O dia em que conversei comigo mesmo

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Ricardo Gondim

Em meio à névoa ruça do banheiro me deparei com um vulto. Ele apareceu refletido no espelho; parecia marcado por rugas prematuras. Fechei a torneira do chuveiro com pressa. Tomado por uma coragem súbita, questionei o homem.

– Quem é você? O que faz aqui?

– Eu sou você, respondeu com autonomia. – Preciso lhe falar.

Perturbei-me com o seu aspecto. Ele se parecia com a imagem que guardei de meu pai. Como podia afirmar que era eu? Seus poucos cabelos pareciam mais gastos do que os meus. Tentei dissimular, mas o sujeito continuou a me espreitar de dentro do aquário – o espelho. Ele não parou de me encarar do seu mundo bidimensional. Sem medo, insisti.

– O que deseja dizer? Por que me olha assim?

– Estou inquieto com você, ele respondeu.

– Não preciso de sua piedade, retruquei.

Assustei-me. A pessoa me falava com contundência. Eu nunca era assim naquela hora da manhã. Protegido pela blindagem do vidro, eu me provocava a um monólogo. O outro me confrontava, sem medo:

– Tanta beleza pode aflorar do seu coração. A vida é tão rara. Expulse os azedumes que têm força de lhe afogar. Se a vida é preciosa, cada dia merece ser vivido com simplicidade e ternura.

Estranhei. A pessoa que me passava o sermão era tão igual a mim. Sua voz ressoava por todo o banheiro. Repliquei com sarcasmo – talvez indiferença:

– Não consigo ter esperança em um mundo em que a diarreia ceifa milhões de crianças. A miséria africana me provoca indignação. Sou inconformado com a sorte dos palestinos. No meus país, tenho horror de dirigir à noite. Não me acostumo com roubalheira e desmandos públicos. Vejo o Brasil patinando na ignomínia.

À medida que falava fui me aborrecendo. Mirei o espelho ainda mais de perto. Eu precisava calar a boca – que era a minha – do homem que tentava me dar bronca.

– Você se lembra de que estudou economia nos tempos da ditadura? Acrescentei mais argumentos: – Tolo, não percebeu o ranço fascista no modelo econômico estatizado e cheio de mega empreendimentos? Ingênuo, você aceitou o endividamento do país como necessário para que obras faraônicas- estradas, estádios e edifícios das empresas estatais – mostrassem a suntuosidade de um regime truculento.

Aquele eu, que aparecia dentro do espelho, continuou a me encarar.  O vapor do chuveiro ainda deixava a imagem meio nebulosa. A reação do homem veio um pouco mais tranquila:

– Lembre, Ricardo: só quem consegue se voltar para dentro de si encontra o seu inescrutável norte. As circunstâncias do país não foram suficientes para roubar o seu sentido de vida. Não despreze o fato de que em meio à decepção, você aprendeu a amar, não parou de se arrepiar com o toque da mão amiga, despertou para o valor do silêncio e ainda nasceu para a poesia. Isso é viver. O horizonte utópico de nossos ideais estará sempre mais longe do que gostaríamos.

Não cedi. Embora interagisse apenas com um rosto que se parecia comigo, me mantive firme.

– Acreditei e me dediquei a uma missão que me feriu muito. Abracei o que considerava essencial na mensagem do evangelho e fui magoado. Noto que depois de muito suar, gastar os melhores anos de minha vida pregando, ensinando e incentivando, contemplo uma acelerada vulgarização do sagrado. Dói ver a comercialização cínica da fé. Parece que vale a pena ser superficial. A desilusão bateu na minha porta. Repito o Asafe bíblico: os espertos se multiplicam e os puros jazem no ostracismo; os soberbos prosperam de mãos dadas com os ímpios, e os humildes continuam uma minoria impotente.

A umidade do banheiro começou a se dissipar. Enxuguei o vidro. Com mais nitidez pude contemplar a pessoa que me inquiria. Não voltei atrás. Ele também não se intimidou. Com o olhar fixo em mim, voltou a se manifestar:

– Esperança é uma força que nos move a lutar, não porque vai dar certo, mas porque vale a pena. Os medíocres buscam a gratificação imediata dos seus atos. Os nobres pelejam pelo mero privilégio de se acharem dignos da causa a que foram convocados. Muitos já lutaram sem jamais alcançarem promessa alguma. Lembre-se: mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando o seu livramento; outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio de espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados, errantes pelos desertos e montes, pelas covas e cavernas da terra. Esses receberam o maior elogio da Bíblia: [Eles e elas foram] homens e mulheres dos quais o mundo não era digno (Hebreus 11.35-39).

Enquanto monologuei, afloraram em mim sentimentos ambíguos. Por um lado, percebi meu rosto marcado pelo desgaste do tempo. Precisei admitir que o meu espírito andava fadigado. Vi que a minha resiliência interior precisava ser renovada.

Meu solilóquio tinha que virar diálogo. Saí do banheiro. Apressei-me em recitar um salmo como prece.

Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador” (42.5).

Intuí que Ele logo me respondeu com salmos:

Os pobres nunca serão esquecidos, nem se frustrará a esperança dos necessitados” (9.18); O cavalo é vã esperança de vitória; apesar da sua grande força, é incapaz de salvar. Mas o Senhor protege aqueles que o temem, aqueles que firmam a esperança no seu amor (33.17-18); Não confiem na extorsão, nem ponham a esperança em bens roubados; se as suas riquezas aumentam, não ponha nelas o coração(62.10); O Senhor se agrada dos que o temem, dos que colocam sua esperança no seu amor leal (147.11).

Saí para trabalhar. Antes, repeti em voz alta: hoje aprendi a crer apesar da desesperança.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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