade, sexo) e já acreditamos ter uma boa ideia de o que esperar dela. Essa utilidade, no entanto, depende de uma condição crucial: o estereótipo precisa ser verdadeiro. Alguns até são: há pesquisas que sugerem que pessoas mais bonitas são, como diz o estereótipo, mais simpáticas e agradáveis (talvez porque estejam acostumadas a ser bem tratadas pelos outros).

Estereótipos falsos, por sua vez, são problemáticos por uma série de motivos. Filosoficamente, crenças falsas são, em princípio, indesejáveis. Do ponto de vista prático, podem fornecer justificativa para discriminação e, até, dar origem a profecias que se autorrealizam: o exemplo clássico é o da mulher que, ao acreditar no estereótipo de que o sexo feminino não leva jeito para as ciências exatas, ignora a possibilidade de uma carreira em engenharia.

Além disso, ao colorir a percepção que a população em geral tem de um determinado grupo, falsos estereótipos acabam viciando, logo de saída, interações que, de outra forma, poderiam ser mais produtivas. Como escrevem os autores do artigo no “Journal”, “ao documentar e desconfirmar o estereótipo do ateu raivoso, então, é possível que nossas descobertas possam contribuir para um diálogo mais civilizado entre crentes e descrentes”.

Comentários

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11 Comentários

  1. André disse:

    Quem queimou pessoas inocentes alegando bruxaria, não foram os “ateus”
    Quem agride homosexuais, também não são os “ateus”.
    Quem apedreja mulheres,definitivamente não são os “ateus”.
    Quem ameaça com uma tortura eterna se não o amar, também não é ateu.
    Quem descrimina por não acreditar em contos de fadas também não é ateu.
    Amém.

    • domingos disse:

      brother, naquela época havia várias coisas sem controle, dentre elas a magia negra e sacrifícios feitos com crianças por essas bruxas;
      Os homossexuais se agridem por si próprio com sua conduta, preconceito não é esteriótipo, é pra todos, brancos, pretos, homossexuais, loiras, pobre e etc..
      Deus não escreveu o alcorão, foi Maomé, se informe mais, até porque ele não teve inspiração divina para mandar apedrejar ninguém, ele só quis colocar um ponto final na quantidade de profetas que havia naquela época;
      Ninguém ameaça ninguém, Deus não é humano, ele é o centro, início e fim, não é o ser humano que ameaça, na dúvida acho q ao menos viva em comunidade e seja uma boa pessoa;
      Repetindo, discriminação não é esteriótipo, até porque para ateus, quem crê em algo maior sofre de burrice acentuada…
      Amém e se não acredita em Deus, não tenha preconceito com quem acredita, Deus te abençoe

    • Victor disse:

      Falou tudo brother!!

    • Edrey disse:

      Bem, o problema muitas das vezes pode não ser a religião mas o fanatismo religioso esse é o mau da sociedade, por esse mal que as pessoas matam por religião ou discriminam, por esse e outros motivos deixei de seguir a religião e não me arrependo dessa escolha e também espero que as pessoas respeitem minha escolha como respeito as delas mas quando converso com pessoas que seguem a religião elas não aceitam a minha escolha de forma alguma.

      • domingos disse:

        amigão, visite a casa de Deus, ele está lá e em todo lugar mas pede para visitarmos, sou católico e discordo de vários pontos mas a casa de Deus é minha também pois tbm sou filho de Deus

