Antônio Carlos Costa: ‘A missão principal da igreja é amar’

Texto integral da entrevista com Antônio Carlos Costa publicada na nova edição da revista Comuna.

foto: Enrico Guerrero

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O texto de abertura está aqui.

Sérgio Pavarini: Teólogo, pastor presbiteriano e ativista social. Quando que esse terceiro item, aparentemente estranho para o currículo de um ministro evangélico, passou a fazer parte de seu ministério?

Antônio Carlos Costa: Foi a partir de uma crise no final de 2006. No dia 28 de dezembro, o narcotráfico resolveu matar pessoas no Rio de Janeiro a fim de chamar atenção para as péssimas condições de vida dos presos no Complexo de Bangu. Eles assassinaram 19 pessoas em diferentes pontos da cidade, entre elas 8 pessoas queimadas vivas dentro de um ônibus.

Cada vez que via essas violações de Direitos Humanos, me sentia muito mal e perguntava a Deus como lidar com isso. Após aquelas mortes, falei: “Chega, não dá mais, vou para a rua protestar”. Desde o início, pensei em manifestações com forte apelo midiático. A ideia era criar imagens fortes que atraíssem a atenção dos meios de comunicação, alcançando o poder público e o maior número possível de pessoas com o objetivo de aumentar o nível de conscientização social.

Em janeiro de 2007 fizemos a primeira manifestação na Cinelândia, mas o que repercutiu mundialmente foi o protesto realizado em Copacabana no mês de março. A chamada “manifestação das cruzes pretas” tornou-se uma das mais conhecidas da história do Brasil.

SP: Há quase 2 mil versículos na Bíblia sobre pobreza e justiça. Qual a origem da negligência a temas tão centrais quanto esses?

AC: Antes de ser uma crise intelectual, é algo que envolve o campo dos afetos. Creio que é mesmo falta de amor e de compaixão. Está em curso no Brasil uma espécie de pregação que, em vez de formar homens de carne, está formando estátuas de mármore. Há pessoas que não se comovem com nada, fruto de uma evangelização incapaz de apresentar a compaixão como sinal por excelência do novo nascimento.

A missão principal da igreja é amar. Não é pregar o evangelho, nem lutar por justiça. Primeiramente, ela ama, e depois vai agir em uma direção ou outra. O amor é que vai dizer como viabilizar a existência daquele que a Providência colocou em seu caminho.

Soma-se a isso outros fatores teológicos. Nossa filosofia de história é profundamente pessimista, fazendo com que a igreja cruze os braços. Certa vez um pastor disse: “Não estamos aqui para organizar o inferno”. O que caracteriza o inferno é a completa falta de esperança, no entanto há soluções para este mundo não ser tão ruim e injusto. Se as gerações passadas nutrissem esse pessimismo, não estaríamos vivendo em um regime democrático, não teríamos uma constituição e as mulheres continuariam sem direito a voto. Se gente como Locke, Rousseau, Wesley e Luther King pensasse “não tem jeito”, continuaríamos vivendo em um cenário de terror.

SP: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.” Já passou por problemas parecidos com o de dom Helder Camara, autor dessa frase?

AC: Esse é um dos estigmas que tentam colar no meu ministério. Há setores do protestantismo brasileiro se queixando que estou para me tornar liberal, no sentido de apostatar da fé. Afirmam ainda que sou comunista e que meu projeto é levar a igreja para o marxismo ou trazer o marxismo para dentro da igreja.

O discurso da esquerda não me atrai sob vários aspectos. Não acredito na revolução do proletariado, não acredito que teremos uma geração que dará fim ao sistema de classes, instaurando um mundo livre, no qual não teremos patrões, mais-valia e exploração. O homem não banca esse projeto. Temos uma natureza que só pode ser transformada por meio do Evangelho. Podemos trabalhar com políticas públicas e aperfeiçoar a democracia, contudo sem tocar em corações que necessitam ser redimidos.

Não sou liberal. Para mim, o Liberalismo Teológico não é uma vertente do Cristianismo, é outra religião. Não sou marxista porque não se trata apenas de uma teoria econômica e política. É uma filosofia que parte do pressuposto de que, para o mundo funcionar bem, você tem que banir o nome de Deus e a religião.

SP: Segundo a Folha de S.Paulo, igrejas católicas e evangélicas arrecadam em média R$ 20 bilhões ao ano, o equivalente a 90% do orçamento do Bolsa Família em 2015. Como avalia o investimento desse dinheiro recebido dos fiéis?

AC: Parte desse dinheiro está sendo bem empregado. Há pessoas que fazem trabalhos belíssimos e não têm a mesma projeção que o Rio de Paz, mas são reconhecidas no céu. Conheço inúmeros cristãos envolvidos em projetos sociais, porém continuamos muito aquém do que poderia ser. Esse é o ponto.

