Dave Gibbons: “Deus não pode ser colocado numa caixa”

Ativista social dá a receita para igrejas brasileiras se tornarem atraentes para os jovens

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Sérgio Pavarini

Justin Bieber aceitou Jesus quando ainda era criança. Britney Spears e Miley Cyrus frequentaram igrejas batistas durante muitos anos. Vocalista e líder do Coldplay, Chris Martin é filho de pastor, assim como Katy Perry, estrela pop que confessou ainda falar em línguas estranhas.

Ao contrário do que alguns apressados podem deduzir, abandonar o evangelho durante a adolescência não é prerrogativa de quem abraça a carreira musical. Pesquisa do Grupo Barna apontou que 59% dos jovens deixam a igreja de forma permanente ou durante um longo período de tempo depois de completar 15 anos de idade.

Pastor da Newsong Church, em Irvine, Califórnia (EUA), Dave Gibbons é escritor e ativista social. Ele tem quatro filhos e aproveitou as crises de adolescência deles para rever a atuação de sua igreja em muitas questões. Gibbons foi um dos preletores da Conferência Profética realizada na Comunidade da Graça em maio de 2014 e compartilha algumas de suas ideias nesta entrevista.

Sérgio Pavarini:  Como foi a experiência que viveu com seus filhos na relação deles com a igreja e como isso afetou seu ministério e sua comunidade?

Dave Gibbons: Minha esposa e eu não forçamos nossos filhos a serem perfeitos, nem colocamos muita pressão sobre eles. Nosso trabalho é amá-los da melhor forma que conseguimos e confiar que o Espírito Santo os fará crescer. A fórmula que encontramos é esta, amá-los bem do jeito que eles são. Uma medida que nos ajudou especificamente foi viajar para diferentes partes do mundo com eles e os expor à vida real fora da bolha da cultura californiana, onde vivemos.

SP: Um pastor e psicólogo brasileiro disse que a “a igreja produz variados tipos de neuroses na vida de seus participantes”. É possível recuperar nossa vocação terapêutica original?

DG: Sim, como igreja temos um histórico de ter de fazer acréscimos às boas novas. O apóstolo Paulo e o próprio Jesus tinham palavras duras para os que faziam isso. Legalismo, desempenho, materialismo, lideranças abusivas, religiosidade, orgulho e ganância –  tudo isso leva a igreja a ficar doente. O que nos ajuda é voltar aos fundamentos, aos mandamentos simples que recebemos: AMAR a Deus de todo nosso coração, mente e alma. E AMAR ao próximo (o próximo é alguém diferente de você, que talvez você até odeie). O amor é mais importante que as regras. Colocando de forma bem simples, é tratar as pessoas como se elas fossem da sua família, seu irmão ou irmã de sangue. Nesse contexto somos chamados a andar com as pessoas e abençoá-las, o que significa enxergá-las, conhecê-las, afirmar seu quadro único de características e generosamente se doar a elas.

SP: Muitas igrejas têm adaptado os cultos para um formato de show a fim de atrair e manter a juventude. É possível transformar espectadores em discípulos?

DG: Sim, mas isso requer uma estratégia customizada de investir pesadamente em alguns poucos. Requer medidas únicas e simples, tomando tempo para ouvir a Deus e àqueles que são chamados para servir, preparando nossos sistemas para capacitar as pessoas a realizar seus sonhos e não somente para realizar a visão do pastor. É liberar as pessoas para viver mais plenamente fora da igreja do que dentro. Temos um programa na igreja chamado VIVA! (LIVE!) que ajuda as pessoas a conhecer sua maneira de ser, a libertar-se de suas barreiras, a experimentar o amor e a levá-las a andar no caminho que Deus deseja que elas busquem.

SP: A internet é aliada ou prejudica a relação dos jovens com os irmãos na fé e com Deus?

DG: A internet e as mídias sociais são ferramentas para nos ajudar a construir nosso relacionamento com Deus e com os outros. Entretanto, não são um fim em si mesmas. Nada substitui a interação humana, o olho no olho, o toque e a presença física.

SP: Philip Yancey chamou Henri Nouwen de “o ferido que cuidava de feridos”. Como viver no século 21 o texto de Paulo “quando sou fraco é que sou forte”?

DG: Isso requer uma mudança de mente e ter de fazer alguns movimentos. Do ponto de vista mental, precisamos entender que a ressurreição é sempre precedida pelo sofrimento. Você pode ser uma pessoa boa, santa e justa e ainda assim sofrer. Jesus, Jó, Paulo e muitos outros passaram por isso. A dor na Bíblia parece ser uma plataforma por meio da qual o poder é experimentado e distribuído. A dor pode nos guiar positivamente e até mesmo se tornar um dom, porque o sofrimento sempre nos dará uma maior sensibilidade para certas questões que o outro atravessa. Essa experiência nos guia na direção daquele que Deus deseja que a gente sirva. Em 2 Coríntios 1, Paulo menciona que podemos confortar os outros com o mesmo conforto que recebemos. Nossa dor pode se tornar um dom porque ela se torna uma referência para as pessoas, muito mais do que nossas habilidades extraordinárias, experiências ou talento. O sofrimento nos confere autoridade, aonde quer que a gente vá. A força divina se faz perfeita em nossa fraqueza!

SP: Pesquisa do Barna Research apontou que 59% dos jovens deixam a igreja após completar 15 anos de idade. Como vencer esse problema?

DG: Estou certo de que essa pergunta encontra várias respostas levando em conta a cultura, o contexto social e a liderança da igreja também. Em minha visão, há alguns dados simples que poderiam ser aplicáveis ao Brasil:

1) Tenha os pés no chão. Nós não precisamos “turbinar” Jesus para alcançar os jovens. Ele é poderoso do jeito que é.

2) Seja honesto com as  questões internas da igreja e com os outros. O mistério é para ser abraçado. Deus não pode ser colocado numa caixa.

3) Mostre como eles podem ser guiados e cheios do Espírito sem usar linguagem esquisita ou agir de forma esquisita. Podemos ser naturalmente sobrenaturais.

4) E, por último, nunca deixe de amar incondicionalmente.

fonte: Revista Comuna

Comentários

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1 Comentário

  1. Renata Santos disse:

    Deixar as pessoas livres para viverem seus sonhos e não apenas a visão do pastor. Viver fora da igreja e não apenas dentro. Verdades que precisam ser espalhadas atualmente. Estamos tão presos à igreja (instituição) que não temos nem tempo de ser luz no mundo. Ficamos brigando pra iluminar onde ja tem muita luz.

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