A explicação para supostos óvnis descritos na Bíblia? Enxaqueca

Ilustração de artigo sobre enxaqueca de 1870, de Hubert Airy. (foto: reprodução)

Ilustração de artigo sobre enxaqueca de 1870, de Hubert Airy. (foto: reprodução)

Carlos Orsi, no Olhar Cético

O nome dado à aplicação da velha hipótese dos “deuses astronautas” ao ao mito judaico-cristão é “Ufologia bíblica” – ela defende que as lendas e monumentos de povos antigos são, na verdade, vestígios de visitantes alienígenas. Trata-se de um campo que sofre de problemas muito parecidos aos da hipótese dos deuses espaciais que discuti em artigos anteriores (como este, mais recente, e este outro aqui), aos quais se somam o fato de que, ao contrário do que acontece com as antigas religiões pagãs do Egito e da Grécia, o judaísmo, o cristianismo e o islã ainda têm fiéis suficientes para se ofenderem com esse tipo de especulação.

Às vezes, no entanto, a especulação parte dos próprios fiéis. O livro  bible_saucers_okfundamental sobre o assunto, intitulado “The Bible and Flying Saucers”  (“A Bíblia e os Discos Voadores”) é de autoria de um pastor presbiteriano, Barry Downing. A obra tem como epígrafe uma citação de Hebreus – “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos” (13:2). No contexto elaborado por Downing, anjos podem muito bem ser visitantes alienígenas .

“The Bible and Flying Saucers” faz um estranho contorcionismo filosófico, e acaba derrotando-se a si mesmo: ao tentar demonstrar que os milagres da Bíblia são, na verdade, descrições precisas dos atos de visitantes de outros planetas, o autor monta uma defesa da verdade literal da narrativa bíblica, mas destrói seu sentido: ela deixa de ser sobre a relação entre Deus e os homens e passa a ser sobre relação entre a humanidade e os ETs.

Entrei nesse assunto por conta de um comentário postado em um de meus artigos anteriores sobre deuses astronautas. Um leitor perguntou: se os deuses são eram astronautas, o que está descrito em Ezequiel 1:4? Ele estava se referindo às passagens iniciais do Livro de Ezequiel, um dos profetas do Velho Testamento. Essas passagens são, às vezes, interpretadas como uma visão de óvnis. Transcrevo, direto da Bíblia Online:

Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do norte, uma grande nuvem, com um fogo revolvendo-se nela, e um resplendor ao redor, e no meio dela havia uma coisa, como de cor de âmbar, que saía do meio do fogo./E do meio dela saía a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem.” (Ezequiel 1:4-5)

A questão, portanto, é: se esse negócio que Ezequiel disse que viu não era um disco voador com ETs, então era o quê?

A primeira coisa a notar é que esse tipo de argumento – “se X é falso, Y fica sem explicação, portanto X é verdadeiro” – é inválido! Trata-se de uma variação da velha falácia do apelo à ignorância (“ninguém sabe o que é isso, logo eu sei o que é isso”). O fato de eu não saber explicar como o vaso de flores que estava em cima da mesa foi parar no chão não me obriga a acreditar que ele criou pernas e cometeu suicídio. Isso seria uma explicação, sem dúvida, mas estaria longe de ser plausível ou aceitável.

O mais interessante nisso tudo é que há, de fato, uma explicação bem plausível para a visão de Ezequiel: enxaqueca.

Em seu livro clássico sobre o assunto – intitulado precisamente “Enxaqueca” – o médico e pesquisador americano Oliver Sacks descreve como alguns sofredores desse mal experimentam alucinações – “auras” – que muitas vezes envolvem luzes e padrões geométricos. Sacks não tem dúvida de que a santa medieval e visionária Hildegard de Bingen deveu suas espantosas visões místicas a ataques de  enxaqueca. Usando o trabalho de Sacks como base, o professor de Literatura e pesquisador da Bíblia Randel Helms estende a conclusão a Ezequiel. O que faz sentido.

Só para dar um exemplo, um pioneiro no estudo da doença, Sir William Gowers (1845-1915), descreve uma aura de enxaqueca da seguinte forma: “Um disco luminoso, que subia, quebrava-se em um objeto de quatro partes, e desaparecia”. Trata-se de um padrão que lembra bastante a visão de Ezequiel, citada acima, incluindo a divisão da luz original em quatro.

Sacks descreve uma série de padrões que são comuns em auras de enxaqueca, incluindo luzes, ziguezagues, polígonos, treliças. Ele menciona obras de arte criadas a partir dessas visões, incluindo desenhos feitos no século 19 pelo médico Hubert Airy para ilustrar um artigo científico sobre o assunto. Uma dessas ilustrações você vê nesta página.

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