Esperança, teimosia desvairada

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Ricardo Gondim

Na década de 1950, fomos devidamente advertidos de que as formigas saúvas acabariam com o Brasil. No década de 1960, espalhou-se o pavor de que os comunistas viriam, desde a União Soviética, comer nossas criancinhas. Nos anos 1970, especialistas profetizaram o fim do petróleo mundial, e que as economias entrariam em colapso. Em 1980, criou-se a paranoia da camada de ozônio – o buraco sobre a Antártida seria tão enorme que raios solares fritariam o planeta.  Na última década do século XX, uma pane nos computadores faria aviões caírem do céu, trens baterem de frente e até arsenais nucleares serem lançados à revelia.

Desnecessário dizer que nenhuma das profecias se cumpriu. As formigas continuam uma praga sem arrasar com a nossa dispensa. O preço do petróleo desabou e a produção parece assegurada para os próximos cem anos. Essas evidências mostram que os profetas de mau agouro erram mais do que eles próprios admitem. Seus prognósticos os deixam mais ricos e mais populares. A vida se torna asfixiante. A história porém segue, a despeito de vaticínios trágicos – com solavancos, mas segue.  Aqui e ali, as barbáries de sempre continuam a nos estarrecer. Aqui e ali, porém, chega uma boa notícia.

É verdade, um mundo conectado nos expõe mais próximos da violência. A pornografia infantil se torna uma ameaça mais assustadora devido a internet. Os cartéis de drogas, com a facilidade do transporte de armas, parecem mais violentos. O capital transnacional migra, sem reconhecer dia ou noite, pelos continentes em busca do maior lucro.

Agora, com todas as adversativas, mas, porém, todavia, contudo, nem tudo é desgraça.

Não rumamos para o caos absoluto.

Sobram razões para manter a esperança. A varíola acabou. Uma nova consciência socioambiental toma corpo. A corrida armamentista já não nos coloca em iminente destruição com as bombas nucleares.

Digo sem medo: abaixo os profetas do caos. É preciso abrir espaço para sonhar. Os bruxos do pessimismo não podem ter a primazia de descarregar sobre nós o veneno da apatia. Entendo. Para eles, quanto mais desastroso o horizonte, melhor.

Os quiromantes da morte sabem que um pessimismo trágico abre alas para que tiranos se sintam vocacionados a entrar em cena. Todos os totalitarismos aconteceram devido ao cuidado de pessoas e grupos de se colocarem como “prevenção à catástrofe”. A lógica para os nacionalismos que meteram o mundo nas duas guerras mundiais veio do receio de que podemos “perder o controle da pátria”.

O coquetel para que leviatãs se levantem no Brasil está pronto. O controle da mídia por grupos reacionários se soma ao desespero filosófico, mais à insegurança econômica e logo o barril da violência irá pelos ares. Interessa ao fascismo deixar a sensação de que a história caminha para uma sinuca de bico. Sem opções, algum messias, ou sistema messiânico, será chamado para “assumir o controle da bagunça”. Não tarda ouvirmos: “melhor uma liberdade relativa do que essa anarquia em que nos meteram”.

Reproduzo o pensamento de Hannah Arendt por acreditar na possibilidade do surgimento de outro mundo, mesmo em meio à promessa de borrasca:

O novo sempre acontece à revelia da esmagadora força das leis estatísticas e de sua probabilidade que, para fins práticos e cotidianos, equivale à certeza; assim, o novo sempre surge sob o disfarce do milagre. O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável. E isto, por sua vez, só é possível porque cada homem é singular… [A Condição humana, p.191]

Reluto com todas as forças para não deixar a minha esperança marchar ao lado dos odiosos. Se eu capitular agora, adubo o chão de onde surgirão os monstros que tanto desprezo. É preciso manter a doçura, acreditar no estado do direito, conversar com gente ponderada, e jamais dar ouvidos ao discurso do caos. Junto com o descrédito político, religioso e econômico podem surgir as formas mais malévolas do cinismo. E junto com ele, a opressão. Desejo ficar longe desse pessimismo. Quero guardar em mim a possibilidade – o disfarce – do novo, o milagre.

No Brasil, sobre tudo o que devo guardar agora, guardo a minha Esperança.

Soli Deo Gloria

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