Carlos Bezerra Jr: “Entre dar o peixe e ensinar a pescar, escolho liberar o acesso de todos à lagoa”

Última parte da minha matéria publicada na última edição da Revista Comuna.

O texto de abertura está aqui e a entrevista com Antônio Carlos Costa pode ser lida aqui.

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Sérgio Pavarini: Há quase 2 mil versículos na Bíblia sobre pobreza e justiça. Qual a origem da negligência a temas tão centrais quanto esses?

Carlos Bezerra Jr.: Religiosidade pura e mercantilização da fé. Farisaísmo da pior espécie e ignorância, somados às mais variadas distorções teológicas. As consequências disso nas igrejas são devastadoras. Sobra julgamento, falta misericórdia, sobra dedo apontado, falta acolhimento.

Falsos líderes de púlpitos e palanques têm prosperado nesse terreno. De quebra, criam ainda o estereótipo do “evangélico” de hoje: o cara da prosperidade toda pra si e que não se importa mais com nada – afinal de contas, que compromisso deveria ter com o mundo? A fé sobre a qual ouve o aliena de seu semelhante. Prega-se uma conversão que não resulta em compaixão.

Temos de lutar contra isso profeticamente. Orando e agindo, protestando e intervindo. Não há negociação. A igreja na qual acredito está muito pra além de quatro paredes. Ela vai onde está a dor para curar, se coloca ao lado de quem sofre nos hospitais, planta jardins de compaixão em meio à brutalidade da cidade. Ela é estabelecida com pacto social de amor ao próximo e compromisso espiritual de avivamento por onde passa.

SP: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.” Já passou por problemas parecidos com o de dom Helder Camara, autor dessa frase?

CB: Nossa… Perdi as contas! Já fui chamado de comunista por outros crentes e até por gente do meu próprio partido. Fui criticado quando defendi grávidas pobres, perseguido quando combati o abuso de crianças e atacado quando declarei guerra ao trabalho escravo. Não sou comunista, claro. Sou cristão em Jesus e não ignoro a dimensão social disso. Entre dar o peixe e ensinar a pescar, escolho liberar o acesso de todos à lagoa. Por quê? Porque esse é o exemplo do meu Mestre. A mesma fé que nos leva a cuidar dos feridos pelas estradas das Jericós de hoje deve nos levar a contestar o sistema que permite tantos assaltos e acidentes nessas vias.

Fazemos isso orando, sim. Mas fazemos isso nos manifestando, ocupando espaços públicos de poder e usando tudo isso para sinalizar o Reino de Deus em meio às injustiças deste mundo. Todo cristão que deseja ser sal e luz enfrentará resistência espiritual e social. Por isso, sempre que sou contestado, descanso em Deus porque sei que o trabalho jamais será vão.

SP: Da década de 1980 para cá, o número de evangélicos no país experimentou o maior crescimento da história. No entanto, a percepção sobre o rebanho permanece negativa. O envolvimento social é um caminho para mudar esse quadro?

CB: Como podemos esperar que alguém veja os evangélicos de forma positiva quando somos símbolos de intolerância racial, ódio a minorias, estímulo a preconceitos, defesa de concentração de renda, meritocracia, associações políticas espúrias, corrupção e moralismo do mais rasteiro? Impossível.

O envolvimento social é um caminho, mas igreja não se faz com voluntarismo. Minha única mensagem e a da Comunidade da Graça é a de Jesus. Olhamos para Deus e sua obra de amor incondicional pelo ser humano. É uma mensagem só, com dois lados. Amor a Ele e amor ao próximo. Esse é o árbitro do meu coração na vida pública, do meu pai no pastorado, do Antônio Carlos em suas manifestações e do líder do pequeno grupo em sua célula.

O Mãe Paulistana salva vidas todos os dias e é hoje a maior política pública para saúde da mulher em São Paulo. Qual o espírito que motiva essa lei que propus? A compreensão bíblica de que a vida é valor supremo e que jamais pode ser barateada. Só nos cabe a decisão de cumprir com o que Deus espera de nós, como cristãos e como igreja.

SP: Como a Comunidade da Graça pode seguir sendo atual e relevante? 

CB: O espiritual e o social são nossas prioridades. Queremos uma igreja profética nos pequenos grupos, poderosa nos dons espirituais, firme na verdade bíblica do Evangelho e com um amor imensurável pelo próximo – enxergando-o integralmente.

Esse é o modelo da Comunidade da Graça. Somos uma igreja-família, e nos posicionamos segundo essa visão de Deus. A Fundação Comunidade da Graça não é maior do que o pequeno grupo e, na verdade, ambos são a mesma coisa: a Igreja. Vejo nossos membros cuidando de dependentes químicos, fazendo reuniões em orfanatos, promovendo mudanças em presídios, iniciando creches, dando comida pelas ruas e evangelizando onde passam. Isso tudo faz meu coração ser grato a Deus.

Nosso chamado é aquele do jejum que Deus espera de nós descrito em Isaías 58:  romper as cadeias da injustiça, desatar as cordas do jugo, libertar os oprimidos, repartir os alimentos, dar abrigo aos sem-teto, vestir os que estão nus. Queremos pessoas comprometidas com o Evangelho integral de Jesus. Nossa igreja é feita dessa gente, essa é a marca da Comunidade.


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