A sombra da grande maioria

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Por Dodô Azevedo, no G1

O primeiro passo para revertermos toda essa involução conservadora que vemos movimentar as ruas, mudar cursos de novela e pautar, como nesta quinta-feira (23), o programa “Na Moral”: assumir que o pensamento do pastor que lá esteve representa, hoje, o pensamento da maioria dos brasileiros.

E se você pensa diferente, hoje, no Brasil é minoria.

Duvida? Dê uma olhada nos comentários de qualquer matéria do site, por exemplo. Eles te dirão o seguinte:
Tolerante, você é minoria.

Pronto, doeu? É teu povo, durma com este barulho.

Houve uma época que a cara do brasileiro era o papagaio Zé Carioca, noutra o Grande Otelo Macunaíma, noutra o jogador de futebol de drible fácil, noutra a Gisele Bündchen.

Hoje, a cara do brasileiro, de seu povo e cultura contemporânea, é a cara do pastor inflamado no programa de Pedro Bial; líder de uma na verdade maioria, respaldado pelo povo nas esquinas e nas ruas, que usa o discurso contrário: “Somos uma minoria, temos que lutar contra a maioria do não-sei-que-lá e a ditadura do sei-lá-o-quê”.

Está falando de nós, a verdadeira minoria (ver números das últimas eleições, quando foi eleito o Congresso mais conservador da história).

E todo mundo cai nessa: a verdadeira maioria conservadora achando que é uma minoria, e nós, a verdadeira minoria tolerante crente que estamos abafando porque há beijo gay na TV.

Enquanto continuarmos nos enganando, achando que o Brasil é o país do sujeito liberado e tolerante, de sorriso fácil e simpatia invencível, a reversão a este movimento conservador não começa.

Hoje, é fundamental nos assumirmos (eu penso diferente do pastor) como minoria. Isso significa assumir os procedimentos mais incisivos de luta adotados por minorias.

Resistência.

A essa nova maioria endurecida, poderosa nas urnas, letrada-iletrada (ontem, no programa de Bial, o pastor, para condenar o casamento gay, revelou uma ignorância preocupante ao valer-se do filósofo Michael Sandel, a favor do casamento gay).

Gente que não tem a menor cara que parou para ler todo o Projetos para o Brasil, apontamentos feitos por José Bonifácio no século XIX, ou os diários de Oswald Briely, garimpados por Pedro da Cunha de Menezes.

Por enquanto, vivemos nós, esta minoria, um tanto na soberba, um tanto alienados em nossas ilhas tolerantes, ignorando todo este continente conservador.

Por ignorarmos, deixamos este continente crescer e multiplicar-se biblicamente.

Há algo obscuro que precisa encontrar resistência.

Penso que, infelizmente, só vai cair a ficha de nossa minoria quando sofrermos uma autocracia religiosa completa: com um líder religioso na Presidência da República.

Embora pareça agora tarde demais: pareça ser agora só o caso de esperar para ver.

Comentários

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1 Comentário

  1. Reverton disse:

    Texto altamente intolerante e preconceituoso com os que pensam diferente de você

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