Aos que defendem a ditadura, o desprezo

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Luiz Caversan, na Folha de S.Paulo

Eu não quero ter hora para voltar para casa.

Eu não quero ser proibido de sair de casa.

Eu não quero ser proibido de voltar para casa.

Eu não quero ser exilado do meu país.

Eu não quero viver na clandestinidade.

Eu não quero ser proibido de ler um livro, qualquer livro.

Eu não quero ser proibido de assistir a um filme, qualquer filme.

Eu não quero ser proibido de escrever livros ou fazer filmes, se for o caso.

Eu não quero ser proibido de viajar, sair do país a qualquer dia, a qualquer hora, ir para qualquer lugar que me aceite, e depois voltar tranquilamente.

Eu não quero que me digam o que eu posso e o que eu não posso falar, como estou falando tudo isso aqui neste espaço.

Eu não quero que este espaço seja censurado.

Eu não quero que este jornal, que jornais, revistas, rádios e TVs digam apenas o que quem está no poder permitir.

Eu não quero, jamais, a volta da censura.

Eu não quero ser proibido de andar na rua, qualquer rua, a qualquer hora, sob o pretexto de eu ofereço perigo à sociedade.

Eu não quero ser preso sem saber por quê.

Eu não quero ser proibido de falar bem de Cuba e de falar mal dos Estados Unidos, ou vice-versa.

Eu não quero ser proibido de me manifestar, em ambiente público ou privado, a respeito do que quer que seja, contra ou a favor governo, governos, políticos, agentes públicos civis ou militares.

Eu não quero ser proibido de usar camiseta vermelha. Ou camiseta azul ou branca ou do Corinthians ou do Palmeiras.

Eu não quero ter minha residência violada, invadida, desrespeitada, a não ser que eu ou alguém da minha família tenha cometido um crime, e que haja ordem da Justiça a este respeito.

Eu não quero ver amigos sumirem, desaparecerem.

Eu não quero ver nenhum cidadão sumir, desaparecer, muito menos sabendo que o Estado tem responsabilidade nisso.

Eu não quero que os agentes públicos civis ou militares possam matar, torturar, perseguir, ameaçar, abusar das pessoas impunemente e respaldados, ainda que de forma dissimulada, pelo Estado.

Eu não quero ser proibido de votar, seja para presidente, para governador, deputado, senador, vereador ou síndico do meu prédio.

Eu quero ter o direito de ser a favor ou contra e inclusive de mudar de opinião.

Por isso eu não quero – nunca, jamais, em tempo algum – a volta da ditadura militar.

Se você é a favor da volta da ditadura militar você é a favor de tudo isso o que relacionei acima.

É a favor da ilegalidade.

Se você tem coragem de ir para a rua ostentando uma faixa pedindo a volta do horror, você faz parte deste horror de tão triste memória –ou não sabe disso, ou não quer saber disso ou quer se beneficiar pessoalmente disso.

Se você defende a volta da ditadura militar, conforme lembrou recentemente o professor e filósofo Renato Janine Ribeiro, você defende a volta de crimes e de criminosos.

Portanto, você merece desprezo.

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