Esse dinheiro é mal empregado porque o sonho de grande parte dos pastores brasileiros é a megachurch. Aí eles pegam o dinheiro que poderia ser investido na obra missionária, em justiça social, em ensino, em melhor preparo teológico dos pastores e investem em rádio, TV e templos suntuosos.

É preciso fugir de dois extremos na hora de fazer a leitura sobre o protestantismo brasileiro: um é dizer que Deus não tem povo neste país. Posso dar vários exemplos da presença evidente e clara do Senhor na vida do rebanho. O outro extremo é não considerar que a igreja precisa de reforma e de avivamento. Temos um púlpito muito fraco. A igreja permanece calada sobre gravíssimas violações de direitos humanos. Nossa influência no campo político e social é pífia. Somos uma igreja em que as famílias estão se dissolvendo e sendo derrotadas em campos nos quais os não-cristãos também têm fracassado. Isso é sintomático.

SP: Em sua “Carta de uma prisão em Birminghan”, Martin Luther King fez um diagnóstico sombrio: “A igreja contemporânea é uma voz fraca e ineficaz, com um som incerto”. Quase 52 anos depois, o cenário mudou ou não?

AC: Isso vale para o Brasil e para o resto do mundo porque a nossa interpretação da Bíblia é significativamente mediada pelo protestantismo americano. Toda a produção teológica à qual os pastores brasileiros têm acesso vem dos Estados Unidos, e o que chega aqui é o que há de mais retrógrado e conservador que existe lá, e que conta com a oposição de setores inteiros da igreja.

Trata-se de uma teologia que não tem resposta para os problemas da América Latina. É um protestantismo que não levanta a questão ética por excelência para um contexto como o nosso: o que significa ser cristão em um país de miséria. Temos 7 milhões de miseráveis, 7 milhões que estão lutando para saciar a fome, fora um contingente enorme que não morre mais de fome, mas que ainda vive muito mal. São pessoas que não têm acesso à educação de qualidade e entregues à violência urbana em um país que em 2013 viu 56.000 pessoas serem assassinadas.

Economista indiano e ganhador do Nobel em 1998, Amartya Sen mostrou que você não pode ver o PIB ou o aumento da riqueza de um país como sinal de desenvolvimento. As pessoas podem ter sua renda aumentada e continuar vivendo mal, sem rede hospitalar, sem seus direitos garantidos e sem participar da vida pública. Hoje vivemos em um país assim e o protestantismo brasileiro é completamente alheio a esse tipo de problema.

SP: Da década de 1980 para cá, o número de evangélicos no país experimentou o maior crescimento da história. No entanto, a percepção sobre o rebanho permanece negativa. O envolvimento social é um caminho para mudar esse quadro?

AC: Uma igreja envolvida no combate à violação dos direitos humanos e dedicada à diminuição da desigualdade social seria uma cidade edificada sobre o monte. Esse é o melhor caminho para recobrarmos a credibilidade perante a opinião pública e perante setores da sociedade que nos menosprezam e, de certa forma, por motivos justos.

O fato de ser evangélico me ajuda na favela, mas complica com os meios de comunicação, com a universidade, com os formadores de opinião. Essa gente não nos tem como confiáveis, nos vê como ingênuos e alienados.

Vivemos um momento de opróbrio. Deveríamos vestir pano de saco e cinza porque estamos perdendo a oportunidade rara de levar uma nação aos pés de Jesus. O Brasil é um dos países do planeta mais abertos à pregação do Evangelho. Os templos estão lotados e a fome espiritual é tão grande que continuam lotados, apesar da superficialidade das mensagens e de muitas bizarrices no local de adoração. Mas as pessoas continuam lá por causa dessa demanda de transcendência presente hoje na cultura brasileira. Que é a nossa alma!

foto: Enrico Guerrero

foto: Enrico Guerrero

SP: Segundo Max Lucado, “a solução final para a pobreza é encontrada na compaixão do povo de Deus”. Contudo, ativismo social é frequentemente rotulado como prática “progressista”. Como sensibilizar a ala tradicional sobre esse assunto?

AC: Nunca li obras do Max Lucado, mas se o conceito de compaixão dele for o da esmola, que é bíblico, não é suficiente para essa demanda de desigualdade. Ela tem uma natureza política muito profunda. Se você não tem uma economia de mercado que favoreça a troca e que, ao mesmo tempo, socialize a riqueza, se não tem instituições democráticas sólidas, esqueça a prosperidade.

