Dói, mas tem cura

Brasil de hoje é melhor do que o dos militares, tanto quanto Portugal de agora, com ex-primeiro-ministro preso por corrupção e a recessão, é melhor do que o do salazarismo

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Zuenir Ventura, em O Globo

Depois de atuar no Rio por quatro anos como correspondente do “Diário de Notícias”, de Lisboa, o jornalista Hugo Gonçalves escreveu uma crônica-despedida intitulada “O Brasil que dói”, em que lembra sua “revolta” ao ouvir de uma escritora e uma agente literária cariocas a afirmação: “Este país não tem solução”. Foi na época das manifestações de 2013, e ele não entendia como as duas, com pouco mais de 40 anos, podiam ser “tão cínicas”, quando o país parecia tão mobilizado. “Elas olhavam-me como se eu fosse um menino ingênuo e idealista”. Rapidamente, Hugo viu os protestos se transformarem em atos de violência e destruição de propriedade, ônibus incendiados e lojas saqueadas. “Os protagonistas [eram] grupos radicais, bandidos do tráfico e gente paga pelos partidos. As medidas anunciadas por Dilma? Esquecidas para sempre”. Da esperança na chegada ao desencanto na partida foi um pulo. Mesmo reconhecendo que nesse período milhares de pessoas puderam sair da pobreza extrema, o quadro que pinta do país é desalentador: “Quando se olha para a deterioração da saúde, da educação, dos transportes, dos partidos, quando se olha para o conluio do PT com as construtoras, quando se percebe a farsa que foi Lula (o homem que deliciou jornalistas europeus), quando se mora no Brasil e traficantes fecham uma favela e impedem cinco mil crianças de ir à escola durante uma semana, e a polícia continua irremediavelmente corrupta, então é difícil não achar que em 12 anos de governos PT se desaproveitaram demasiadas oportunidades e que o Brasil foi sequestrado por pilhadores que enganaram milhões com plasmas e telemóveis comprados em 12 prestações sem juros”.

Se, em vez de quatro anos, meu colega tivesse vivido aqui 40 ou mais, como eu, abrandaria seu pessimismo, pois veria que, apesar de tudo, o Brasil de hoje é melhor do que o dos militares, tanto quanto o Portugal de agora — com um ex-primeiro-ministro preso por corrupção e uma grave recessão econômica — é melhor do que o da ditadura salazarista. Que o diga a escritora portuguesa Leonor Xavier, que se encontra de passagem pelo Rio, onde foi correspondente por mais de uma década — e, por coincidência, também do “Diário de Notícias”. Queridíssima por aqui, onde teve e tem amigos como Millôr Fernandes, Luiz Gravatá e Chico Caruso, Leonor sabe o quanto sua segunda pátria é capaz de regeneração, ou seja, de dar a volta por cima.

Hugo Gonçalves tem razão quando fala do “Brasil que dói”. Mas, ao contrário do que lhe disseram, tem solução, tem cura, ainda que a longo prazo. Basta continuar usando como remédio a democracia, coisa que o nosso processo histórico não tem feito de forma continuada.

 

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