Cabo Daciolo: ‘Não há política sem Deus’

Suspenso e ameaçado de expulsão, deputado diz não acreditar que será excluído do Psol. Para ele, partido precisa respeitar sua liberdade. Militar e evangélico, autor da ‘PEC de Deus’ nega ser reacionário: ‘Sou evolucionário’

daciolo

Fábio Góis, no Congresso em Foco

Militar e evangélico, o deputado Cabo Daciolo (Psol-RJ) corre o risco de ser expulso do partido ainda esta semana por manifestar posições que contrariam as orientações da legenda. Desde que chegou à Câmara, em fevereiro, envolveu-se em duas polêmicas com dirigentes partidários: a defesa de policiais presos acusados pelo desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, no Rio, e a apresentação de uma proposta de emenda que remete a Deus, e não mais ao povo, o poder máximo conferido pela Constituição Federal.

“Não existe política sem Deus. O fôlego que está no teu nariz, na minha narina, esse é fôlego de vida. Deus bota e Deus tira, meu amigo”, disse o deputado em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco. Cabo Daciolo diz não considerar a hipótese de expulsão e que seu partido não pode esquecer que traz na sigla a liberdade (Partido Socialismo e Liberdade).  “Não acredito que vá ocorrer. Entrei com um pedido de reconsideração, não cometi qualquer irregularidade dentro do partido. Os artigos de número 5 e de número 90 do estatuto permitem a livre expressão religiosa”, disse o parlamentar fluminense.

Na avaliação dele, o Psol age de maneira contraditória, pois sabia de suas ligações religiosas e com os militares quando aceitou sua filiação e o lançou candidato. No último dia 7, o deputado subiu à tribuna da Câmara e, exaltado, questionou não só a legenda como colegas como Jean Wyllys (RJ) e o deputado estadual fluminense Marcelo Freixo, uma das estrelas do partido (clique aqui para assistir ao vídeo no Youtube, material também veiculado na TV Daciolo).

Cabo Daciolo questiona o fato de o partido pregar a liberdade e, ainda assim, acioná-lo por suas convicções religiosas. “Já frisei duas vezes em plenário, e pedi para o Psol lembrar de sua letra ‘L’, da liberdade. Eu quero ser tratado com igualdade e a mesma liberdade que todos os outros parlamentares têm dentro do partido. Uma coisa para enfatizar: quando eu vim para o Psol, todos do Psol já sabiam que eu era militar e que era um homem de Deus, que sempre frisa Deus e Jesus Cristo”, argumentou, ressalvando que não integra qualquer bancada (evangélica, da bala, dos ruralistas etc) na Câmara.

“Evolucionário”

Vinculado a militares e religiosos, o deputado nega ser reacionário – define-se como “evolucionário” –, garante que frequentaria qualquer tipo de evento religioso, desde que convidado, e avisa que pretende alçar voos mais altos pelo partido.

“Quero ser o presidente do partido no meu estado. Quero poder concorrer, em um futuro bem próximo, ao governo do estado pelo Psol. Quero aprender com o Psol, crescer politicamente com o Psol e produzir para minha nação, para o meu povo trabalhador, para o meu povo da educação, da saúde”, vislumbra o parlamentar que, no vídeo em que contesta o Psol, recebe o apoio do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) – relação que enfurece a militância do Psol.

Na última sexta-feira (10), uma página do Facebook promoveu uma “manifestação virtual” pedindo a expulsão de Cabo Daciolo. Ele já está suspenso e corre o risco de ser expulso pelo diretório nacional do partido entre quinta e sexta-feira (15 e 16), quando a direção da legenda se reúne em Brasília.

“Incompatível”

Presidente nacional do Psol, Luiz Araújo disse ao Congresso em Foco que, com sua postura e suas declarações, Daciolo está se tornando “incompatível” com a legenda no exercício de seu mandato – o primeiro cargo eletivo que exerce. Mas o dirigente disse preferir esperar a deliberação da Comissão Nacional de Ética do Psol, responsável pela análise do caso, antes de dar declarações sobre Daciolo. “Vou voltar a me posicionar quando a comissão de ética apresentar seu relatório”, acrescentou Luiz, mestre em políticas públicas em educação pela Universidade de Brasília (UnB).

Daciolo fez 39 anos no último dia 30. Embora tenha carregado sotaque carioca, o deputado nasceu em Florianópolis (SC) e, graças às funções do pai militar, rodou o país até chegar ao Rio de Janeiro. Defende o papel dos militares para fazer do Brasil uma potência, chegou a defender que um general comande o Ministério da Defesa e tem dito que o país vive uma falsa democracia.

No Facebook, Daciolo resume em um pequeno parágrafo seu status atual: “Sou um dos 14 Bombeiros Militares do Rio de Janeiro EXPULSOS da corporação em fevereiro de 2012, de forma injusta, covarde e ilegal, durante as reivindicações salariais e de melhores condições de trabalho. REINTEGRAÇÃO DOS 14 JÁ!”, registra o deputado em seu perfil, criado em 2013. Ele se refere à greve dos bombeiros que liderou em 2011 no Rio de Janeiro, quando passou a interessar ao Psol politicamente.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Cabo Daciolo: ‘Não há política sem Deus’

Deixe o seu comentário