Quando o evangélico pensa em termos sociais, em geral está pensando no exercício de filantropia dentro dos muros da igreja ou nas comunidades pobres, quando muito. Já seria uma visão mais ousada colocar um ambulatório dentro de uma favela, só que nesse ponto, e nisso a Teologia da Libertação está certa, estamos lidando com estruturas do Mal que precisam ser combatidas. Devemos enfrentar esse modelo de exploração.

SP: O sr. lidera uma igreja num bairro abastado do Rio de Janeiro. Pastores envolvidos com ativismo social precisam fazer voto de pobreza?

Não vejo base nas Escrituras para prescrever o voto de pobreza para todos os ministros do evangelho. A gente não deve viver um padrão de vida nababesco, mas também deve viver com dignidade. No entanto, me parece que alguns ministros deixaram de compreender que o seu padrão de vida causa escândalo.

Pelo salário que recebo na minha igreja até poderia ter um carro melhor, mas ir para as favelas em um carro de luxo poderia me criar embaraços. Talvez no meu contato com outros setores da sociedade também sofresse perda de autoridade. Optei por um carro simples, o que pra mim não é nenhuma renúncia porque nunca tive esse fascínio por carros bonitos como símbolos de status.

Se um pastor tem Jesus como paradigma do seu ministério, ele deve estar nos locais em que o Senhor estaria hoje. A geografia do ministério de Jesus é facilmente discernível nos evangelhos. Tenho muita dificuldade de ouvir quem fala sobre pobreza e justiça social e não tem contato com os miseráveis deste mundo. Você tem de estar com um pé na periferia se quer ser imitador de Cristo.

SP: Redes sociais às vezes parecem tribunais e radicalismos sempre dão muito ibope. Como os princípios do Sermão da Montanha podem temperar a nossa realidade?

Sou fã das redes sociais, mas infelizmente elas estão expondo o que há de pior nas igrejas: pessoas com gravíssimos problemas de interpretação de texto. Nossa participação mostra a mediocridade da vida intelectual do povo. As pessoas são fracas de reflexão, de pensamento lógico e grande parte não sabe nem escrever ou interpretar texto.

Outro ponto que me chama atenção é a presença de setores altamente reacionários do protestantismo brasileiro. É interessante ver pessoas de dentro da igreja propondo o que tem de mais anticristão que se pode imaginar. E você vê não-cristãos propondo aquilo que qualquer conhecedor do Novo Testamento proporia se estivesse em seu lugar.

Apresentamos inconsistências em questões éticas muito elementares, e isso aponta a fraqueza da pregação, a fraqueza do ensino, a debilidade do nosso discipulado. As pessoas param onde começaram, não avançam, não se desenvolvem e isso está se refletindo na internet: “O dedo tecla do que o coração está cheio”.

Qual o sentimento ao ver evangélicos no Rio de Janeiro que estão no poder ou tentando voltar ao poder, criticando as poucas ações que há no combate à violência (UPPs)? Não dá a sensação de enxugar gelo?

Tenho motivos para me entristecer no Rio de Janeiro, e então choro porque ainda não houve reforma da polícia, porque o poder público não está combatendo a injustiça social, porque estão investindo uma fortuna nos Jogos Olímpicos em obras na Zona Sul e na zona portuária. A Barra da Tijuca vai se transformar numa Bevelry Hills e a favela continua carente de políticas públicas. Choro quando não vejo uma discussão madura sobre a questão das drogas. Até quando vamos continuar com essa política de repressão que não deu certo em lugar nenhum do planeta e que está superlotando nossas prisões?

Por outro lado, eu me alegro. Muitas campanhas mobilizaram a sociedade, como “Onde está Amarildo?”, “Quem matou Juan?”, “Quem matou a juíza Patrícia Acioly?”. A criação da Delegacia de Desaparecidos foi outra conquista. O fim das 14 carceragens da Polícia Civil com 4 mil homens em regime de campo de concentração também foi uma vitória. A marcha de 2013 foi um momento tão importante quanto a declaração da Independência do Brasil e no futuro será tão importante quanto as Diretas Já.

Vejo avanços, vejo retrocessos, motivos para alegria e para tristeza. Acredito que teríamos mais motivos para tristeza se permanecêssemos na indiferença, no pessimismo, na ociosidade e no medo. Nossa vida emocional está ligada a essa dialética de avanços e recuos, conquistas e derrotas. Vamos viver essa dupla realidade até o retorno de Cristo. Ora dando graças a Deus pela vitória da liberdade, da justiça, do direto, do Reino, pela palavra de Deus e ora lamentando por conta da escuridão desse mundo, por conta da obtusidade humana e da injustiça.

SP: Rick Warren disse que “a primeira Reforma girou em torno de credos e que uma nova vai acontecer em torno de atos; uma dividiu e esta vai unificar a igreja”. É possível comunidades de diferentes crenças se unirem em torno de uma missão comum?

