Quem tem um sonho não cansa

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Sérgio Pavarini

“Não há lei aqui. Os traficantes decidem e ao povo cabe apenas obedecer.”

Meses atrás estive no Rio de Janeiro cobrindo um evento literário num dos bairros da cidade. O trânsito era livre até certo ponto. A partir dali, olheiros do tráfico precisavam autorizar a entrada dos convidados.

Nas ruas próximas ao centro cultural, me chamou a atenção o número de adolescentes amputados. “Os traficantes mandam cortar a mão de quem comete pequenos delitos para desestimular novas ocorrências”, me explicou o motorista. E continuou a exposição sobre a violência carioca cotidiana, algo muito longe dos “encantos mil” (de)cantados na canção famosa. Não foi fácil dormir naquela noite.

Segundo o ditador russo Joseph Stalin, “a morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”. A profusão de notícias em tempo real parece ter acentuado o nosso entorpecimento. Enquanto você ler esta matéria, pelo menos 200 crianças no mundo vão morrer de fome ou de doenças evitáveis. Uma notícia como essa toca seu coração de alguma forma?

Pensando apenas no Brasil, a média anual de mortes violentas é superior à de conflitos como a guerra civil de Angola e a Guerra do Iraque. Foram mais de 1 milhão de homicídios nos últimos 20 anos. Questões como essas unem dois homens de trajetórias diferentes: um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Ambos são pastores, mas as batalhas que protagonizam não acontecem nos púlpitos. A importância da atuação deles é reconhecida pela mídia e muitas vezes eles se encontram nas páginas dos principais jornais e sites.

Pastor da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca (RJ), Antônio Carlos Costa é o fundador da Rio de Paz, ONG que completou recentemente sete anos. Carlos Bezerra Jr. é médico ginecologista e obstetra e deixou o consultório para trazer à luz inúmeros projetos importantes na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Entre várias bandeiras, Costa e Bezerra escolheram os Direitos Humanos como sinal do Reino. Infelizmente, a simples menção ao tema provoca olhares de reprovação de muita gente bem intencionada que vendeu sua faculdade de pensamento para a Internet. Contentam-se com ideias prontas e equivocadas, algumas com menos de 140 caracteres. Remetendo à advertência do profeta Oséias, a falta de conhecimento continua provocando destruição. No caso brasileiro, dentro e fora da igreja.

Como no caso dos adolescentes cariocas, uma igreja que não luta para transformar o mundo está amputando as mãos de Deus. Contudo, o mesmo que restaurou mãos mirradas continua colocando tendões de compaixão em ossos outrora secos. Essa é a luta dos líderes que entrevistei para esta edição da Comuna. Um embate que requer mãos duplamente equipadas (sensibilidade + informação) como a dos que trabalharam na reconstrução dos muros de Jerusalém. Se nas palavras do compositor jovem, “fácil não é nem vai ser”, jamais desanimamos na certeza de que esta batalha é do Senhor.

texto que abre as entrevistas que fiz para a nova edição da Revista Comuna.

Comentários

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2 Comentários

  1. […] texto de abertura está aqui e a entrevista com Antônio Carlos Costa pode ser lida […]

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