Espiritualidade não-religiosa

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Ricardo Gondim

Caminho entre dois mundos que parecem cada dia mais antagônicos: o religioso e o secular. Desde que os grandes críticos da religião do século XIX e XX bateram na religião, sobe a cada dia o nível de animosidade entre os dois grupos. Não à toa. Com o recrudescimento dos diversos fundamentalismos – judaico, cristão e islâmico – novos argumentos ganham força para achincalhar os religiosos.

No judaísmo, grupos se valem da Bíblia para legitimar o avanço imobiliário sobre os derradeiros pedaços de terra palestinos. O argumento vem de uma leitura literal: “Deus deu a Abraão este pedacinho de mundo; é nosso direito invadi-lo”.

Entre cristãos, a agenda do fundamentalismo se confunde cada dia mais com a direita política. Existe uma coincidência de agenda: ambos defendem ideias conservadoras de família, propriedade, moralidade sexual e outras bandeiras como portar armas, pena de morte, e até o direito de promover guerra justa.

Extremistas islâmicos se multiplicam em grupos e subgrupos criminosos pelo Oriente Médio. Com eles, conceito medieval de teocracia volta a ser defendido na ponta do fuzil e na adaga afiada do verdugo frio.

No final do século XIX, inimigos da religião, como Mikhail Bakunin, diagnosticaram que a humanidade junto com a existência do Estado, conviveu com três castas: os nobres, os guerreiros e um “complemento necessário” para manter as duas primeiras castas: “os sacerdotes vagabundos e parasitas”. Segundo o teórico russo, a casta sacerdotal serviu sempre para legitimar e santificar as conquistas, bem como justificar atos iníquos, brutais e violentos. Bakunin, precursor do anarquismo político, disse ainda que as mais brutais iniquidades foram validadas pela casta sacerdotal como “manifestações da vontade divina”.

O sangue vertido desde os começos da História, as inumeráveis torturas infligidas à humanidade, os massacres de milhões de vítimas, o extermínio de povos inteiros em nome da religião, a para a maior glória de Deus, são as provas disso. 

Percebo-me estrangeiro entre os que não gostam de pastores e padres. Entendo, sou identificado como parte desse clero mesquinho que Bakunin descreveu. Poucos se importam que tenho procurado me manter crítico à ele. Por isso apanho dos dois lados. Sou mal visto pelos segmentos secularizados e amargo uma espécie de exílio por parte da casta sacerdotal. Nesse estreito corredor, insisto em escrever sobre espiritualidade, convocar colegas à transcendência e propor (sem proselitismo) novas ideias sobre a divindade.

Escrevo sobre uma espiritualidade que vá além da definição que Otto Maduro ofereceu para a religião: “Religião é um conjunto de discursos e práticas, referente a seres anteriores ou superiores ao ambiente natural e social, em relação aos quais os fiéis desenvolvem uma relação de dependência e obrigação.”

Não cultivo uma religião sanguinolenta, baseada em sacrifício, penitência, promessa ou obediência que visa agradar uma divindade que se assenta em um trono. Em minha cosmologia não percebo Deus em um canto remoto do universo. Não acredito que devo calar a minha inclinação à justiça devido ao desejo que se propagou entre os crentes de que fé tem como efeito conquistar privilégio celestial. Não vejo como desenvolver a minha espiritualidade, fazendo do meu umbigo o centro do universo. Como me ver abençoado enquanto a esmagadora maioria dos que me rodeiam é oprimida por sistemas iníquos?

Se o cristianismo capitulou e ao longo dos séculos passou a ser uma religião dos mais fortes, busco manter em mente que, no começo, o caminho da minha fé pertenceu aos proscritos, deserdados, escravos, exilados e miseráveis. Eles sentiram atraídos à mensagem de Jesus não como panaceia para os problemas, mas como coragem de enfrentar os que os oprimiam.

