Após Libéria derrotar o ebola, igrejas locais passam por crise de fé

A religião foi uma das áreas afetadas com a epidemia do vírus ebola no oeste da África, que deixou mais de 4.700 mortos desde o início de 2014 apenas na Libéria (foto: Daniel Berehulak/The New York Times)

A religião foi uma das áreas afetadas com a epidemia do vírus ebola no oeste da África, que deixou mais de 4.700 mortos desde o início de 2014 apenas na Libéria (foto: Daniel Berehulak/The New York Times)

Norimitsu Onishi, no The New York Times [via Folha de S.Paulo]

Agora que a epidemia de ebola oficialmente terminou na Libéria, o país tenta reconstruir praticamente tudo, desde seus sistemas de saúde e educação a sua economia e sua imagem internacional.

Mas no salão obscuro da Igreja Unida Deus É Nossa Luz, que está com o gerador desligado para economizar, a congregação vem tentando reparar algo mais fundamental: seu espírito.

“Alguns de vocês estão pensando que esta igreja vai morrer”, gritou seu secretário, Joseph Vayombo, na pequena igreja pentecostal, sem conseguir conter sua frustração diante de tantas cadeiras vazias. “Há pessoas aqui que querem que esta igreja morra.”

Enquanto o ebola ainda aflige a Guiné e Serra Leoa, a Organização Mundial de Saúde declarou que a epidemia terminou na Libéria, o país mais atingido por ela, com mais de 4.700 mortes. Mercados, clínicas e escolas reabriram. Mas as igrejas enfrentam um desafio especial.

Líderes religiosos muitas vezes negaram que o ebola, uma doença nova na África ocidental, fosse real, e muitos a consideraram uma punição divina pelos atos de homossexualidade na sociedade e pela corrupção no governo.

Os doentes, incapazes ou contrários a buscar tratamento foram às vezes levados para rezas nas igrejas, que se tornaram santuários para eles. Mas a prática também acabou disseminando o vírus pelas congregações.

Em Monróvia, capital da Libéria, cerca de 40 pastores morreram depois de contrair o ebola por ministrar a seus congregados, disse St. John York, secretário-geral do Conselho Inter-Religioso da Libéria. A maioria era pentecostal, o movimento cristão de mais rápido crescimento na África.

“O ebola trouxe problemas para as igrejas e para os relacionamentos”, disse aos fiéis Philip Moseray, pastor-assistente da Igreja Unida Deus É Nossa Luz. “Mas Deus está no controle, e não vamos desistir. Estamos tentando nos reconstruir. Estamos tentando nos superar.”

O Conselho Inter-Religioso trabalhou com autoridades religiosas cristãs e muçulmanas para impedir práticas que envolvessem tocar o corpo dos doentes ou mortos devido ao ebola.

A maioria acatou as novas regras, exceto os membros das igrejas pentecostais, que eram os mais fervorosos negadores da epidemia, segundo York.

“Alguns deles acreditam que têm o Espírito Santo e não podem ser afetados pelo ebola”, disse o bispo Amos Sesay, fundador dos Ministérios da Palavra da Fé, uma igreja pentecostal que tem 45 filiais na Libéria.

Foi em meados de junho que uma mulher doente foi levada para uma oração de cura na Igreja Unida Deus É Nossa Luz. Depois que mãos dos fiéis foram impostas sobre ela -e depois nos que foram infectados ao tocá-la-, a doença dizimou a igreja, matando oito membros, ou cerca de 10% da congregação.

O cuidador da igreja, um pai de quatro crianças chamado James Fallah, foi levado a uma clínica onde morreu horas depois.

Na clínica, chamada de Logan Town, ele transmitiu o vírus para um funcionário e desencadeou infecções que mataram pelo menos 15 pessoas, incluindo um dos principais jogadores de basquete do país, segundo dezenas de entrevistas com membros da igreja, profissionais de saúde, parentes e moradores do bairro.

O reverendo Edward Kellie, pastor-chefe que foi um dos fundadores da igreja há duas décadas, também adoeceu, mas disse que não era ebola. Ele ficou ausente da congregação por várias semanas. As autoridades de saúde colocaram o prédio da igreja sob quarentena.

“As pessoas estavam revoltadas com a liderança da igreja por receber pessoas doentes -a igreja é um lugar de oração, e não um hospital”, disse Moseray, 42, o pastor-assistente. “Ainda estamos atrás deles, falando com eles para que voltem.”

A aparente aleatoriedade do ebola também cobrou um preço da fé dos congregados. A mulher de Fallah sobreviveu, mas os membros da igreja que depositaram as mãos sobre ela rapidamente durante a oração foram infectados e morreram pouco depois.

Os cientistas acreditam que algumas pessoas têm maior resistência ou mesmo imunidade ao ebola. “Nós não entendemos realmente isto”, disse Moseray. “Na verdade, tornou-se um mistério.”

Depois de se recuperar, o pastor Kellie começou a visitar as casas dos fiéis. “‘Louvor a Deus’, eu lhes dizia”, contou ele. “‘Deus os ama. Eu estou pedindo a vocês, por favor voltem’.”

Depois de ficar afastado durante um semestre, Mary Quito, uma antiga frequentadora da igreja, retornou, mas disse que está aterrorizada. “Confiamos em nosso Deus que é seguro”, disse ela. “Mesmo que entremos aqui Deus vai operar seu milagre.”

Afinal, a maioria passou a acreditar que o Diabo havia trazido o ebola à Libéria e a esta igreja, mensagem que ainda é repetida nos sermões de domingo. “Eu fiquei irritada com o demônio”, disse Esther Fallah, a viúva do cuidador. “Não posso ficar irritada com Deus.”

Durante a epidemia, parentes das vítimas culpavam os pastores por irem às casas e não respeitarem a quarentena, enquanto os religiosos acusavam os familiares dos infectados com o vírus ebola (foto: Daniel Berehulak/The New York Times)

Durante a epidemia, parentes das vítimas culpavam os pastores por irem às casas e não respeitarem a quarentena, enquanto os religiosos acusavam os familiares dos infectados com o vírus ebola (foto: Daniel Berehulak/The New York Times)

tradução: Luiz Roberto Gonçalves

 

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