Esse é um processo difícil e o motivo principal são os pastores. Nossos líderes são muito vaidosos e poucos conseguem se ver como coadjuvante em alguma história. Eles não conseguem se unir para fazer o bem. Se você vai fazer uma concentração contra a violação dos Direitos Humanos, vai ter uns 50 que acham que devem falar, porque pensam que não são Jônatas, eles são Davi; eles não são Arão, eles são Moisés, eles não são Barnabé, eles são Paulo…

Coadjuvantes também ganham Oscar…

Pois é! Eles não são cauda, são cabeça… isso é muito difícil. Você não consegue unir os pastores para nenhuma história em que… sempre vai ter isso: você tem que ter um Luther King para ir na frente, um porta-voz, não dá para todos falarem porque vai ser uma cacofonia porque nem todos estão em condição de falar e nem todos, se der o microfone,  saberão nem o que falar. E  não tem um chamado pra isso. Você tem que ter uma habilidade, uma sabedoria de Salomão.

Se as igrejas se unissem, seria algo revolucionário. Os movimentos sociais no Brasil não têm povo, nós temos povo. Poderíamos lotar as ruas do Brasil, poderíamos redigir petições… Qualquer crente que tenha uma petição com 2 milhões de assinaturas é recebido por qualquer autoridade pública no Brasil. Se você tem uma petição com 2 ou 3 milhões de assinaturas, você criou um pacto político extraordinário.

Mas os pastores não conseguem! Se conseguissem se unir, meu Deus do Céu! Poderíamos entrar nas favelas, nas comunidades pobres. Fazer grandes reuniões, marcar audiências… Possibilidades incontáveis.
SP: Algumas igrejas enfatizam o compromisso social. Outras priorizam o aspecto espiritual. Como obter o equilíbrio entre os dois lados?

Outro dia conversei com um pastor de uma denominação histórica. Elogiei a contundência do discurso de justiça social deles e perguntei o que estavam fazendo pelo Brasil nessa área. Ele respondeu: “Nada, porque não temos povo”. Não tem povo porque deixaram de evangelizar e pregar a palavra de Deus. O outro extremo é uma evangelização que não deságua no compromisso com a misericórdia. Isso faz com que um número incontável de pessoas permaneça do lado de fora das igrejas porque não consegue entender a nossa alienação.

Olhe para o rol de membros das igrejas para ver se encontra sociólogos, antropólogos e cientistas políticos. O sujeito com formação nessa área entra numa igreja e fica em crise. Ele pergunta: “O país tem uma população carcerária de 600 mil homens vivendo em regime de campo de concentração e a igreja não se preocupa com isso?” Há um Carandiru e as igrejas de SP não vão pra rua. Há uma chacina da Candelária e as igrejas do Rio de Janeiro não vão pra rua. O que é isso?

A evangelização deve inevitavelmente desaguar na defesa dos Direitos Humanos, na justiça social. O grande mal do qual a evangelização verdadeira nos cura é da nossa incapacidade de amar. Não conseguimos amar, somos fascinados conosco mesmos, vivemos em função de nossos desejos, somos visceralmente egoístas. Só o poder do evangelho para quebrar uma coisa como essa.

SP: O sr. conhece diferentes experiências evangélicas. Qual é a igreja do futuro? Como a Comunidade da Graça pode seguir sendo atual e relevante? 

Muitas igrejas estão lutando para alcançar o que a Comunidade da Graça tem de bom e não conseguem. Os pastores são piedosos, tementes a Deus, você percebe um clima de amor muito grande na igreja, adoração contemporânea com boa música, muita ênfase em evangelização, grupos pequenos…

Tenho ministrado muito aqui (na sede) e nos encontros de liderança. Estive em Porto Seguro (BA) e em Águas de Lindóia (SP) falando para os pastores. Outro fator importante é o fato de você ter a figura do Carlos Alberto Jr. Ele faz boa política, com ênfase em Direitos Humanos e um discurso que tem consequências práticas como a legislação sobre o trabalho escravo, projeto do qual ele é autor.

A Comunidade da Graça está diante de uma oportunidade histórica de se tornar uma igreja referência para país. Mais ainda: ela já faz parte de uma nova história que está começando no Brasil.

Comentários

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1 Comentário

  1. O que Antonio Carlos Costa diz não é novidade. O Pr. Ricardo Gondim, da Igreja Betesda de SP, há mais de 05 anos prega enfaticamente sobre isso; o que conseguiu, aos olhos humanos? Ser relegado ao ostracismo pelo meio tido como “evangélico”. Mas segue sua luta, mesmo ferido pelos seus “pares”, movido por esse ideal. Que aos olhos de Deus haja gratidão e reconhecimento.

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