Não nego que nos estágios iniciais da razão humana, o medo engatilhou a noção de Deus. Sem conhecimento suficiente para explicar fenômenos climáticos como raios, vendavais e terremotos, nossos antepassados queriam se proteger. Ameaçados por todos os lados, homens e mulheres passaram a ver nos poderes que os metiam medo, seres vivos. Depois que a tempestade foi devidamente divinizada, veio a base da religião: oferendas precisavam ser imoladas para apaziguar a fúria de quem os castigava.

Bakunin não alivia. Sua análise é dura:

Toda religião, pagã ou cristã, judaica ou maometana, supõe necessariamente os três fatos seguintes: 1) A indignidade quase absoluta do homem e a necessidade de reconciliar-se por meio de sacrifícios e expiações com a divindade ofendida e encolerizada; 2) A incapacidade de elevar-se sozinho e reconhecer a verdade verdadeira, absoluta, a única que importa conhecer, com a ajuda da razão; 3) A impossibilidade de criar a lei moral sozinho e por meio da união de sua razão e e de sua vontade estabelecer a paz, a ordem pública e a justiça na sociedade.
[…]
Disso resultou que o antropomorfismo foi a essência de toda religião, e que o céu, morada dos deuses imortais, sendo na realidade apenas uma imagem invertida, enriqueceu-se por nossas próprias mãos e às nossas custas, de todos os despojos terrestres. Religião é, sem sombra de dúvida, um roubo cometido pela imaginação religiosa em detrimento da terra e dos homens, e em benefício do céu e dos deuses.

Considero a crítica inconteste. Nego, portanto, o teísmo tradicional. Ele concebe Deus acima e fora da história. Já não me ajoelho no altar em busca de me aquinhoar com “toda a sorte de bênçãos celestiais”. Não posso aceitar um Deus que insiste em manter a sua ira sobre a esmagadora maioria dos habitantes do planeta. Estou disposto a matar o Deus que “permite” iniquidade, violência e monstruosas desigualdades como direito soberano de fazer o que bem entender “com o que é seu”.

Se Deus pilota a história, misteriosamente, com o objetivo último de vingar a sua glória e se ele distribui a sua graça para uma minúscula parcela da humanidade, sou forçado a concordar com Bakunin: a religião é “a primeira expansão da razão humana na desrazão divina, a primeira luz da verdade humana através da mentira divina, a primeira manifestação da justiça através das iniquidades da graça”.

Saí desse jogo. Eu o denuncio como responsável, não só pela antipatia, como pela total rejeição de tudo o que diz respeito à transcendência. Abandonei o debate se Deus existe ou não – já que existir faz parte das coisas e das pessoas. Volto-me em direção à ele – ela – como Presença imaterial, insondável, indefinível e transcendental. Ele – ela –  permeia toda a realidade sem se confundir nela.

Agora busco uma espiritualidade que não concebe a divindade como manhosa, que quer ser adulada. Em meus exercícios espirituais me conecto ao Espírito; a Brisa que animou o profeta e que continua a soprar sobre homens e mulheres, independente da religião, para que digam um sonoro sim à solidariedade, ternura e beleza, e um retumbante não à injustiça.

Creio na encarnação. Deus está em tudo o que é louvável, de boa fama, nobre, humilde, manso, pacificador e íntegro. Creio que orar não é conseguir enviar forças na direção da eternidade para colocar Deus em movimento. Oro para entrar em sintonia com o pulsar divino nas profundezas do universo que, apesar de sua mecanicidade, me convoca à alegria, à angústia, ao gozo e ao lamento.

Não pretendo ganhar a simpatia dos que têm calo contra os conteúdos mais pobres da religião. E há muito desisti dos próprios religiosos. Desejo, tão somente, nutrir em minha interioridade a Presença que me desafia a enfrentar a vida sem perder a ternura.

Soli Deo Gloria 

[Mikhail Bakunin – Obras Escolhidas – Editora Imaginário – Texto: Essência da religião (1867) – Editora Imaginário, p. 141]

fonte: site do Ricardo Gondim

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