Por que há parlamentares evangélicos que querem fazer parte da Comissão de Direitos Humanos?

Charge do Thomate, publicada no Jornal A Cidade

Charge do Thomate, publicada no Jornal A Cidade

Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo

Defender os direitos humanos significa, por exemplo, cuidar para que indivíduos e grupos não esbarrem em nenhum limite além dos que são impostos pelo Código Penal.

Devemos desfrutar do direito de fazer tudo o que não for contra a lei, mesmo que nossas crenças e práticas sejam excêntricas, diferentes ou minoritárias.

Parece uma obviedade: o que não é proibido é permitido. Mas há mil jeitos de proibir o que a lei permite –basta discriminar, hostilizar, zoar.

Trabalhar numa Comissão de Direitos Humanos não é necessariamente coisa para libertário. Imagine que você seja rigoroso e intransigente no respeito às prescrições de sua fé: defender os direitos humanos será um jeito de defender seu direito ao culto, à dieta, às vestimentas que suas crenças lhe impõem.

Agora, se sua intransigência se aplicar aos outros, ou seja, se quiser que o mundo inteiro se comporte e pense como você, você não tem nada para fazer numa Comissão de Direitos Humanos.

E não vale alegar que suas razões são generosas (você quer que todos cheguem ao paraíso): o trabalho dessa comissão é o de garantir que cada um possa escolher a versão do paraíso que preferir.

Por que, então, há parlamentares evangélicos que querem fazer parte da Comissão de Direitos Humanos da Presidência da República? Ou pior, que almejam encabeçar essa comissão?

Como não parece que a liberdade de culto dos evangélicos esteja ameaçada, só resta concluir que eles querem trabalhar nela para se opor à liberdade dos que pensam diferente –o que é contrário ao propósito pelo qual a comissão foi instituída e existe.

Mas por que, em plena modernidade ocidental, alguém precisa impor suas práticas e crenças?

É uma pergunta urgente: 3.000 jovens ocidentais viajaram até a Síria e o Iraque para se juntar ao Exército Islâmico –alguns, muçulmanos de criação, outros, convertidos.

John Horgan, da Universidade de Massachussetts em Lowell, se coloca essa pergunta (seu livro, “The Psychology of Terrorism”, Routledge, teve uma segunda edição revisada em 2014).

Em entrevistas mais recentes (esta, por exemplo), o autor descreve os jovens que procuram o Exército Islâmico, e algumas das suas explicações talvez valham para todos os fundamentalistas, ou seja, para todos os que querem que os outros obedeçam às normas que eles escolheram se dar.

De fato, a paixão é uma só: a de forçar o mundo a agir segundo suas crenças pessoais.

1) O ocidental candidato ao EI é incapaz de seguir a regra da modernidade, pela qual cada um produz sozinho um sentido para sua vida. Para que ela faça sentido, nosso candidato precisa fazer parte de um coletivo ou de uma “ordem do mundo”.

Detalhe: para que uma crença consiga garantir que existe uma ordem do mundo, é preciso que o mundo confirme essa crença, mesmo que seja à força. Quer que Cristo seja o sentido do mundo? Não reze, saia numa nova cruzada e imponha Cristo a ferro e fogo.

2) Facilmente, quem precisa procurar um sentido para a sua vida acaba erotizando a morte (o sacrifício, o martírio). Uma morte que tenha sentido é o desafio supremo contra a falta de sentido da vida.

3) Lutar contra quem pensa diferente e matá-lo (ou forçá-lo a obedecer à minha crença) é um jeito de ganhar minha luta interna contra tentações e fraquezas. Por exemplo, impedir a prática de sexualidades divergentes é um jeito (fictício) de controlar minha própria sexualidade divergente.

Além disso, uma causa pretensamente “generosa” me autoriza a cometer atrocidades que, sem isso, eu nunca me permitiria (embora elas me tentem) –estupros, assassinatos etc.

4) O ingresso em uma causa inimiga de nossa cultura (temida pelos adultos e pelo suposto establishment) realiza o sonho adolescente em toda sua contradição: o máximo de transgressão, junto com o máximo de obediência servil e conformidade.

Exatamente como o ingresso numa gangue ou, talvez, numa igreja.

5) Os combatentes estrangeiros do EI gravam vídeos e mostram camaradagem e heroísmo iminente. Encontram, assim, um jeito de serem invejados por (alguns de) seus pares.

Nossa cultura é responsável pela miséria desses candidatos fundamentalistas? Talvez sim: por nossa maneira envergonhada de sermos modernos, como se viver num mundo sem absolutos e com pouco sentido garantido fosse uma falha.

Na verdade, deveria aparecer como nossa maior conquista.

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