Otelo

foto: Heloisa Ballarini / SECOM

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Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

A ópera “Otello”, de Giuseppe Verdi, abriu a temporada lírica do Theatro Municipal deste ano. Ópera, como costumava dizer Charles Baudelaire, “entra nos ossos”.

Essa peça lírica é baseada na obra de Shakespeare “Otelo”, grande tragédia sobre amor, virtude, ciúmes e inveja. E a ópera de Verdi captura plenamente o drama clássico.

O crítico italiano Italo Calvino costumava dizer que um clássico é uma obra que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer porque trata de temas que sempre assolam o humano.

Iago, invejoso do sucesso do mouro Otelo, chefe da armada de Veneza, trama sua destruição. Um detalhe, que pode escapar facilmente, é o de que no período renascentista italiano (em que se passa a tragédia), nos séculos 15 e 16, o mar Mediterrâneo está enterrado em sangue por conta da guerra entre os turcos otomanos e os cristãos.

Sendo Otelo um mouro, a chance de ser visto como estrangeiro pelos habitantes de Veneza é enorme -o que, na trama, serve para engrandecer sua glória, coragem e fidelidade à cidade.

O casal Otelo e Desdêmona é pura virtude. Ele, corajoso, ela, fiel. Virtudes clássicas do homem e da mulher. Sei que muita gente vai dizer que isso é bobagem, mas, diante de Shakespeare, o sábio se cala.

Pobre de espírito é aquele que diz que “Otelo” é “uma peça machista”. Dá sono quem fala coisa assim.

Ela, rica e belíssima, filha de um senador, se apaixona pelo estrangeiro Otelo, muito mais velho.

Aliás, é essa diferença de idade que ajuda Otelo a sofrer de ciúmes, como é comum em homens que se casam com mulheres muito mais jovens. O fantasma de que ela, em algum momento, buscará um jovem como ela, é presente em muitos casais que vivem essa situação.

Mas é fato que as mulheres jovens encantam os homens mais velhos justamente pela beleza e doçura diante da vida.

Elas, por sua vez, encantam-se com homens mais velhos devido à experiência e à segurança que eles costumam passar principalmente quando tiveram sucesso na vida.

A tramoia de Iago é centrada na ideia de que um homem (ainda mais se for muito mais velho) é facilmente destruído pela insegurança sobre a fidelidade da mulher que ama.

Está na moda dizer que só homens inseguros com as mulheres que amam é que caem na condição de Otelo.

Mas a verdade é que apenas os mentirosos negam a síndrome de Otelo. E a mentira é a moda contemporânea por excelência quando falamos dos afetos e da condição humana.

Mentiras como essas fazem os mais jovens perderem muito tempo de suas vidas correndo atrás de modas que passam como o vento.

Iago monta uma situação em que Desdêmona, preocupada em fazer seu amor Otelo perdoar o melhor amigo, Cássio, é levada a interceder em favor deste.

Ela sabe que Otelo sofre porque castigou seu amigo. Não é uma idiota, apenas confia no amor de seu marido. E isso a destrói.

A inveja vence na peça, como costuma vencer muitas vezes na vida. Para Iago, conviver com um homem como Otelo é uma agonia.

Todos nós conhecemos pessoas melhores do que nós, e conviver com elas é um tormento. A história bíblica de Caim e Abel trata disso: Caim mata Abel por inveja.

“Meu veneno”, como diz Iago, que se reconhece como “feito à semelhança de seu Deus cruel” e que “sente a lama originária” cobrir seu corpo e sua alma, contamina Otelo plenamente.

Este passa a se torturar de ciúmes e tortura a bela e inocente Desdêmona, até matá-la asfixiada, apenas para descobrir, um minuto depois, pelas palavras de Emília, mulher de Iago, que ela era inocente.

A belíssima cena em que o casal caminha em direção ao horizonte, contemplando a beleza do céu, movido pelo amor que os une, no início da peça lírica, exemplifica o que muitos entendem como a ascese que o amor verdadeiro entre duas pessoas pode causar.

O amor romântico, quando correspondido, faz com que vejamos a beleza em toda parte. E isso é mais um motivo para a inveja dos outros.

Mas, como toda paixão, o amor é loucura e, contra ele, a razão pode pouco, porque quando pode é porque o amor já não existe mais.

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