  2. O que me impressiona mais é ver pessoas, em pleno século 21, tentando justificar a queima de “bruxas” pela igreja, usando o artifício da época, cultura, ou qualquer outro pretexto para a sede de controle absoluto e inquestionável almejado até hoje pela igreja e pelas religiões. Domingos, vc representa o retrógrado, o atraso e o preconceito maquiado de amor divino.
    Para seu governo meu querido, o islamismo, religião supostamente fundada pelo “profeta” maomé, é uma religião assim como o cristianismo, possui um livreto central, uma divindade suprema e um profeta escolhido, a diferença é que as atrocidades cometidas pelo islã hoje foram as mesmas cometidas pela igreja cristã outrora, ambos são farinha do mesmo saco, a diferença é que o cristianismo roubou e saqueou riquezas o suficiente para comprar segredos, arte, almas e uma imagem de bom samaritano que erroneamente vigora nos dias de hoje.
    O que falta nos religiosos, católicos, evangélicos, islâmicos, mormons, anglicanos, luteranos, ou qualquer outro, é o senso de que tudo não passa de uma crença, uma crença em um determinado livro, e essa crença na esmagadora maioria das vezes é tomada como verdade absoluta que deve ser defendida custe o que custar. O amor ao próximo é um mero detalhe, o próximo que merece ser amado é apenas o próximo que tem as mesmas convicções religiosas da grande massa.
    Existem ateus ruins de coração e índole e ateus puramente bondosos e amorosos, afinal somos da espécie humana, a diferença entre estes últimos citados e os “crentes” tementes a um Deus é que o ateu quando escolhe ser bom e amoroso com o próximo não o faz por obrigação ou medo de uma divindade, ele o faz pura e simplesmente pelo senso humanitário de compaixão e amor ao próximo, este sim é um sentimento verdadeiramente livre e benevolente.
    Tudo de bom.

    • Domingos disse:

      cara, nunca li tamanha estupidez, só te faço uma pergunta, tu tem quantos anos??? será que mais de 2.000 anos a humanidade vem sendo enganada??? Será que todos os relatos, todas as pesquisas, tudo o que chamamos de milagre que são pesquisados a risca e exaustão onde o último veredicto é dado por um ateu é mesmo crença??? cresça meu amiguinho, existem dois lados, o lado do fanatismo que é aquele que quem segue tem raiva da opinião do próximo e tenta se impor com violência, ou até mesmo discriminação, como a que vc fez agora julgando um livro pela capa e o outro lado onde a razão impera e vc faz o bom discernimento das coisas como o bom religioso faz, só para re bater sua raivinha das bruxas te pergunto tbm, quantos martires deram a vida para salvar a dos outros??? vc ateu faria isso??? e n me venha com essas idiotices pq ateu da a vida somente se for por alguém muito próximo e olhe lá….

    • Semiramis disse:

      Creio no que chamamos de Deus, força criadora, e na lei da causa e efeito: não façais aos outros, o que não queres que te façam, e durante minha existência, o que mais tenho observado, é que, quanto mais religioso, mais danoso. Então, passo longe de religiões, porque se pratico o bem, pago minhas contas, respeito a vida em todas as suas formas, não preciso enfiar dinheiro em padres e pastores para obter alguma bênção divina. As bênçãos vêm com o merecimento de cada um. Elas vêm pelo que se pratica, não pelo que se frequenta. Infelizmente, muitos humanos ainda têm a mania de dizer que é a vontade de Deus, que Jesus vai resolver tudo, ou então é culpa do diabão. Esses mesmos humanos, são aqueles que fazem suas maldades por aí, e jogam a culpa em quem não está presente para se defender. Portanto, minha porta está fechada para falsidades, propagandas enganosas e fanatismos, mesmo porque, a verdade verdadeira, ninguém, mas ninguém neste planeta conhece. O passado passou, foi apagado, e o que sobrou são apenas as manipulações para manter o povo ingênuo sob o forte jugo do medo e falsos milagres. Aliás, milagres são bênçãos, que como disse antes, ocorrem por merecimento, e nada mais. O resto, é pura escravidão. São os espertos se dando bem às custas dos tolos.

      • Edrey disse:

        Tenho essa mesma ideia, faço o bem o máximo que puder e creio que a religião deveria ser a mesma coisa ajudar a pessoa não importa raça ou credo ou qualquer outra diferença, na ideologia é isso mas na pratica é algo totalmente diferente.

  3. Domingos disse:

    não veja isto como dois pesos e duas medidas, a vida de um religioso tem o mesmo valor que a vida de um pecador para Deus, todos sabem disso, senão Jesus não teria vindo ao mundo. outra coisa amiguinho, hoje a coisa está tão evoluída que ao contrário de ateus que buscam cada vez mais desculpas para negar a verdade, que a igreja cristã vem pedindo perdão a humanidade pelos erros do passado

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